Doenças respiratórias de inverno diminuiriam com o uso de máscara?

Postado as 10/08/2020 16:58:57

Por Ney Raffin

Divulgação

 

Confira o artigo de opinião de nosso docente, Prof. Ney Raffin:

Em geral, quando falamos de doenças respiratórias de inverno logo vêm à nossa mente as infecções virais, especialmente a gripe, e a necessidade de vacinação. Entretanto, ao analisarmos mais detalhadamente, veremos que a diversidade de patologias que acometem nosso sistema respiratório no inverno é bem mais ampla. 

Podemos dizer que as principais doenças respiratórias de inverno se dividem em dois tipos: doenças respiratórias não transmissíveis (doenças alérgicas) e doenças respiratórias transmissíveis (infecções virais e bacterianas).

 

O que ocorre no inverno que facilita o surgimento ou exacerbação dessas doenças?

O meio ambiente muda

Temperaturas médias baixam, umidade do ar diminui, há variações importantes de temperatura. Um dos principais fatores que fazem os vírus atacarem é a baixa umidade do ar. 

 

Nosso comportamento muda 

Ficamos mais tempo dentro de ambientes fechados, vestimos mais roupas, muitas das quais ficaram guardadas por meses. Ficamos mais aglomerados. Estamos mais sujeitos a poluentes ambientais. Cerca de 35% das pessoas têm alergia ao pó caseiro e mofo, que também tende a piorar com o frio e com a umidade do ar. 

 

Nosso corpo pede aquecimento 

Se estamos com frio no corpo, vestimos várias roupas quentes. Se estamos com frio nos pés, vestimos meias e sapatos. O frio na cabeça é controlado com gorros e chapéus. Mas o que vestimos para combater a sensação de quando respiramos ar frio? Às vezes colocamos mantas como proteção. Pessoas com alergia geralmente não gostam de usá-las, pois costumam desencadear coceira no nariz ou espirros. O forro respiratório reage ao contato com o ar frio.  

 

Nosso sistema imunológico no sistema respiratório fica mais sensível e vulnerável às mudanças bruscas de temperatura.

 

  1. Doenças respiratórias de inverno não transmissíveis: alergias 

No inverno, as condições de luz, temperatura e umidade favorecem o desenvolvimento de ácaros e fungos dentro das nossas casas e, com isso, o aumento de alérgenos oriundos da poeira domiciliar.

Esses alérgenos entram em suspensão no ar e ao contato com o forro respiratório favorecem o desencadeamento da rinite, sinusite e asma alérgica.  

Rinite alérgica 

A rinite alérgica caracteriza-se por espirros, coriza, coceira e obstrução nasal. A intensidade e a combinação desses sintomas podem determinar diferentes apresentações clínicas e diferentes tratamentos. O mais comum alérgeno na rinite de inverno é o ácaro do pó.

Sinusite alérgica

A sinusite alérgica frequentemente está presente com a rinite. Manifesta-se por sensação de pressão na região maxilar, sensação de secreção posterior na garganta ou provocar ato de aspiração superior (“sinal do porquinho”), tosse noturna ou dificuldade do controle da rinite com o tratamento habitual. 

Asma alérgica

A asma apresenta sintomas como tosse, dificuldade para respirar, chiado no peito e sensação de pressão no peito. Cerca de 80% dos pacientes com asma apresentam concomitantemente rinite alérgica. Já 20% dos pacientes com rinite alérgica apresentam também asma. A asma tem diferentes apresentações clínicas relacionadas com a intensidade do quadro clínico e com a resposta ao tratamento.

 

  1. Doenças respiratórias de inverno transmissíveis: infecções virais e bacterianas 

Resfriado comum

Existem dezenas de diferentes vírus que atacam nosso sistema respiratório, mas mais comumente rinovírus e adenovírus costumam ser a causa do resfriado. As pessoas infectadas geralmente apresentam um certo mal-estar, coriza, congestão nasal, espirros, dor de garganta, febre baixa e eventualmente tosse de pequena intensidade. O resfriado comum costuma durar entre 3 e 5 dias, raramente passando disso.

