O Brocantes nasceu do projeto Palavras e Coisas da Escola: uma pesquisa arquivística, iniciado em 2023, com a aprovação da Bolsa de Produtividade em Pesquisa do CNPq (Edital 09/2022). Está vinculado ao Grupo de Pesquisa Currículo, Espaço, Movimento (CEM/CNPq) da Universidade do Vale do Taquari – Univates, mais especificamente ao GT2 – Arquivo, docência e criação.
Com o propósito de recolher documentos institucionais que dizem da escola, mas também papéis que enunciam a vida singular daqueles que por ela passaram, buscamos criar um arquivo digital público de documentos e papéis escolares produzidos pela escola desde o início do século XX.
Começamos nas ruas, criando as brocantes — prática que copiamos daqueles que amam os vestígios das vidas íntimas e anônimas e que, nas beiras das calçadas, fazem circular aquilo que sobra e que sobrevive ao esquecimento. Nas brocantes, arrecadamos os primeiros papéis escolares e começamos a criar gosto pelos papéis amarelados, carcomidos, rasgados, rasurados. Brocantes, então, tornou-se o modo como passamos a nomear a própria pesquisa.
Arquivar esses papéis não tem o objetivo apenas de conservá-los, pois, ao modo de Michel Foucault — referencial que orienta o projeto — o arquivo não é apenas uma forma de guardar, mas uma forma de fazer persistir determinados enunciados. Desse modo, organizar esse arquivo público é uma maneira de dar a ver o que produzimos documentalmente na e pela escola durante mais de um século, assim como de compreender o que, disso que produzimos, ainda reverbera no presente.
Com as inundações que assolaram o Rio Grande do Sul em 2024, emergiu um novo desdobramento do projeto: As escolas e a enchente: imagens dos eventos climáticos extremos. O arquivo de imagens das escolas atingidas pelas cheias deu lugar a uma nova coleção, feita de pequenos fragmentos dispersos, pedaços de escolas que sobreviveram à destruição.
Uma terceira coleção emerge do reconhecimento de uma ausência persistente nos arquivos escolares: a das experiências de pessoas trans na escola. O Brocantes Trans reúne documentos escolares vinculados a trajetórias trans — cadernos, boletins, trabalhos, certificados, bilhetes e outros papéis que sobreviveram ao tempo, à violência institucional ou ao abandono forçado da escola. Ao arquivar esses vestígios, a coleção busca tornar visíveis experiências historicamente silenciadas, afirmando o direito à memória e a agência das próprias pessoas trans na decisão sobre o que guardar, compartilhar e fazer existir como arquivo.
Os papéis reunidos no Brocantes compõem uma memória menor da escola, feita menos de grandes registros e mais de pequenos rastros. São gestos, palavras, práticas e imagens que testemunham experiências singulares de estudantes, mas também denotam formas coletivas de existência e resistência na escola.
