Pesquisas da Univates lançam diferentes olhares para um mesmo tema, a água

Postado as 20/03/2020 16:40:14

Por Júlia Amaral e Nicole Morás

Duas moléculas de hidrogênio e uma de oxigênio. Essa é a composição molecular essencial para a vida humana na Terra. Apesar de ser abundante no chamado Planeta Água, esse bem nem sempre é utilizado com responsabilidade. Em 1993, a Organização das Nações Unidas (ONU) instituiu o dia 22 de março como o Dia Mundial da Água com o objetivo de alertar a população sobre a preservação dos bens naturais, especialmente da água. O caminho até desvendar a composição da água foi longo, e as análises sobre essa mesma temática seguem acontecendo. Na Univates, cada pesquisa lança um olhar diferente para a mesma fonte. Confira:

 - Sustentabilidade ambiental em propriedades produtoras de leite do Vale do Taquari, coordenada pela doutora Claudete Rempel

A água é um dos indicadores para a sustentabilidade de propriedades produtoras de leite, já que sua qualidade pode influenciar no produto. Para essa pesquisa, foram analisadas e acompanhadas 124 propriedades dos 36 municípios do Vale do Taquari, sendo o número de propriedades proporcional à produção de leite em cada município. Entre os objetivos do projeto está a elaboração de um diagnóstico e de propostas de soluções e inovação de metodologia que possam ser aproveitadas pela gestão das propriedades rurais a partir da transferência efetiva de conhecimento da Universidade. Até o momento, os resultados do projeto de pesquisa apontam que:

  • - as águas analisadas destinadas ao consumo humano são provenientes de sociedades de água e de poços próprios, sendo estes, na maioria das vezes, sem tratamento específico. As fontes de águas destinadas à dessedentação animal são oriundas de fontes alternativas, como poços próprios existentes nas propriedades rurais, sem tratamento da água;

  •  
  • - sobre a qualidade físico-química e microbiológica de açudes, por meio de análises físico-químicas e microbiológicas foi possível constatar que quase todas as amostras de água analisadas estão impróprias para a dessedentação animal. As análises microbiológicas confirmam a possibilidade de contaminação por esgoto ou fezes de animais de sangue quente nas amostras. A pesquisadora Claudete explica que é necessário realizar periodicamente o monitoramento desses locais e tomar medidas preventivas como o uso de cloro e de filtros para melhorar o padrão de qualidade dos açudes. “Além disso, há necessidade de elaboração e execução de um programa de educação ambiental, para capacitar e conscientizar os produtores rurais no que diz respeito ao manejo e à qualidade das águas”, analisa.

  •  
  • - sobre a qualidade microbiológica da água utilizada para consumo humano e dessedentação animal, as análises revelaram que 62,5% das águas destinadas ao consumo humano e 96,15% das águas de dessedentação animal apresentaram coliformes totais e termotolerantes. Além disso, 31,7% das águas de consumo humano e 45,2% das águas de dessedentação animal apresentaram coliformes termotolerantes (E. coli). “Esses resultados mostraram que existe uma porcentagem das fontes de água analisadas nessas propriedades, tanto de dessedentação animal quanto de consumo humano, que se encontram em condições microbiológicas inadequadas para consumo, quando comparadas às legislações vigentes”, afirma Claudete.

  •  

Conforme a professora, a conscientização para melhorar a qualidade da água ainda é um desafio para a sociedade. É importante que os produtores rurais busquem parcerias com técnicos da Empresa de Assistência Técnica e Extensão Rural (Emater), Secretaria de Agricultura, Secretaria do Meio Ambiente e biólogos a fim de não aumentar o número de microrganismos patogênicos e garantir que as fontes naturais de água perdurem com boa qualidade à presente e às futuras gerações.

 

- Eletroquímica aplicada às ciências ambientais: detecção, tratamento e geração de energia, coordenada pela doutora Simone Stülp

Com o avanço das problemáticas e dos impactos ambientais, são necessários estudos que foquem no desenvolvimento de tecnologias que sejam aplicadas aos sistemas ambientais. Dentre essas tecnologias, destacam-se as que visam ao reúso tanto de água como de insumos em diferentes processos, ou ainda aquelas que propiciem a geração de energia e obtenção de novos materiais. Em continuidade, o projeto de pesquisa visa ao estudo de tecnologias aplicadas às ciências ambientais, por meio de estudos de degradação, reúso, geração de energia e obtenção de biomateriais, contemplando aspectos ligados à linha de pesquisa Tecnologia e Ambiente. Uma das ações recentes vinculadas ao projeto é a detecção eletroquímica de metais presentes em águas superficiais, como, por exemplo, o chumbo.

- Detecção e remoção de micropoluentes em sistemas de captação de águas superficiais e efluentes, coordenada pela doutora Lucélia Hoehne

Uma das ações da pesquisa é verificar se há a presença de micropoluentes do tipo fármacos (amoxicilina, azitromicina, cefalexina, norfloxacina, ciprofloxacina e benzetacil) no rio Taquari e propor um modelo de tratamento para a eliminação dessas substâncias da água usando processos oxidativos avançados e análise de toxicidade.

Já foram feitas análises de parâmetros de qualidade de água de abastecimento ao longo de um ano no rio Taquari e foi visto que, de acordo com as análises exigidas pela legislação brasileira, todos estão dentro dos limites permitidos. A análise de micropoluentes será a próxima etapa da pesquisa. 

Neste mesmo trabalho desenvolvem-se nanobiossensores que possam detectar a presença de herbicidas na água, mesmo em baixas concentrações, o que pode facilitar o diagnóstico, de modo que o analista faça a análise no próprio local sem a necessidade de enviar amostras para um laboratório, por exemplo. Isso diminui os custos e agiliza o resultado.

- Uso de bactérias do gênero Citrobacter para remoção dos corantes azo vermelho congo e amaranto, coordenada pela doutora Camille E. Granada

Um estudo realizado no Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia (PPGBiotec) buscou identificar o potencial de biodegradação de novos isolados bacterianos do gênero Citrobacter para a remoção dos corantes azo vermelho congo e amaranto de ambientes aquáticos. Esses corantes são sintéticos e amplamente utilizados na indústria, porém são tóxicos e têm efeito cancerígeno nos organismos vivos. A destinação incorreta de efluentes industriais contendo esses corantes pode ocasionar poluição das águas e dos solos. Dessa forma, o objetivo do estudo foi isolar microrganismos que pudessem atuar na descoloração e degradação desses corantes, uma vez que o tratamento biológico com bactérias é apontado como uma tecnologia ecológica e de baixo custo.

As análises apontaram um novo isolado bacteriano que foi capaz de alcançar a degradação completa do amaranto. Seu uso como inoculante para o tratamento de efluentes da indústria (principalmente de alimentos) seria eficiente para remoção desse corante do meio. No entanto, nenhum isolado bacteriano alcançou a mineralização completa do vermelho congo. Conforme a Dra. Camille Granada, o estudo mostrou a importância da seleção de novos microrganismos para o tratamento de efluentes industriais. “Este foi o primeiro trabalho que demonstra a eficiência de perda de cor de uma solução contaminada com vermelho congo e amaranto por isolados de Citrobacter spp”. Novas aplicações biotecnológicas podem ser desenvolvidas usando esses isolados bacterianos.