
Antropóloga francesa Sandrine Teixido cumpriu agenda técnica no Vale do Taquari para diagnosticar impactos de inundações
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 24/09/2026, 08:00:00
|Atualizado em: 24/09/2026, 11:36:20
A construção de cidades capazes de conviver com a água, em vez de simplesmente tentar afastá-la, está no centro de uma pesquisa internacional que reúne a Universidade do Vale do Taquari – Univates, a BAU EN e o escritório dinamarquês Henning Larsen. Intitulada Flood Dynamic Villages/Cities, a iniciativa une arquitetura, urbanismo, antropologia e pesquisa aplicada para investigar formas de criar habitats mais resilientes em territórios sujeitos a inundações. No Vale do Taquari, região marcada por sucessivos eventos extremos nos últimos anos, a investigação busca compreender como as experiências das comunidades podem contribuir para o desenvolvimento de estratégias de adaptação climática.
Como parte desse processo, entre os dias 19 e 22 de agosto de 2026, a Univates e o município de Arroio do Meio receberam a antropóloga e pesquisadora francesa Sandrine Teixido, integrante do grupo de pesquisa. A agenda teve caráter técnico e institucional e incluiu reuniões com pesquisadores, Defesa Civil, assistência social, representantes de movimentos sociais, comunidades indígenas e moradores de áreas atingidas pelas inundações. O bairro Navegantes, em Arroio do Meio, esteve entre os territórios priorizados durante o trabalho de campo.
A visita permitiu aproximar a pesquisa internacional das especificidades sociais, territoriais e ambientais do Vale do Taquari, em uma que programação incorporou questões relacionadas à moradia, aos processos de realocação, aos abrigos temporários, à organização comunitária e às experiências vivenciadas pela população durante e depois dos desastres.
A programação teve início na tarde de 19 de agosto, na Univates, com a recepção de Sandrine Teixido e uma reunião de alinhamento no Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo (Semeia EMAU). Participaram do encontro os pesquisadores Carlos Augusto Seibel, Bruna Zanoni Ruthner e Bárbara Delazeri. A reunião foi dedicada à análise dos projetos em desenvolvimento e das demandas territoriais relacionadas ao projeto Semeia EMAU.

Agenda de 20 de agosto
No dia seguinte, 20 de agosto, a universidade sediou o Workshop do Projeto de Gestão de Riscos, acompanhado pela professora Jamile Weizenmann, coordenadora do Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo – Semeia EMAU. A atividade foi organizada em diferentes momentos, permitindo abordar tanto a experiência acumulada pela região diante das inundações quanto os desafios relacionados à resposta emergencial.
Durante a manhã, uma roda de conversa com a Defesa Civil tratou do balanço das ações desenvolvidas para enfrentar os impactos das inundações de julho de 2024. O encontro possibilitou discutir procedimentos adotados durante o desastre, dificuldades encontradas pelas equipes e aspectos que podem subsidiar o planejamento de futuras ações de prevenção, resposta e recuperação.
À tarde, as discussões concentraram-se nos abrigos temporários. Foram analisadas questões relacionadas às diretrizes para ocupação desses espaços, à gestão cotidiana e aos processos de desmobilização.

Agenda de 21 de agosto
A sexta-feira, 21 de agosto, foi dedicada principalmente ao trabalho de campo em Arroio do Meio. Pela manhã, a equipe formada por Jamile Weizenmann, Carlos Augusto Seibel, Bruna Zanoni Ruthner e Sandrine Teixido esteve na Prefeitura Municipal, onde participou de uma reunião com o Centro de Referência de Assistência Social (CRAS). O objetivo foi conhecer dados sobre o perfil das pessoas atingidas pelas inundações e compreender os processos relacionados às políticas de realocação.
Na sequência, a equipe visitou novos conjuntos habitacionais, casas temporárias na localidade de Medianeira e o bairro Navegantes. A circulação pelos diferentes territórios permitiu à pesquisadora observar as transformações provocadas pelas inundações e conhecer, diretamente no espaço urbano, diferentes estratégias adotadas para responder às necessidades habitacionais da população atingida.
A dimensão social da pesquisa foi ampliada no período da tarde, quando as atividades retornaram à Univates para reuniões de escuta comunitária. Um dos encontros foi dedicado às comunidades indígenas, com participação do professor Luís Fernando da Silva Laroque. Posteriormente, a equipe dialogou com lideranças do Movimento dos Atingidos por Barragens (MAB). A inclusão desses grupos permite incorporar à investigação diferentes formas de perceber o território, os riscos e os processos de reconstrução.

Agenda de 22 de agosto
O último dia da agenda, 22 de agosto, foi marcado por uma imersão técnica no Quilombo Vô Teobaldo, localizado na comunidade de São Roque, em Palmas, no município de Arroio do Meio. A atividade foi acompanhada pela moradora e liderança comunitária Eliana Luciana Voitlander. A visita possibilitou ampliar o diagnóstico territorial para uma comunidade quilombola e conhecer aspectos relacionados à ocupação do espaço, às relações comunitárias e às experiências diante dos eventos climáticos. Para Jamile Weizenmann, essa etapa representa um momento importante da pesquisa justamente por aproximar a produção acadêmica das experiências concretas das populações afetadas.

Importância de ouvir a comunidade
“Esta etapa configura um dos passos mais importantes da pesquisa, porque permite alinhar o trabalho aos preceitos da extensão universitária e compreender, junto com a comunidade, os desafios e as possíveis soluções para que a pesquisa avance de forma aplicada e faça sentido para quem mais precisa. A escuta ativa e os processos de participação social dão espaço aos sentimentos e às angústias da população afetada, mas também permitem visualizar novas soluções e construir possibilidades para cidades melhores e mais adaptadas no período pós-desastre.”
A perspectiva adotada pela pesquisa parte, portanto, da compreensão de que a resiliência urbana não pode ser pensada exclusivamente como uma questão de engenharia ou infraestrutura. Embora obras, sistemas de drenagem, planejamento territorial e soluções habitacionais sejam componentes fundamentais, a capacidade de adaptação de um território também depende de redes sociais, conhecimentos locais, políticas públicas, formas de ocupação e participação das comunidades nos processos decisórios.
O papel da Arquitetura e do Urbanismo
A abordagem também está presente na experiência de Carlos Augusto Seibel, estudante de Arquitetura e Urbanismo e pesquisador do Semeia EMAU. Para ele, a possibilidade de participar da investigação permite aproximar diferentes formas de conhecimento e transformar as experiências locais em elementos para a pesquisa aplicada.
“Ter a oportunidade de participar, como estudante de Arquitetura e Urbanismo e pesquisador do Semeia EMAU, de uma pesquisa tão potente e necessária diante dos desafios do nosso tempo e da realidade regional é extremamente gratificante. O que torna essa experiência ainda mais significativa é a possibilidade de articular as vivências e os saberes das comunidades com o conhecimento técnico de profissionais de diferentes países e as perspectivas de uma pesquisa interdisciplinar, construindo caminhos que não sejam apenas conceitualmente relevantes, mas também concretos, aplicáveis e conectados às necessidades reais do território.”


