Rosana Hessel
Publicação: 19/01/2012
Aos 23 anos, a mineira Luísa Peconick sonha alto.
Nem bem terminou o curso de biologia da Universidade
de Brasília (UnB), começou um mestrado na
instituição. Apesar de dedicar quase todo o tempo de
estudo à virulência de um gene específico de um
fungo, já prepara caminho para fazer um doutorado no
exterior. Tanto comprometimento lhe rendeu uma
bolsa, de R$ 1,2 mil mensais, bancada pela
Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível
Superior (Capes).
O carioca Marcus Cardoso, 36 anos, tem a clara noção
do esforço despendido na última década para alcançar
o mais elevado grau de educação. Convencido de que o
seu lugar era na universidade, ingressou, em 2003,
em um mestrado na área de antropologia. Terminada
essa etapa, partiu para o doutorado, concluído no
ano retrasado. Agora, financiado pelo Conselho
Nacional de Desenvolvimento Científico e Tecnológico
(CNPq), está mergulhado nos livros para disputar uma
vaga de pós-doutorado fora do país.
Os casos de Luísa e de Marcus deveriam ser
rotineiros em um país que alcançou o posto de sexta
maior economia do planeta. Mas, infelizmente,
configuram quase exceções.
Em número de doutores, o país continua atrás de
muitas economias menores, com uma média de 1,4
graduado para cada mil habitantes. Ganha apenas da
vizinha Argentina, com uma relação de 0,2,
conforme levantamento da Capes para o Plano
Nacional de Pós-Graduação (PNPG) até 2020. A maior
referência é a Suíça, com 23 doutores para cada
mil habitantes. Em segundo lugar está a Alemanha,
com 15,4, seguida pelos Estados Unidos, com 8,4.
"No ritmo atual, só conseguiremos alcançar níveis
como os da Austrália e do Canadá, de 5,9 e 6,5
doutores para cada mil habitantes,
respectivamente, em 2025. E, com muita sorte, até
2050, nos equipararemos à Suíça de hoje", diz o
presidente da Capes, Jorge Guimarães. Não será
tarefa fácil. Com um total de 12 mil doutores e 40
mil mestres titulados no ano passado, várias
universidades já enfrentam dificuldades para
completar seus quadros. "A rede privada está
desesperada para cumprir as exigências do
Ministério da Educação de se ter, no mínimo, um
terço do quadro de professores com mestrado e
doutorado", afirma Rodrigo Capelato, diretor
executivo do Sindicato das Entidades de
Estabelecimentos de Ensino Superior do Estado de
São Paulo (Semesp). "E não está sendo diferente
nas universidades públicas", acrescenta.
Desafios
Não bastasse a escassez de doutores nas
universidades, também a indústria se ressente da
falta de profissionais para tocar programas de
pesquisa e inovação, como é comum nas economias
desenvolvidas e na maior parte das nações
emergentes. "No Brasil, cerca de 70% dos doutores
estão na educação e 11% na administração pública.
Mudar esse quadro é um dos maiores desafios para
o desenvolvimento da economia do país", ressalta
Glaucius Oliva, presidente do CNPq. A virada tão
necessária, porém, terá de começar na base da
pirâmide, pois, mesmo com os avanços no combate à
evasão escolar e com os investimentos em novas
universidades públicas e em programas de bolsas para
estudos no exterior, o Brasil ostenta 60% de
analfabetos funcionais, pessoas que sabem ler, mas
têm dificuldades para interpretar um texto.
"Esse é um dos motivos para tanta evasão nas
universidades e para o deficit de profissionais que
a economia tanto necessita" destaca Guimarães, da
Capes. Nos cursos de engenharia, por exemplo, 65%
dos alunos matriculados desistem no meio do caminho
por não conseguirem acompanhar as aulas. Trata-se
de um quadro inaceitável que empurra o Brasil para
o 47º lugar na lista dos países mais inovadores do
mundo, mesmo sendo o 13º maior produtor de
trabalhos científicos.
A hora da virada, acredita Glaucius Oliva, é agora.
O governo não pode fracassar no projeto lançado em
agosto do ano passado, o Ciência Sem Fronteiras, que
tem como meta enviar 100 mil estudantes a
universidades estrangeiras até 2014. A frustração
custará anos de atraso para o país, conforme o
último capítulo desta série.
Dados do Institute
of International Education (IIE) mostram que, em
2011, o Brasil enviou apenas 8,7 mil estudantes de
pós-graduação para os EUA, contra 157,5 mil da
China e 103,8 mil da Índia.
Fonte: Correio Braziliense20/01/2012