Para Lévy, estamos na pré-história de uma nova era

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Crédito da foto: Tuane Eggers

Quando o assunto é cibercultura, ele é uma das maiores autoridades do mundo. O filósofo francês Pierre Lévy, doutor em História da Ciência pela Paris Sorbonne University e especialista nos temas internet e sociedade, esteve na Univates, na noite desta sexta-feira, dia 13, palestrando no encerramento do III Simpósio Internacional Diálogos na Contemporaneidade: o real, o atual e o virtual. O evento ocorreu na Sala de Ginástica do Complexo Esportivo, e contou com a participação de centenas de pessoas, entre estudantes, professores e profissionais das mais diversas áreas do conhecimento.

Autor das obras “Cibercultura”, “Inteligência Coletiva”, “As Tecnologias da Inteligência” e “As Árvores de Conhecimento”, Lévy iniciou sua palestra apresentando um pouco da trajetória percorrida em seus estudos sobre inteligência coletiva. “Eu quis criar uma ciência da inteligência coletiva; isso era para mim um desafio”, afirmou, completando, logo em seguida, que é preciso uma constelação de conceitos para entender o que é o virtual e a inteligência coletiva.

E foi passeando por essa constelação que ele falou de real, atual, virtual, inteligência coletiva, redes sociais e cibercultura. “No meu entendimento, inteligência coletiva é algo que está muito relacionado ao desenvolvimento humano. O desenvolvimento humano é a base da inteligência coletiva, e a inteligência coletiva é o piloto do desenvolvimento humano, são interdependentes”, disse o filósofo, acrescentando que não se pode ter inteligência coletiva sem comunicação.

Segundo ele, hoje sabemos bem a noção de rede social porque todos estamos no Facebook ou no Twitter, mas sempre houveram redes sociais. “Você não pode organizar um trabalho fora de uma rede social. Uma família é uma rede social. A sociedade humana é organizada assim”, observou. E nessa rede, conforme Lévy, temos diferentes papeis. “Cada nó da rede social é diferente, com uma ideia particular, e é essa rede diferenciada que faz a rede social”.

E para dar suporte à inteligência coletiva, na opinião do filósofo, é preciso ter muitas conexões sociais e uma boa qualidade dessas conexões, além de confiança. “Nos movimentos sociais recentes que houveram no Brasil, uma das principais reivindicações diziam respeito a uma boa infraestrutura. Então, tem este aspecto técnico também, ou seja, tem a mensagem, as pessoas e os equipamentos”, destacou.

Em relação ao conhecimento, Pierre Lévy definiu-o como algo intangível e com muitos aspectos diferentes. “Há o conhecimento científico, uma dimensão estética, e algo que não é científico e artístico, mas que tem a ver com o significado da vida, com ética, com valores. Tudo isso é parte do conhecimento”, afirmou, acrescentando que o aspecto virtual e o aspecto de fato são interdependentes. “Você não pode ter um bom conhecimento, ética e poder se não tiver um bom sistema de comunicação, boa rede social e bons equipamentos. Todos os aspectos são interdependentes, e é preciso entender essa interdependência”, ressaltou. Para ele, não é possível construir um mundo melhor sem entender como ele funciona. “E é por isso que é tão importante não somente entender o que é a inteligência coletiva humana, mas ter o conhecimento dessa inteligência coletiva. É preciso medir, computar, observar a inteligência coletiva. Temos uma rede muito complexa e nem sempre entendemos o que está acontecendo”, disse.

Pierre Lévy afirmou ainda que hoje podemos medir o peso dos dados, mas não o significado das mensagens que são trocadas na internet. “E sem entender o significado, como podemos entender a comunicação e toda a inteligência coletiva?”, questionou.

Hoje podemos computar números de forma automática. “Na época dos Romanos isso não era possível. Então por que seria impossível ter o mesmo para o significado que já temos para os números e a razão lógica?”, provocou. “Estou tentando dar a vocês uma ideia do que está vindo. O que precisamos, se quisermos melhorar, é uma inteligência coletiva reflexiva. Precisamos uma maneira de entender nossos processo de inteligência coletiva para melhorar o desenvolvimento humano em todos seus aspectos”, acrescentou.

Essa inteligência coletiva reflexiva, segundo ele, é baseada em ciência, que tem um aspecto computacional, mas é basicamente humana. Agora temos uma maneira de representar a parte intangível, virtual, do mundo. Através dos nossos sentidos, da interface de usuário do mundo digital.

“Estamos apenas no início da evolução da comunicação digital. Estamos na pré-história de uma nova era. Haverá novas linguagens, sistemas de escrita muito mais poderosos que atualmente, com poder de programar as coisas, desenhar, fazer coisas abstratas. Não seria justo julgar o estado atual da comunicação como se ele devesse ficar como está. Ele está num estado de flutuação, de evolução. Tenho certeza de que vimos o início da evolução”, finalizou. Na sequência, foi aberto espaço para que o público pudesse fazer perguntas e colocações, dialogando com o palestrante.

O Simpósio, que teve início na quarta-feira, dia 11, objetivou promover debates sobre os desafios que se apresentam na educação e nos demais campos do conhecimento na era digital. Entre os convidados que ministraram atividades estiveram o escritor Ferréz, o jornalista Juremir Machado, a professora Silene Freire, o cineasta Carlos Gerbase e o escritor Ismael Caneppele. O evento também contou com Grupos Temáticos sobre: Sustentabilidades Contemporâneas; Tecnologia, Educação e Comunicação; Arte, Corpo e Escritura; e Direitos Humanos.

Detalhes podem ser conferidos no site www.univates.br/dialogos.

Encontro inspirador

Uma das participantes do evento foi a professora Marciele Berger Bernardes, que viajou de Santa Catarina para encontrar Lévy. Os conceitos do autor foram a principal inspiração para seu livro “Democracia na Sociedade Informacional”, lançado neste ano, pela Editora Saraiva. O trabalho é resultado de sua dissertação de mestrado pela Universidade Federal de Santa Catarina (UFSC).

Quando ela ficou sabendo da palestra, não hesitou em efetuar sua inscrição no evento. “Este é um momento para colocar em prática toda a teoria e complementar esses estudos. É um momento muito especial que a Univates está proporcionando, pois é difícil trazer um teórico deste renome para um evento. Neste sentido, a Instituição está muito bem colocada”, ressaltou ela.

Sua obra aborda a teoria de “ciberdemocracia” de Pierre Lévy na prática dos Executivos (prefeituras das capitais brasileiras). Aos interessados, o livro está disponível na Livraria Nobel, de Lajeado.

 

Texto: Tamara Bischoff e Tuane Eggers


13/09/2013





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