Sonda Mariner/NASA

Professoras da Univates comentam anúncio da descoberta de moléculas de gás com possível origem orgânica em Vênus

Postado as 15/09/2020 13:52:22

Por Lucas George Wendt

ESO /M. Kornmesser/L. Calçada & NASA /JPL/Caltech

A molécula fosfina é composta por três átomos de hidrogênio e um de fósforo

Um anúncio que surpreendeu a comunidade científica de todo o mundo foi feito por pesquisadores da Universidade de Cardiff (Reino Unido) e do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (Estados Unidos) ontem, 14. O assunto esteve entre os mais comentados no Twitter ao longo do dia. 

Conforme o estudo, publicado na revista Nature recentemente, foi descoberta na atmosfera de Vênus a fosfina, gás que, na Terra, está associado a organismos anaeróbicos como assinatura biológica. Apesar de promissora, a novidade deve ser entendida com cautela, pois é possível que o gás tenha origem abiótica — quando não ocorre como produto da existência de seres vivos. Novas pesquisas estão sendo planejadas para elucidar totalmente a questão. 

Na Terra é consenso que a fosfina é uma bioassinatura. A detecção das partículas do composto químico foi feita pelo Telescópio James Clerk Maxwell, no Havaí, pela Grande Matriz Milimétrica/Submilimétrica do Atacama, no Chile. A pesquisa foi liderada pela pesquisadora da Universidade de Cardiff Jane S. Greaves. 

Aqui em Lajeado, a professora e pesquisadora da Univates Sônia Elisa Marchi Gonzatti repercute o fato. 

O que o anúncio pode representar?

O anúncio da detecção de fosfina é visto ao mesmo tempo com cautela e com entusiasmo pelos especialistas em química prebiótica e astrobiologia, comenta a professora. “Os próprios autores do artigo são cautelosos quanto aos resultados publicados. Os dados experimentais são consistentes, com observações desde 2017. No entanto, não é possível concluir que a presença de fosfina na atmosfera venusiana seja uma prova de existência de alguma forma de vida, pelo menos nas formas que a conhecemos". Por outro lado, a fosfina pode estar associada a processos geológicos ou fotoquímicos nos planetas. 

“Na proporção que a fosfina foi estimada (uma molécula a cada bilhão de moléculas presentes na atmosfera de lá), a atividade vulcânica planetária em Vênus deveria ser cerca de 200 vezes mais intensa do que a atualmente detectada”. Isso abre margem a muitas perguntas aos pesquisadores: que processos explicariam a ocorrência de fosfina em Vênus? Haveria formas de vida até então desconhecidas sintetizando essa molécula? Se for uma nova e inusitada forma de vida, como ela sobrevive à atmosfera extremamente hostil de Vênus, rica em ácido sulfúrico? 

“Importante destacar que moléculas químicas complexas já são detectadas por pesquisadores em meteoros, luas do Sistema Solar e mesmo no meio interestelar. O impacto maior dessa descoberta é que Vênus não apresentaria as condições de contorno para ter fosfina, assim como ocorre com o metano em Marte. Aí que a diversão aumenta: descobrir e entender os processos, ainda desconhecidos, que expliquem essas detecções”, revela a professora. 

Ana Amélia Ritt

Como você avalia os próximos passos da pesquisa na área?

“Como todo processo e descoberta científica, é necessário fazer novos estudos e manter a mente aberta sobre o que eles podem nos ensinar”, defende a pesquisadora. “Nesse caso, espera-se que esses resultados ajudem a avançar em novos modelos teóricos relacionados à busca da vida fora da Terra e à detecção de outras formas de vida. O primeiro passo é reproduzir em laboratório as condições da atmosfera venusiana, para entender como a fosfina é produzida. Cientistas e especialistas estão intrigados porque a baixa ocorrência de hidrogênio em Vênus não explica a alta taxa de fosfina detectada". 

"Sondas que levem balões estratosféricos de sondagem e monitoramento são uma das hipóteses de avançar na compreensão e implicações dessa descoberta. Outra possibilidade, a que mais emociona cientistas e leigos, é a de existência de formas de vida totalmente diversas da única forma de vida que conhecemos, dependente basicamente do carbono e da água”. 

O que a descoberta acrescenta à Ciência? 

“A meu ver, o maior impacto está relacionado à possibilidade de haver formas de vida absolutamente distintas da vida na Terra. Aliás, a ciência não sabe exatamente como a vida iniciou na Terra. Apesar da cautela necessária, a descoberta é emocionante e pode se tornar uma das maiores descobertas científicas deste século. Eu compartilho da visão de muitos cientistas de que não estamos sozinhos no universo. Será uma questão de tempo para detectarmos outras formas de vida no Cosmos. Estudos e tecnologia para tal progrediram muito. Junto a esse impacto científico, há um impacto ontológico e filosófico, o de não estarmos sozinhos no Cosmos. A Astrobiologia é uma ciência relativamente nova, se comparada a outras áreas da Astronomia. Manter-se aberto e curioso ao novo, ao desconhecido, é uma atitude sempre necessária, é marca de como a humanidade evolui e aprende”. 

A fosfina

A fosfina é um composto orgânico de fórmula PH3, gerado por micro-organismos que não precisam do oxigênio para sobreviver. Quem explica é a professora doutora Lucélia Hoehne. “Pelo menos aqui na Terra, é gerada por esses micro-organismos pelo consumo de minerais que tenham o fósforo e na presença de hidrogênio geram essa molécula. Por isso é indicativo de presença de vida em Vênus”, diz. “Claro que organismos que são anaeróbios e sobrevivem sem oxigênio são bem mais simples do que os seres humanos. Mas já é um indício de biotransformação de compostos químicos que só ocorrem na presença de seres vivos”, comenta. 

Vênus

É o segundo planeta mais próximo do Sol. É um dos mais quentes do Sistema Solar, com temperatura média de 461 ºC. Vênus é vizinho da Terra. Outra característica curiosa desse planeta é que o dia venusiano é maior que o ano. O dia em Vênus equivale a 243 dias terrestres e o ano, a 225 dias. Sua rotação ocorre de Leste para Oeste, o contrário da rotação da Terra e outros planetas. 

 

Reprodução/Youtube

Coletiva de imprensa para a divulgação da pesquisa foi ontem (14)