Um novo olhar sobre a história da escravidão no Vale do Taquari

Postado em 03/02/2017 13h35min

Por Nicole Morás

Mesmo não estando em livros didáticos, uma parte considerável da História pode ser resgatada por meio de documentos históricos. É a partir desses registros que uma pesquisa realizada por bolsistas e professores do curso de História e do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD) da Univates busca analisar a ocorrência de trabalho escravo em alguns municípios do Vale do Taquari durante o século XIX.
 
O estudo “O trabalho dos negros escravizados e suas implicações na paisagem urbana e rural de Taquari, Estrela e Santo Amaro/RS – final do século XIX”, realizado pela mestranda Karen Daniela Pires, sob orientação da professora doutora Neli Galarce Machado, está analisando documentos históricos, envolvendo cartas de liberdade, compra e venda de escravos, inventários, processos-crime e notícias do jornal O Taquaryense no período de 1857 a 1890. A partir disso, segundo Karen, é possível identificar a existência de escravidão em municípios como Taquari, Estrela e Santo Amaro - hoje uma localidade pertencente ao município de General Câmara.
 
“A história do Vale do Taquari é contada, principalmente, a partir da imigração de alemães e italianos e percebe-se uma expressão ufanista. Quem disse, no entanto, que o negro também não foi um sujeito-ator desse contexto?”, questiona Neli. Karen acrescenta ainda que foram identificadas atividades realizadas pelos negros escravizados, como as de marinheiro, serviços domésticos, trabalho na agricultura, entre outras.
 
Conforme Neli, embora não fosse permitido por lei, também foi verificado registro de escravos em nome de algumas famílias de imigrantes. Até o momento foram identificadas três antigas fazendas que registraram trabalho escravo na região. Estes locais estão sendo analisados pela equipe do setor de Arqueologia do Museu de Ciências Naturais, a fim de verificar se há vestígios que possam contribuir com a pesquisa. O estudo está inserido no projeto de pesquisa “Arqueologia, História Ambiental e Etno-história do Rio Grande do Sul”. 
 
Um novo olhar
 
Segundo Neli, a ocorrência de casos de escravidão no Vale do Taquari permite a reflexão sobre a presença do negro na região. “Ainda hoje vemos uma expressão pequena da comunidade negra no Vale do Taquari, o que não quer dizer que eles não tenham movimentos identitários próprios e ocupem espaços importantes. Com a pesquisa, buscamos estudar essa história e estimular a reflexão crítica sobre a atuação do negro na região por parte, especialmente, da comunidade acadêmica”, afirma ela.
 
Objetos de análise
 
Jornal O Taquaryense
 
O levantamento das notícias do jornal O Taquaryense dos anos de 1887, 1888, 1889 e 1890 possibilitou a análise dos assuntos divulgados com maior recorrência pelo jornal, relativos ao contexto da escravidão em Taquari, Estrela e Santo Amaro e, em especial, à abolição da escravatura. Constatou-se que o jornal noticiou e expôs seu posicionamento favorável à abolição dos escravos, com matérias sobre a concessão de cartas de liberdade, discursos abolicionistas, formação de comissões abolicionistas, contratos de locação de serviços, telegramas e boletins.
 
Documentos de compra e venda
 
A compra e a venda de escravos registradas em documentos históricos são utilizadas na pesquisa com informações que fornecem a identificação do escravo, a situação civil, cor e idade, valores, os nomes dos vendedores e dos compradores. Até o momento, dentro do recorte temporal de 1857 a 1888, fez-se a classificação de homens e mulheres de acordo com a idade e seus respectivos valores. 
 
Cartas de liberdade
 
As cartas de liberdade demonstram as concessões de alforria, porém se percebe maior número de cartas condicionais concedidas, ou seja, aquela que o escravizado recebia de seu senhor, porém
ficava trabalhando para ele por mais três a sete anos e, em alguns casos, até a morte de seu proprietário ou tinha que acompanhar algum familiar de seu dono também até que esse morresse.
 
Inventários
 
Os inventários referem-se ao escravizado deixado como herança, com dados sobre as condições físicas e de saúde dele. Pôde-se identificar até o momento os nomes dos escravizados e de seus
senhores, a idade e o valor daqueles. Em específico nessa fonte levantou-se a quantidade de escravizados deixados como herança pelos senhores dos três municípios.
 
Processo-crime
 
Nos documentos processo-crime percebe-se o envolvimento dos escravizados em situações de insurreição, conflitos entre escravizados e com seus donos.
 
 
Esta matéria faz parte da edição nº3 da Revista Univates. A versão digital pode ser conferiada aqui.
 
Texto: Nicole Morás
Antiga fazenda em Bom Retiro

Divulgação

Nicole Morás

Fernanda Schmitt, mestranda Karen Pires, professora doutora Neli Machado e doutor Marcos Kreutz participam da pesquisa

Nicole Morás

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