Gripe

A gripe é habitualmente causada pelo vírus Influenza A. O quadro é semelhante ao resfriado comum, porém com muito mais intensidade e com comprometimento sistêmico importante. Febre alta, sintomas nasais mais intensos, tosse seca que chama a atenção do paciente e de familiares, dores musculares, perda do apetite, prostração, sonolência e alteração de humor são alguns dos sintomas. O quadro é mais arrastado e pode durar mais de semana.   

Rinite 

O quadro é caracterizado por espirros, coriza e congestão nasal. Não costuma dar coceira, o que o difere da rinite alérgica. Dura em torno de 3 a 5 dias. Às vezes, uma semana.

Faringite

A faringite aguda é mais comumente conhecida como “dor de garganta”. É uma infecção da faringe (garganta) de curta duração, causada por diferentes vírus ou bactérias. Ela é contagiosa por meio de gotículas eliminadas pelos espirros ou tosse. Os principais sintomas são dor de garganta, dor de cabeça e febre. Os gânglios linfáticos no pescoço podem ficar inchados e doloridos. A condição geralmente se resolve em 7 a 10 dias sem qualquer medicação. 

A faringite é uma doença inflamatória do forro que reveste a faringe e que se manifesta por avermelhamento e inchume do referido local.

Essa infecção frequentemente se estende também às amídalas, denominando-se faringo- amigdalite.

Em geral, é uma infecção viral que começa o processo infeccioso (infecção primária), predispondo, a seguir, a eventual colonização e infecção por bactérias (infecção secundária).

Os vírus implicados com maior frequência são os rinovírus, coronavírus, adenovírus, influenza e parainfluenza.

Entre as bactérias destacam-se o estreptococo beta-hemolítico, o pneumococo, o mycoplasma pneumoniae, o staphylococcus aureus e o haemophilus influenzae.

A porta de entrada é oral, pela veiculação dos agentes causadores por meio das gotículas de saliva que as pessoas eliminam ao falar, tossir ou espirrar.

Em geral, as pessoas começam com quadro febril, mal-estar geral, ardor na garganta e dor ao engolir. Ao inspecionarmos a boca, observamos sua parte posterior congestionada e de cor vermelha intensa.

Nas infecções de origem bacteriana, o quadro começa subitamente com irritação na garganta, dor e dificuldade para engolir, febre de 38,5° a 39,5°C, náuseas e vômitos, dor de cabeça e, em alguns casos, dor abdominal.

A febre desaparece em 3 a 5 dias, e os demais sintomas em uma semana.

A faringe é a área da garganta situada entre as amídalas e a laringe. O ar seco, devido à baixa umidade do ar, à poluição, à falta de chuva e ao calor, favorece a proliferação de doenças respiratórias.

Laringite

A laringite é uma inflamação da laringe, região das vias aéreas onde ficam localizadas as cordas vocais. Os principais sintomas são rouquidão, perda da voz, pigarro e sensação de alguma coisa presa na garganta. A faringite viral costuma dar dor, principalmente ao engolir. Pode ser a localização inicial de um quadro sistêmico, ou ficar limitada à faringe. Pode dar febre.

Amigdalite

A amigdalite é uma inflamação ou infecção das amídalas, que ficam localizadas na transição da boca para a faringe e participam do processo respiratório e da deglutição, além de serem componentes do sistema imunológico. 

Os principais sintomas são dor de garganta, dificuldade de engolir, febre, calafrios, mal-estar, dor de cabeça, perda do apetite, mau hálito, gânglios aumentados no pescoço, garganta inchada, vermelha ou com pontos de pus.

Bronquite

Bronquite é mais frequentemente causada por vírus. A doença costuma estar acompanhada de uma outra infecção viral respiratória, como gripes e resfriados. No início, ela afeta o nariz, a garganta e, depois, se espalha para os pulmões. Às vezes, pode-se contrair uma infecção bacteriana secundária nas vias respiratórias. Tosse seca irritativa, constante, é um dos sintomas.

