Iniciativa da Liga de Psiquiatria do curso de Medicina responde a dúvidas de estudantes sobre isolamento social e saúde mental

Postado as 08/06/2020 10:06:31

Por Nicole Morás

Além do senso comum, alguns estudos já apontam os impactos da pandemia por coronavírus na saúde mental da população – e com estudantes a situação não é diferente. Psiquiatra e mestranda do Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia (PPGBiotec) da Univates, Diana Kuhn pesquisa sobre depressão e tem aproveitado o momento para abordar o assunto.

Conforme explica a mestranda, o isolamento social ocorre por diversos motivos e em diferentes espaços e vem se modificando ao longo dos séculos. “Não apenas por pandemias, podemos pensar em isolamento durante guerras ou de pacientes com tuberculose em hospitais, quando ele fica sozinho em um quarto, sem visitas. Por sermos seres sociais, também podemos pensar em isolamento cultural, religioso, ideológico. São microisolamentos”, argumenta. Diana afirma que a diferença neste momento de pandemia é que o isolamento ocorre em maior escala e necessita de uma visão de sociedade empática muito maior.

Não importa apenas se o seu corpo está bem, precisa haver um senso coletivo e pensar no outro. A grande questão sobre impactos na saúde mental está relacionada ao quanto conseguimos lidar com as frustrações, o quanto vamos conseguir nos adaptar, pois o isolamento pode gerar fatores de estresse e ser gatilho para quadros de depressão

Por isso, a psiquiatra recomenda observar o que se está sentindo. “Na correria, muitas vezes nossas emoções não eram analisadas, não havia tempo para que observássemos o que estávamos sentindo ou a forma como estávamos agindo. Com a pandemia, do nada a gente precisou diminuir o ritmo e encarar muitos sentimentos”, diz. Para auxiliar estudantes, em parceria com a Liga de Psiquiatria do curso de Medicina da Univates, Diana coletou perguntas por meio das redes sociais e de um site que poderia ser acessado de forma anônima, as quais foram respondidas em uma live. O evento teve 75 participantes, que contribuíram de forma ativa na discussão do assunto.

Confira algumas perguntas e respostas para lidar com o isolamento social

O que posso fazer quando estiver muito ansioso?

Algumas orientações são: fazer respiração lenta, tanto na expiração como na inspiração, ter alimentação saudável, procurar descansar, cuidar do próprio corpo e meditar. É preciso também ter cuidado com o excesso de exposição a notícias sobre os problemas da doença. Intercalar notícias com momentos de lazer na TV, na internet e com leituras diminuirá a sobrecarga mental.

E quando existe cobrança para sermos ultraprodutivos?

Tente sinalizar para quem o está pressionando, comunique a forma como você está se sentindo.

Quais são os sinais de alerta para depressão?

Quando sintomas como, por exemplo, tristeza, desânimo, aumento ou diminuição do apetite, dificuldade para dormir ou muito sono e/ou diminuição do prazer estiverem presentes em um grau de intensidade que gere muito sofrimento ou com duração maior que 14 dias, o ideal é procurar ajuda (consulta médica, psiquiatra, psicólogo, sinalizar seu sofrimento para alguém que possa ajudá-lo).

Culpa e sentimento de inutilidade, o que fazer?

Procure ajuda, converse com alguém, fale sobre suas emoções. Faça uma reflexão e tente ver os pontos positivos do que você tem feito, procure suas qualidades e valorize-as. Seja menos exigente consigo mesmo.

Dicas para desligar pós-home office?

Tente resgatar velhos hábitos ou aprenda algo novo, cozinhe, faça um trabalho manual, ou seja, atividades que não exijam utilização de mídias sociais em tempo integral.

Apoio psicossocial pelo 0800 da Univates

Como forma de evitar efeitos colaterais na saúde mental da população causados pelos dias de isolamento, as psicólogas da Universidade do Vale do Taquari - Univates e psicólogos voluntários estão a postos para atuar em diferentes frentes. Os profissionais da Univates integram a Diretoria de Desenvolvimento de Pessoas (Dipes), a Clínica Universitária Regional de Educação e Saúde (Cures) ou o Serviço Especializado de Psicologia (SEP) e atendem a comunidade no call center, além de orientar o público interno da Univates. As psicólogas que atendem no call center, no telefone 0800 7 07 08 09, realizam o trabalho de escuta às pessoas que estão angustiadas e querem conversar, realizando o apoio psicossocial.

Pesquisa de mestrado

Em sua pesquisa de mestrado, Diana aborda o transtorno depressivo, o qual, epidemiologicamente, tem uma incidência muito alta, é bastante incapacitante e, muitas vezes, negligenciado ou estigmatizado. “Isso pode decorrer por haver mais preconceito com a depressão do que com outras doenças mentais, pois uma pessoa deprimida não necessariamente terá mudanças estruturais que sejam perceptíveis. Porém é bastante incapacitante e se agrava com a demora de o paciente responder a tratamentos. Cerca de 30% das pessoas com diagnóstico de transtorno depressivo não respondem ao tratamento convencional”, explica.

Por isso, sob orientação do professor Luís Fernando Saraiva Macedo Timmers, Diana realiza a dissertação “Identificação de potenciais alvos moleculares do l-metilfolato envolvidos na terapia adjuntiva de pacientes com transtorno depressivo maior resistente aos inibidores seletivos da recaptação da serotonina”. Nela, a mestranda avalia um novo fármaco com potencial adjuvante. “Geralmente o efeito de um fármaco é testado em indivíduos que fazem uso da substância e com um grupo de controle. Nosso objetivo é investigar o que contribui para uma melhor resposta a um fármaco específico por meio da bioinformática e tentar explicar como ele atua”, finaliza.

Saiba mais

O transtorno depressivo maior (TDM) é uma doença comum que limita severamente o funcionamento psicossocial e diminui a qualidade de vida, conforme dados da Organização Mundial da Saúde. A doença é associada a elevadas taxas de absenteísmo e de licenças médicas, redução da produtividade, diminuição da renda familiar e aumento do desemprego. Dentre os transtornos mentais, a depressão corresponde a 40,5% dos casos de incapacidade e pode aumentar o risco de obesidade, a resistência insulínica, o comprometimento cognitivo e a mortalidade.