Lucas George Wendt

Pesquisa da Univates cataloga nome de rios e arroios das bacias do Rio Taquari-Antas e do Rio Pardo e aponta relação com a história regional

Postado as 08/10/2020 08:50:27

Por Lucas George Wendt

Os nomes dos rios de uma região podem revelar muito sobre a sua história. Esse fato fica evidente no trabalho da pesquisadora Melissa Heberle Diedrich, desenvolvido no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD) da Universidade do Vale do Taquari - Univates. Na tese apresentada para a conclusão do doutorado foram estudadas as origens dos nomes de 96 cursos d’água das bacias hidrográficas do Rio Taquari-Antas e do Rio Pardo e a sua relação com a História Ambiental. 

A pesquisadora realizou a análise de nomes geográficos, os topônimos, apresentando um estudo da origem, da motivação por trás da difusão de cada nome e da alteração de nomes de rios e arroios das bacias hidrográficas do Rio Taquari-Antas e do Rio Pardo ao longo do tempo, sob um enfoque histórico-ambiental. Hidrônimos são, especificamente, os topônimos para os cursos d’água — o objeto de pesquisa da tese “Topônimos e História Ambiental no Rio Grande do Sul”, orientada pela professora doutora Neli Teresinha Galarce Machado.

“As motivações históricas dos nomes de arroios e rios comprovam o fato de que os topônimos carregam a identidade da região na qual estão inseridos e de que a história regional pode ser contada pela toponímia, ainda mais no caso da ocorrência de trocas de nomes ao longo do tempo”, explica Melissa.   

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Análises 

A partir do estudo emergiram categorias às quais a origem dos nomes pesquisados estão relacionados. Ao ambiente físico e elementos da natureza, por exemplo, cor, forma geográfica, localização, profundidade, tamanho e vegetação, a pesquisadora encontrou 38 hidrônimos. São exemplos “Estrela”, “Taquari” e “Pardo”, nomes de rios da bacia que atravessam os Vales e são importantes para formação identitária das regiões. 

Relação com a imigração, colonizadores e homenageados é uma categoria com 33 correspondências, conforme dados da pesquisa. É a segunda relação mais prevalente, o que indica estreita influência com os movimentos de migrações do século XIX. “Engenho”, “Fão” e “Francisco Alves” são alguns dos exemplos. 

A terceira categoria idealizada a partir da pesquisa encontrou relação do hidrônimo com a presença de animais na região. São 14 diferentes nomes de cursos d’água identificados com esta relação, como é o caso do rio das Antas, arroio Beija-Flor e arroio Cerro da Mula.

Sete nomes têm relação com outros nomes de influência da cultura indígena. É o que acontece com as palavras “Jequi”, “Quatipi” e “Saraquá”, todos nomes de arroios das bacias hidrográficas estudadas. 

Três hidrônimos têm relação com grupos étnicos, por exemplo, “Bururi”, “Carijó do Buraco” e “Castelhano”.

Mapa das bacias estudadas com os principais cursos d'água

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Resultados e importância do estudo

A análise etimológica proposta ao longo da tese considerou o nome atual do topônimo. Pela análise histórica a pesquisa revela que muitos nomes de origem indígena foram adaptados à Língua Portuguesa e a outros idiomas. Esse é o caso do rio das Antas, que em guarani é “mboapari” ou “mborebi”, as palavras para “anta” no idioma. A origem indígena etimológica das palavras, oriundas das línguas guarani, tupi e tupi-guarani, é bastante significativa e constatada em 21 hidrônimos. É a segunda mais frequente nas bacias hidrográficas analisadas. Já a língua mais frequente de origem foi o latim, com a qual estão relacionados 51 nomes de arroios ou rios. 

Lucas George Wendt/Unsplash

Entre as conclusões, a pesquisa constatou que os estudos toponímicos no Rio Grande do Sul ainda são incipientes, quando comparados a outros estados brasileiros. “Alguns inclusive já apresentam atlas toponímicos, por exemplo”, observa Melissa. A escassez de informações representou um desafio para o trabalho. “Também a classificação de determinados nomes apresentou certa dificuldade, requerendo bastante atenção e revisão, devido às várias versões encontradas para a origem de determinados hidrônimos”, observa ela. 

O estudo também constitui-se num banco de dados. Ele serve como resgate da memória e história regional dos Vales do Taquari e do Rio Pardo. Além disso, as informações levantadas pelo trabalho podem ser exploradas e aproveitadas para a composição de atlas toponímicos, mapas linguísticos e mesmo como fonte de consulta, sendo referências na área da hidronímia.

O trabalho culminou com a catalogação sistemática dos principais rios e arroios das bacias hidrográficas do Rio Pardo e do Rio Taquari-Antas, trazendo informações ao leitor como nome do hidrônimo, localização, taxionomia, etimologia, entrada lexical, estrutura morfológica, histórico e informações enciclopédicas.