Ocupação do Vale do Taquari por imigrantes italianos e descendentes aconteceu conforme práticas de uso do espaço adotadas na Itália, revela pesquisa

Postado as 18/02/2021 15:43:50

Por Lucas George Wendt

A data de 21 de fevereiro celebra o Dia do Imigrante Italiano no Brasil. O marco foi instituído pela Lei 11.687/2008. Na história, em 21 de fevereiro de 1874 o navio La Sofia chegou em Vitória, no Espírito Santo, e inaugurou a migração em massa de italianos para o Brasil. 

No Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD) da Universidade do Vale do Taquari - Univates existe um grupo de pesquisadores ligados ao projeto “Identidade Étnicas em espaços territoriais da Bacia Hidrográfica do Taquari-Antas/RS”, coordenado pelo professor doutor Luís Fernando da SIlva Laroque e dedicados a entender as dinâmicas históricas, sociais e culturais do Vale do Taquari sob o enfoque das ciências ambientais. 

Janaíne Trombini

Uma dessas investigadoras é a doutora Janaíne Trombini, cujo doutorado foi concluído recentemente, num estudo que contou com financiamento do Programa de Suporte à Pós-Graduação de Instituições Comunitárias de Educação Superior (Prosuc) e da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoas de Nível Superior (Capes). A historiadora, em sua tese, pesquisou a história ambiental e as espacialidades ítalo-brasileiras por meio de estudo comparativo em territórios no norte da Itália e ao norte do rio Taquari/RS tendo como base o período compreendido entre os séculos XIX e XX.

O trabalho consistiu em analisar o ambiente, questões sociopolíticas e as atividades agropecuárias entre as espacialidades ítalo-brasileiras durante os anos de 1860 até meados da década de 1910, apontando semelhanças e diferenças para compreensão da História Ambiental deste grupo étnico. 

Conforme a pesquisadora, as relações entre homem e natureza sempre aconteceram, indiferente de seu lugar geográfico.“Mesmo em espacialidades singulares, as relações e ações dos grupos de italianos apresentaram continuidades e modificações”, observa. 

Resultados

A pesquisa de Janaíne apontou muito mais semelhanças do que diferenças nas práticas sociais e culturais dos imigrantes italianos e ítalo-brasileiros descendentes no que se refere a sua relação com o ambiente. As correlações ambientais demonstram distinções como, por exemplo, o relevo das áreas onde as populações estão assentadas. O norte da  Itália, tem uma altitude média de até 4 mil metros, enquanto que o norte do Rio Taquari tem uma altitude média de 1 mil metros. 

As semelhanças, por outro lado, residem em fatos como a posição geográfica do território, ao norte do país, no caso da Itália, e ao norte do rio Taquari, no caso do Vale. A pesquisa também destaca o clima, com invernos rigorosos; os rios principais - Pó, na Itália; Taquari, no Vale - como centrais no desenvolvimento das regiões; além de a flora e a fauna como características próximas dos dois locais.

Janaíne Trombini

Em situações sócio-políticas identificou-se similaridade em questões fundiárias, agrárias e a própria Primeira Guerra Mundial, que aconteceu durante o período de imigração. As atividades econômicas possuem afinidades resultantes do desmatamento para as práticas agropecuárias, como a exploração madeireira, a vitivinicultura, o cultivo de milho, feijão, trigo, a criação de gado e a suinocultura. “No início as atividades eram voltadas para subsistência e fins comerciais, nas quais o imaginário do homem domesticando a natureza foi bastante operante”, diz a pesquisadora. 

Em relação às atividades, a pesquisa faz um levantamento daquelas que se mantiveram na região como eram realizadas na Itália e daquelas que se modificaram no decorrer do processo histórico. “Conhecendo de perto as realidades históricas ítalo-brasileiras foi possível perceber as aproximações de informações referentes ao ambiente e as atividades agropecuárias entre territórios distintos”, explica a pesquisadora. 

As relações entre os espaços ainda persistem, por exemplo, na forma de gemellaggio - a instituição de cidades irmãs de municípios italianos em outros países. O Vale do Taquari tem cinco gemellagggio com municípios italianos, todos da região do Vêneto: Encantado (com Valdastico); Arvorezinha (com Alpago); Ilópolis (com Auronzo di Cadore); Dois Lajeados (com Trichiana) e Doutor Ricardo (com Lentiai). 

Divulgação

 

Montando o quebra-cabeças histórico

Uma crise na Itália no fim do século XIX movimentou cerca de aproximadamente 25 milhões de italianos que emigraram para todo o mundo até 1930. Cerca de dois terços tinham como destino a América, como Brasil e Argentina. No Brasil, até 1935, entraram cerca de 1,5 milhão de italianos. 

Para entender a apropriação do ambiente promovida pelos italianos que chegaram ao Brasil é importante compreender como se deu o fluxo migratório. Os imigrantes italianos chegaram ao Rio Grande do Sul no final do século XIX, vindos do norte da Itália, especialmente de regiões como o Vêneto, Lombardia e Trentino Alto-Ádige. Os primeiros assentamentos foram situados na encosta superior do planalto gaúcho, entre os vales do rio Caí e do rio das Antas - atualmente o que se conhece como as regiões da Serra, das Hortênsias, do Vale do Caí e do Vale do Taquari. Posteriormente as populações se assentaram em outras regiões do Estado. 

No caso do atual Vale do Taquari, a instalação dos imigrantes italianos aconteceu por famílias vindas diretamente da Itália e da migração interna das antigas colônias, especialmente nas colônias ao norte do rio Taquari - a de Encantado, a de Guaporé e a de Conventos a partir de 1882. Estas colônias atualmente compreendem os municípios de Arvorezinha, Anta Gorda, Doutor Ricardo, Ilópolis, Putinga, Relvado, Pouso Novo, Progresso, Sério, Canudos do Vale, Coqueiro Baixo, Dois Lajeados, Encantado, Muçum, Nova Bréscia, Roca Sales e Vespasiano Corrêa.

Janaíne Trombini

Como a investigação foi realizada?

Durante a pesquisa, Janaíne, aproximou a memória, a história e a história ambiental. A etapa documental aconteceu em acervos, arquivos e museus tanto no Brasil como na Itália. Também houve uma etapa de pesquisa de campo com incursões etnográficas, cujas informações foram registradas em diários de campo e a por meio da técnica da história oral. Para esta etapa, Janaíne ouviu 24 famílias, 12 na porção norte do Vale do Taquari e 12 no extremo norte da Itália.