A Universidade do Vale do Taquari - Univates, por meio do Laboratório de Acarologia, é referência nacional na descrição e identificação de ácaros. O trabalho de pesquisa na área é realizado pela Univates desde 2003. Recentemente a equipe do Laboratório esteve envolvida na descrição de três novas espécies do aracnídeo.
O novo animal recebeu o nome de Eustigmaeus crassifolius Bizarro & Johann, em referência à planta na qual foi encontrado, a Byrsonima crassifolia, popularmente conhecida como muricizeiro.
A equipe da Univates envolvida na descoberta é composta pelo bolsista de pesquisa Gabriel Lima Bizarro e pelos pesquisadores doutores Liana Johann, Noeli Juarez Ferla e Guilherme Liberato da Silva. Liana e Gabriel emprestam seus sobrenomes à nova espécie. O estudo também teve o envolvimento da pesquisadora Aloyséia Cristina da Silva Noronha, da Embrapa Amazônia Oriental, que coletou os espécimes no Pará e os encaminhou ao Rio Grande do Sul.
A descoberta é importante pois amplia o conhecimento sobre espécies frutíferas da região amazônica e, também, sobre as espécies que interagem com esta espécie em particular. O muricizeiro é a planta que dá origem ao murici, fruto com importância econômica no Norte e no Nordeste do Brasil pelo seu teor de fibras, cálcio, fósforo, ferro, vitaminas C, B1 e B2 e niacina. A planta Byrsonima crassifolia pode chegar a cinco metros de altura. Aparentado da acerola, o gênero Byrsonima tem mais de 130 espécies conhecidas, espalhadas por toda a América Latina.
Lorrya tuttii e Benoinyssus oconnori
Além da publicação do E. crassifolius, em outubro Gabriel e seu colega Wesley Borges Wurlitzer descreveram, com a supervisão e colaboração da equipe do Laboratório, outras duas novas espécies. As amostras de solo com os ácaros foram enviadas da cidade de Novo Mundo, no Mato Grosso, pelo Departamento de Entomologia e Acarologia da Escola Superior de Agricultura Luiz de Queiroz (Esalq), da Universidade de São Paulo (USP), para análises no laboratório da Univates. As espécies foram descritas e nomeadas como: Lorrya tuttii Bizarro, Wurlitzer & Da Silva, da família Tydeidae; e Benoinyssus oconnori Bizarro, Wurlitzer & Da Silva, da família Eupodidae. Os artigos que apresentam ao mundo os novos aracnídeos foram publicados na revista International Journal of Acarology.
A ciência da descrição das espécies
Dois são os procedimentos aos quais empresas e órgãos de pesquisa recorrem à expertise do Laboratório de Acarologia da Univates: identificação de espécies e descrição de novas espécies de animais. Em geral o processo inicia da mesma forma, com a coleta de folhas, frutos, amostras de solo ou plantas - ou de outros objetos nos quais os ácaros possam estar.
Após a coleta, no laboratório as amostras são observadas por meio de um microscópio estereoscópico. Todos os ácaros encontrados são coletados com o auxílio de um pincel muito fino e colocados em uma lâmina de microscopia. Após montada a lâmina seguindo padrões rigorosos de manejo, o objeto contendo os indivíduos fica de cinco a dez dias em uma estufa para a secagem e clarificação dos animais. Na sequência o material pode ser analisado em um microscópio óptico com contraste de fase, que altera o brilho do objeto analisado e permite observações mais detalhadas. No caso da identificação do ácaro coletado no Pará, as lâminas já chegaram prontas à Univates.
Os especialistas que analisam os animais são experientes em grupos específicos de ácaros, o que permite desenvolver conhecimentos mais profundos para identificação dos animais de acordo com as suas características. Por exemplo, a professora doutora Liana Johann, na Univates, trabalha com a taxonomia da família Stigmaeidae.
Quando o animal paraense foi identificado como sendo pertencente ao gênero Eustigmaeus, os pesquisadores compararam a descrição das espécies já registradas do gênero e constataram que nenhuma espécie descrita no Brasil batia com as características do animal analisado. O mesmo processo comparativo é realizado para espécies já descritas no mundo todo, quando uma nova revisão de literatura é necessária.
No caso da espécie analisada, não foram identificados espécimes semelhantes que apresentassem as mesmas características de reticulação, comprimento e disposição das setas, entre outras. Dessa forma, os pesquisadores chegaram à conclusão de que se tratava, efetivamente, de uma espécie nova.
Nesse momento, outra etapa inicia. É a descrição e medição minuciosa das características anatômicas e morfológicas dos animais estudados. São descritas a disposição de setas em cada segmento da perna (quetotaxia), as medidas de todas as partes corporais do indivíduo e como é organizado o órgão genital (quantas setas possui e quais são suas respectivas medidas). Como ácaros são animais muito pequenos, um desenho fiel dos exemplares é realizado de acordo com um padrão aceito para a descrição e a representação das espécies da família Stigmaeidae.
Não é possível descrever uma espécie com um único indivíduo. No caso em questão, o holótipo, animal analisado para a descrição, e mais cinco parátipos, outros animais anatomicamente idênticos coletados, foram suficientes para a descrição e determinação da existência de uma nova espécie. Após a descrição, a espécie recebe um nome científico, conforme o Código Internacional de Nomenclatura Zoológica. Finalmente, um texto apresentando a nova espécie à comunidade acadêmica internacional é preparado, enviado para publicação, revisado por outros cientistas para assegurar o rigor metodológico da descrição e, por fim, publicado.
