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Univates submete proposta de pesquisa sobre sintomas psiquiátricos e risco de suicídio relacionados à Covid-19

Postado as 19/05/2020 14:19:32

Por Nicole Morás

Com o distanciamento e o isolamento social como medidas de prevenção ao novo coronavírus, tem crescido a preocupação com a saúde mental, especialmente na região dos Vales do Taquari e Rio Pardo, que apresentam a maior taxa de prevalência de suicídio no País conforme o Datasus, o sistema de dados do Sistema Único de Saúde (SUS). Diante desse contexto, a Universidade do Vale do Taquari - Univates submeteu, em parceria com outras instituições da região, um projeto de pesquisa ao edital Inova RS, da Secretaria de Inovação, Ciência e Tecnologia (SICT) do Estado do Rio Grande do Sul, que deve investir R$ 1,2 milhão em soluções tecnológicas inovadoras no enfrentamento da Covid-19.

Liderado pela Univates, o projeto “O uso de uma ferramenta tecnológica no auxílio diagnóstico para a Covid-19, transtornos do afeto negativo e comportamento suicida na região com maiores índices de suicídio no Brasil e ensaio clínico de técnicas de psicoterapia breve voltado à sintomatologia psiquiátrica em tempos de pandemia” é proposto em parceria com a Universidade de Santa Cruz do Sul (Unisc), a Universidade Estadual do Rio Grande do Sul (Uergs), as Secretarias de Saúde de Lajeado e de Santa Cruz do Sul e as empresas Solis, Tekann Tecnologia da Informação e Tummi Aplicativos Desenvolvimento.

Artur Dullius

Conforme o coordenador interino do Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas (PPGCM) e pesquisador responsável pelo projeto, professor do curso de Medicina e psiquiatra Flávio Shansis, o projeto tem como objetivo principal criar um sistema que alie tecnologia e teleatendimento psiquiátrico e psicológico para auxiliar no diagnóstico de risco suicida.

A tecnologia irá nos ajudar no diagnóstico de doenças mentais que possam ser atendidas pela rede de saúde, chamado de TelePsiquiatria. Quando for identificada a tendência ao comportamento suicida, faremos atendimento remoto de telepsicoterapia para a população da região dos Vales com o uso de técnicas comportamentais de psicoterapia breve para situações de risco de suicídio
Flávio Shansis, pesquisador responsável pelo projeto

O professor acrescenta que a capacidade de teleatendimento no período de 10 meses em que será realizado o projeto é de cerca de 7.000 teleconsultas a 1.200 pessoas com risco de suicídio. As atividades serão realizadas somente após serem aprovadas pelo Comitê de Ética em Pesquisa. Shansis explica ainda que o atendimento em telepsicoterapia será baseado no manual chamado TelePsi, que é disponibilizado pelo Ministério da Saúde. “Esse manual foi elaborado por uma equipe de professores de várias universidades brasileiras e coordenado pelo Prof. Giovanni Salum, da Universidade Federal do Rio Grande do Sul, que contribuirá com o nosso projeto”, declara.

De acordo com a diretora de Inovação e Sustentabilidade da Univates e uma das responsáveis pelo projeto, doutora Simone Stülp, o projeto de pesquisa aproxima a área da saúde dos ecossistemas de inovação, uma vez que as empresas participantes têm vínculo com o Parque Científico e Tecnológico do Vale do Taquari (Tecnovates) e o Parque Científico e Tecnológico Regional da Unisc (TecnoUnisc), assim como do programa de inovação para Lajeado, integrando o Pro_Move Saúde. “Teremos uma atuação conjunta com o Centro de Pesquisa Translacional em Transtornos de Humor e Suicídio (CEPETTHS) da Univates, no qual são realizadas pesquisas básicas e aplicadas sobre a temática da depressão e do comportamento suicida, que é ligado ao PPGCM e ao Tecnovates, onde será armazenado e analisado o banco de dados do projeto e de um ferramenta tecnológica desenvolvida no TecnoUnisc”, afirma a doutora.

Após o início da pesquisa, os atendimentos deverão ser realizados a partir do mês de agosto, já que a divulgação do resultado do edital do Inova RS está prevista para junho. O valor total do projeto é de R$ 222.287,76, sendo R$ 144.745,36 solicitado por meio do edital e R$ 77.542,40 investidos como contrapartida dos participantes da pesquisa.

Fases da pesquisa

Fase 1: adaptação da plataforma de avaliação de sintomatologia psiquiátrica e outros aspectos relacionados, para identificação de risco de suicídio e definição do fluxograma de atendimento e de encaminhamento dos casos que necessitam de atendimento presencial.

Fase 2: definição das equipes de teleatendimento. Contato com as equipes que irão realizar os atendimentos. Treinamento das equipes.

Fase 3: início dos atendimentos.

Fase 4: análise dos resultados. Publicações. Finalização do projeto.

Fase 5: ações pós-projeto: Definição de um líder responsável pelo projeto em cada unidade de saúde mental. Treinamentos periódicos para atualizações da equipe e de novos profissionais. Contato periódico com as equipes para revisão dos dados. Desenvolvimento de novos projetos de pesquisa vinculados à mesma linha de pesquisa.

Saiba mais

A temática do projeto de pesquisa está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas da Univates, sendo uma de suas linhas de pesquisa “Ciências do comportamento”, que trata especificamente sobre etiologia, diagnóstico e tratamento de transtornos psiquiátricos e do comportamento suicida.

Dados divulgados pela Secretaria de Planejamento e Gestão do Estado do RS sobre os principais indicadores de saúde e bem-estar da população, definidos pela Organização das Nações Unidas (ONU), revelaram que as taxas de suicídio no Rio Grande do Sul ficaram acima da média mundial em 2017 (11,65 por 100 mil habitantes). Informações do Datasus (2018) revelam que, dos 20 municípios brasileiros que apresentam os mais altos índices, 11 são gaúchos, sendo a região dos Vales a que tem a maior taxa de prevalência de suicídio no País. Importante ressaltar, ainda, que as taxas de suicídio são subnotificadas em todo o mundo, portanto todos esses números estão aquém da realidade.

Shansis analisa que essa situação deve se agravar, pois a pandemia causada pela Covid-19 impõe o distanciamento social, assim como é causadora de uma série de estressores, como, por exemplo, importantes perdas financeiras e de emprego. “Supõe-se, ainda, que haverá um aumento nas taxas de prevalência dos transtornos psiquiátricos, tanto durante o período de quarentena quanto após as várias ondas intercaladas de isolamento e de afrouxamento de restrição de contato mais próximo. O período pós-pandemia está sendo chamado de ‘quarta onda’, quando deve ser registrada uma alta prevalência de transtornos psiquiátricos, dentre os quais a elevação nas taxas de ideação, tentativas e/ou suicídios em todo o mundo, especialmente em uma região como a dos Vales do Taquari e Rio Pardo”, finaliza.