Pneumonia

Os sintomas de pneumonia viral podem surgir poucos dias após o contato com o vírus e apresentam piora com o decorrer dos dias, sendo os principais sinais e sintomas:

Tosse com catarro
Febre alta
Falta de ar
Dor no peito
Dor nas costas
Respiração acelerada
Mal-estar generalizado
Cansaço e fadiga

Em idosos, os sintomas de pneumonia podem incluir confusão mental, cansaço extremo e falta de apetite, mesmo que não haja febre. Já em crianças, também é comum surgir respiração muito rápida que provoca a abertura exagerada das asas do nariz.

A pneumonia viral se diferencia da pneumonia bacteriana por geralmente ter início mais súbito, produzir catarro mais transparente ou branco e ter outros sinais como quadro viral de vias aéreas superiores.

É interessante notar que tanto as doenças alérgicas quanto as infecções virais e bacterianas podem estar relacionadas entre si, uma exacerbando a possibilidade do desenvolvimento da outra. Esse fato é de extrema importância clínica na avaliação do paciente.

Todas as patologias acima referidas apresentam um ponto comum de iniciação, sejam alérgicas, sejam infecções virais ou bacterianas. O local inicial, comum, é a entrada no nosso organismo pelo nariz ou pela boca. No caso das infecções virais ou bacterianas, a contaminação também se dá pela saliva e secreção nasal que saem do nosso organismo ao falar, tossir ou espirrar ou pelo contato direto com pessoas infectadas ou materiais e produtos contaminados. 

Nesse sentido, estamos vendo que a experiência com o uso da máscara descartável, juntamente com outras medidas como o uso do álcool em gel e o afastamento das pessoas de alto risco das aglomerações para evitar a transmissão da Covid-19, parece ter tido resultado positivo. 

Entretanto, cientistas verificaram que muitas máscaras comerciais têm o desenho que não é adequado para a melhor proteção das pessoas. Além do desenho ou formato, o tipo de tecido com o qual a máscara é feita também importa. Tecidos de algodão tendem a reter secreções e os poros são grandes, diminuindo a retenção de vírus. Também é importante a higienização ou a lavagem da máscara com água e sabão diariamente para evitar o acúmulo de germes. Já estão disponíveis máscaras de padrão N95 que, pelas atuais pesquisas, têm proteção muito superior às máscaras de pano artesanais.

Assim, embora dados sobre o assunto no nosso meio ainda sejam escassos, esse conjunto de medidas teria feito com que a inalação tanto de alérgenos como de agentes infecciosos diminuísse drasticamente, fazendo com que as pessoas que habitualmente apresentariam esses quadros não os apresentassem e, no caso de infecções virais ou bacterianas comuns no inverno, não fossem tão notadas nos consultórios médicos neste período do ano. 

Existem países asiáticos que já têm a cultura do uso de máscara descartável para proteção de terceiros contra infecções virais ou bacterianas. Talvez uma das heranças da pandemia de Covid-19 possa ser, no nosso meio, a adoção do uso espontâneo de máscara descartável pelo mesmo motivo, evitando-se ao máximo a transmissão de doenças infecciosas respiratórias que costumam ocorrer no inverno. 

Ao mesmo tempo, a máscara descartável também poderia ser adotada por pessoas com alergia respiratória visando, juntamente com outras medidas de tratamento, a diminuir a chance de crises no inverno. Por que não? Inclusive o uso de máscara por alérgicos para o manuseio de documentos, fotografias e limpeza de armários e ambientes com risco de altos índices de ácaros, como, por exemplo, arquivos de documentos antigos e livros antigos ajuda a prevenção.

Estudos ou pesquisas poderiam ser estimulados a serem realizados no nosso meio, com a finalidade de comprovar e orientar as questões levantadas neste texto. 

 

Dr. Ney Raffin – CREMERS 8876