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Intercambista da Univates em Portugal

Magali Beatriz Baierle - Letras

Já me fizeram muitas perguntas desde que cheguei no Porto, em janeiro. A mais recorrente foi “e aí, tá gostando?”. Creio que a resposta completa excederia os caracteres pré- estabelecidos para uma conversa informal por whatsapp, então eu sempre respondi “sim, muito!” - e seus derivados. Mas a verdade é que o sentimento vai muito, muito além de gostarou não gostar. É um misto de confusão e euforia que transcende o explicável. E, antes de tudo, é singular. Não importa o que digam, como digam e o quanto digam, você vai se encantar por aquilo que for encantador para você. O que posso adiantar é que é difícil não se apaixonar por todos os cantos desta cidade.
 
É fato que os primeiros dias foram os mais surpreendentes e emocionantes, mas mesmo depois de tantas semanas eu continuo ficando sem ar com cada pôr do sol, com cada árvore a florescer com que sou presenteada no meu caminho rotineiro, com cada revoada de gaivotas, com cada arco-íris, enfim, com todas as cenas que a natureza protagoniza nesta pequena-
grande cidade que - não à toa - é considerada uma das melhores cidades para se viver no mundo.
 
O que de mais valioso vai-me ficar dessa experiência, no entanto, é algo que não posso levar em fotos, vídeos nem lembranças: tem a ver com sentimento. Aqui eu aprendi não só sobre ser, mas principalmente sobre pertencer. Embora eu tenha feito poucos amigos de outras nacionalidades, o que eu mais conheci foram novas culturas - culturas que, agora, mais do que nunca, fazem parte de mim. Foi preciso que eu estivesse aqui para que fosse capaz de entender - na pele - o que Saramago quis dizer com “é necessário sair da ilha para ver a ilha. Não nos vemos se não saímos de nós”. Foi aqui que eu precisei estar para entender o que significa não só ser (do), mas principalmente pertencer (ao) Brasil.
 
Embora soe um pouco nacionalista, com um quê de “minha terra tem palmeiras/onde canta o sabiá”, não posso negar que as aves que aí gorjeiam, não gorjeiam como cá. É preciso um certo tempo para se acostumar com a falta das grandes explicações e adendos para responder a uma pergunta simples - como nós brasileiros fazemos - e com o tom objetivo, que muitas vezes é considerado, por nós, áspero. Mas depois de um tempo - quando você se acostuma com o vós e o estão a perceber? e passa a entender algumas das piadas - é mais fácil interagir e se sentir bem-vindo e você começa a pensar que os portugueses são - se calhar - um povo muito mais acolhedor do que você imaginava.
 
Por isso, posso dizer que o intercâmbio me ensinou a valorizar não só a nossa cultura, como também a deles. Infelizmente, alguns brasileiros ainda têm uma visão extremamente negativa - embora demasiado sutil e bastante velada - dos portugueses e boa parte de nós continua a considerar Portugal como um país inferior aos demais países da Europa. Mas eles não: a maioria deles - não todos, é claro - nos vê como um povo admirável e apreciam imenso nossos feitos, nossa música, nossa culinária, nossa literatura, nosso “jeito”, nossa alegria, nossas novelas (e como!) e, claro, nosso país como um todo.
 
Eu poderia terminar dizendo algo como “você vai adorar fazer intercâmbio, vale muito a pena!”, mas acredito que nada - nem esses mais de três mil caracteres - é capaz de explicar o que de fato é essa experiência. A única coisa que eu posso afirmar é que vou voltar pro Brasil outra pessoa, não só por ter conhecido outras culturas - outras obras, outros autores, outros modos de ver o mundo -, mas principalmente por ter aprendido a valorizar a minha própria, e essa é a mais bela lembrança que terei de Portugal.
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