Estudo em parceria com a Univates faz levantamento populacional do jaó-do-litoral, ave criticamente ameaçada de extinção

Postado as 28/01/2021 11:22:26

Por Lucas George Wendt

Conhecer a distribuição de uma espécie contribui para a sua preservação. Isso porque, a partir dessa informação, é possível propor estratégias de manejo e conservação. Crypturellus noctivagus noctivagus, o jaó-do-litoral (ou jaó-do-sul), é uma espécie endêmica do Brasil, considerada ameaçada de extinção. No Rio Grande do Sul seu status de conservação é criticamente ameaçada de extinção. Entretanto, através de sua distribuição em nível nacional, acredita-se que as populações da espécie que não estão em áreas de unidades de conservação (UCs), estão completamente reduzidas e em alguns casos isoladas de outras populações.

Durante sua trajetória acadêmica, Luiz Liberato Costa Corrêa, sempre estudou as aves, especialmente o jaó. O fato o torna um ornitólogo e um especialista na espécie no Brasil. “Os meus colegas me chamam de jaólogo”, diz ele. O mestrado de Corrêa foi realizado no Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD), na Universidade do Vale do Taquari - Univates e o doutorado no Programa de Pós-Graduação em Biologia (PPGBIO), na Universidade do Vale do Rio dos Sinos - Unisinos. O pesquisador também realizou seu primeiro pós-doutorado pelo PPGAD, vinculado ao Laboratório de Acarologia e atualmente é pós-doutorando pelo PPGBIO, vinculado ao Laboratório de Ornitologia e Animais Marinhos.

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Ao longo de sua trajetória de pesquisa, Corrêa desenvolveu estudos com enfoque na bioecologia de espécies silvestres, conceitos abordados no artigo Population density of Crypturellus noctivagus noctivagus (Aves, Tinamidae) in the pampa biome, southern Brazil, recentemente publicado na revista Oecologia Australis, da Universidade Federal do Rio de Janeiro (UFRJ) e assinado por ele e equipe. No estudo, que teve início no seu mestrado na Univates, posteriormente, no seu doutorado, participaram além de Corrêa, os professores doutores Noeli Juarez Ferla, Darliane Evangelho Silva, Marilise Mendonça Krügel e Maria Virginia Petry. 

O estudo da densidade populacional é fundamental para a conservação da espécie, que ainda não tem programas específicos instituídos para este fim. Os estudos de Corrêa contribuem para aumentar o que se conhece sobre o jaó, especialmente no RS. 

Perigo de extinção

O pesquisador explica que, em todos os espaços em que a ave habita, ela é ameaçada de extinção. “No Rio Grande do Sul, na década de 1970, ela foi considerada extinta”, revela. Em 2009, quando era estudante de graduação, Corrêa encontrou uma população no pampa, onde não se sabia da ocorrência da espécie. “Foi num fragmento florestal isolado, sem conexão com outros. Com o achado, a espécie passou de provavelmente extinta para criticamente ameaçada”, revela o pesquisador. “Quando encontramos a população precisávamos saber quantos indivíduos estavam ali. Também, qual o percentual de machos e fêmeas e qual a sua distribuição especificamente”, diz. 

Na região onde o jaó ocorre existem proprietários de grandes unidades de terras usadas para a agricultura. No caso do fragmento onde ocorre a incidência do Crypturellus noctivagus noctivagus são cerca de 15 agricultores e pecuaristas. “Procuramos conscientizar os proprietários que têm fragmentos florestais em suas terras para a adoção de estratégias de manejo que não deteriorem o habitat da espécie”.

O fato do jaó ser muito cobiçado por caçadores e a fragmentação dos habitats, que cedem espaço à culturas como a do arroz e soja ao entorno dos fragmentos florestais, geram impactos irreversíveis. No entanto, a agricultura e a pecuária desempenham dois papéis em relação à espécie. Ao mesmo tempo em que limitam o tamanho do habitat do jaó, fragmentando a floresta e impedindo a dispersão dos animais, impedem que caçadores abatam as aves, uma vez que os donos das terras, em razão da frequência do abigeato, mantêm vigilância constante nas propriedades privadas quanto à presença de estranhos no local.

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Como o estudo foi realizado

As incursões dos pesquisadores na mata se deram durante três períodos reprodutivos da espécie - durante três anos, entre os meses de setembro e fevereiro, período que compreende a primavera e parte do verão no Hemisfério Sul. É neste período que as aves estão mais ativas, andando pela mata e vocalizando. "Percorremos a mata, em trilhas, a cada 15 dias, uma vez de manhã, outra vez de tarde”.  

A metodologia utilizada foi a amostragem por distância, que consiste em registrar a distância, em metros, de onde o indivíduo foi avistado a partir da trilha na mata onde estava o pesquisador. “Se ele foi visto na trilha, considera-se zero o valor. Se ele foi visto, por exemplo, a dez metros da trilha, a gente parava e, com uso de uma trena, era realizada a medida da distância da trilha até o ponto exato em que o animal foi visto”. 

Os cálculos que determinam a densidade são realizados por um programa de computador. O software precisa de diversas informações para performar os cálculos e oferecer gráficos e modelos estatísticos ao pesquisador, entre eles o tamanho da área analisada, o total de pessoas que percorreu as trilhas, todos os caminhos percorridos e sua distância. No caso da pesquisa, foram registrados 58 contatos ao longo dos três períodos reprodutivos. Em cada período foi percorrido 81 km em trilhas. O fragmento da mata tem 450 hectares de tamanho. A média de indivíduos encontrada foi 18, com uma densidade de 0.04 jaó/km². 

Continuidade da pesquisa 

Outros trabalhos estão sendo realizados. Uma pesquisa paralela busca determinar as espécies de ácaros associadas aos jaós e, ainda, outro estudo que será realizado posteriormente, procurará compreender a diversidade genética dos indivíduos do grupo estudado, uma vez que, por seus hábitos terrestres, ele está isolado de outros grupos por muito tempo. Corrêa também menciona a importância dos estudos em campo, aliado às ações de educação ambiental, visando a conservação do jaó. Através destas atividades é de se esperar que outras espécies ameaçadas de extinção como, por exemplo, o bugio, possam se beneficiar. 

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O jaó 

O jaó não tem dimorfismo sexual aparente, ou seja, para saber se um indivíduo é macho ou fêmea, o pesquisador precisa de investigação mais minuciosa. Em relação aos hábitos, os machos são responsáveis pelo cuidado dos ninhos. Os jaós voam apenas em alguma situação de perigo e são aves exclusivamente de hábitos florestais. Vivem, em média, cerca de seis anos e pertencem à família Tinamidae, a mesma dos perdizes e codornas.