O momento é para ficarmos longe, mas mais unidos do que nunca - Parte VIII

Postado as 13/05/2020 13:34:42

Por Ney José Lazzari

 

Queridos alunos, professores, técnico-administrativos e amigos da Univates!

O antropólogo, escritor e político brasileiro Darcy Ribeiro, eternizado no mural pintado por Kobra na fachada de nosso primeiro prédio, dedicou sua trajetória à educação e às questões indígenas. Suas ideias influenciaram vários estudiosos latino-americanos. Publicou, em 1995, o livro “O Povo Brasileiro”, obra que aborda a formação histórica, étnica e cultural do povo brasileiro. Resgatar a obra de Darcy Ribeiro é lembrar quem somos. Assim como ele ajudou a resgatar nossa identidade, este talvez seja o momento de voltarmos nosso olhar às nossas raízes. Talvez, dessa forma, encontremos as respostas que nos faltam e que nos façam olhar para o futuro para construirmos uma história diferente.

 

 

Numa entrevista para a TV Cultura de São Paulo em 1995, Darcy comentou sobre seus estudos fazendo, naquela época, uma reflexão que é mais atual do que nunca:

Como eu vivi muitos anos com os índios, senti, sempre, o maior encantamento por sua capacidade de viver uma vida comunitária, por sua capacidade de viver uma vida solidária. Por exemplo, eu nunca vi um índio dar uma surra em sua mulher, nem dar pescoção em um conhecido, nem bater numa criança. Aquela sociedade, anterior às classes e avanços tecnológicos, tinha alguma coisa que nós perdemos. O futuro desejável não é aquele em que voltemos todos a sermos índios? Ou seja, não é, dentro de uma tecnologia mais desenvolvida, voltarmos a ser solidários, cordiais, voltarmos a ter gosto de viver?

O processo civilizatório nos levou a um patamar tecnológico inimaginável há algumas gerações. No entanto, temos falhado em respeitar culturas e patrimônios, sejam de nações indígenas, sejam de povos ou de minorias vulneráveis espalhados pelo mundo. Falhamos enquanto sociedade em aprender com a solidariedade, com o senso coletivo e com o amor pela natureza e pelo humano. E, em certa medida, a pandemia que vivemos é também fruto dessa desconexão. Em várias oportunidades, Darcy expressou seu amor pelo povo brasileiro, sua preocupação com as minorias e sua luta por condições mais dignas e igualitárias num país afundado em desigualdades sociais. 

É nesse contexto, não só brasileiro nem só latino-americano, de desigualdades sociais e de marginalidade das minorias que Darcy pensa o papel da educação como ferramenta de inclusão, de libertação e de transformação da realidade.

Uma das coisas que a pandemia trouxe vem ao encontro dessa preocupação: a necessidade de olhar para o local, de olhar para dentro, para nossa própria existência. E esta é uma grande contribuição que povos e culturas vulneráveis podem nos trazer: eles têm um sentido de pertencimento à natureza, uma noção do impacto das suas ações que se reflete no respeito admirável a toda a biosfera. A consciência do impacto gera um senso de cuidado que dificilmente temos.

É o momento para voltar o olhar para o local e com isso aprender a cuidar da gente, das pessoas próximas, dos negócios próximos. Muitos estão acordando para o fato de comprar do local, muitos estão voltando o olhar para suas comunidades, preocupados com os impactos econômicos que os pequenos negócios estão sofrendo e ainda sofrerão. 

Uma universidade comunitária, como é o caso da Univates, deve ter sua trajetória e seu dia a dia envolvidos nas redes mundiais de conhecimento, saberes e pesquisas, mas sempre voltados para a busca de soluções e propostas para o seu local, para a sua  comunidade. As pesquisas e os projetos de extensão precisam buscar soluções para  problemas locais, atendendo a demandas das nossas regiões. O conhecimento e a ciência produzida para o local, mas em constante interação com o universal, acabam por nos fazer avançar para novos patamares da construção do conhecimento. 

Nós todos, enquanto comunidade acadêmica, pensadores, construtores, disseminadores e guardiões do conhecimento, temos esse legado para deixar para os que virão. 

Seremos grandes e fortes pois estaremos juntos.

Abraços (virtuais), ânimo, saúde e força para todos.

 

Andrà tutto bene!

!Todo va a estar bien!

Everything will be alright!

Alles wird gut! 

Tudo vai ficar bem!

 

Lajeado, 13 de maio de 2020. 

Oitava semana de isolamento. 

Ney José Lazzari 

Reitor da Univates