Meio Ambiente, Saúde, PPGAD

Áreas verdes urbanas podem reduzir depressão, ansiedade e estresse, conforme evidências coletadas em cinco continentes

Por Lucas George Wendt

|

Postado em: 23/09/2026, 11:00:00

|

Atualizado em: 23/09/2026, 11:02:15

Compartilhe

Imagem da capa da notícia: Phil Hearing (Unsplash)

Uma revisão integrativa realizada por pesquisadoras da Universidade do Vale do Taquari - Univates e da Universidade Federal do Rio Grande (FURG) identificou uma associação predominante entre a exposição a áreas verdes e a melhora de diferentes indicadores de saúde mental, especialmente depressão, ansiedade e estresse. 

O estudo analisou 27 pesquisas desenvolvidas nos cinco continentes e encontrou evidências favoráveis em diferentes contextos, desde hortas e parques urbanos até fragmentos florestais, bairros arborizados e ambientes verdes apresentados virtualmente. O trabalho foi realizado por Jane M. Mazzarino, professora da Univates e doutora em Ciências da Comunicação pela Universidade do Vale do Rio dos Sinos (Unisinos), Patrícia Cota Lima, graduanda em Medicina na FURG, e Caroline Silva Moura, graduanda em Medicina na Univates.

Publicado em 2025, na revista Estudos de Psicologia, o artigo “Relação entre exposição a diferentes tipos de espaços verdes urbanos e estados de depressão, ansiedade e estresse: uma análise integrativa” procurou compreender como diferentes formas de contato com a natureza em contextos urbanos podem repercutir sobre a saúde psicológica. A pesquisa parte da constatação de que a saúde mental constitui uma dimensão integrante da saúde geral e de que depressão, ansiedade e estresse estão entre os problemas que vêm recebendo crescente atenção da comunidade científica.

O estudo não se limitou, entretanto, a perguntar se o verde faz bem. A questão foi mais específica: como diferentes tipos de áreas verdes, submetidos a diferentes formas de exposição e avaliação, se relacionam com estados de saúde mental? A distinção é relevante porque os resultados encontrados não autorizam tratar todas as áreas verdes como equivalentes. A quantidade de vegetação, a distância entre a residência do indivíduo e o espaço verde, o tempo de exposição, a configuração do bairro e mesmo as condições de segurança podem alterar os resultados observados.

A investigação também amplia a compreensão do que pode ser considerado exposição a ambientes verdes. No estudo, a expressão abrange a interação de pessoas com plantas em espaços urbanizados, tanto públicos quanto privados, e também situações em que o contato ocorre de maneira simulada, por meio de projeções e imagens. A definição permitiu reunir evidências provenientes de experiências bastante distintas, mantendo como eixo comum a relação entre presença ou visualização de elementos naturais e indicadores de saúde mental.

Nesse sentido, a pesquisa oferece subsídios para pensar a cidade como ambiente que participa das condições de saúde das pessoas. A existência de vegetação próxima às residências, a distância até parques e outros espaços naturais, a presença de árvores e a segurança dos bairros aparecem como elementos que podem interferir na experiência de contato com o verde.

Divulgação

Uma revisão de 344 estudos

Para chegar aos resultados, as pesquisadoras utilizaram uma análise integrativa de caráter quanti-qualitativo, metodologia que permite reunir, organizar e comparar resultados de pesquisas realizadas com diferentes procedimentos. O método seguiu cinco etapas descritas pela literatura científica, que compreendem a identificação do problema, pesquisa bibliográfica, avaliação dos dados, análise dos dados e apresentação dos resultados.

As buscas nas bases de dados científicas geraram 344 resultados. Depois da leitura dos títulos e resumos, foram identificados 29 artigos aplicáveis ao objetivo da pesquisa. Foram excluídos trabalhos sem relação direta com o problema investigado, revisões sistemáticas e estudos concentrados em transtornos diferentes de depressão, ansiedade e estresse. Na etapa seguinte, dois artigos foram retirados: um por falta de clareza metodológica ou rigor suficiente e outro por ser um editorial. A amostra final foi, portanto, composta por 27 estudos.

Os estudos selecionados apresentavam grande diversidade. Foram realizadas pesquisas com diferentes faixas etárias, embora predominassem participantes adultos, seguidos por pessoas idosas. Também houve diferenças na composição por gênero e nos procedimentos empregados. Entre os métodos identificados estavam estudos transversais, estudos de coorte, entrevistas, questionários, avaliações fisiológicas, modelos de regressão, sistemas de informação geográfica, experimentos com ambientes virtuais e procedimentos de autorrelato.

A heterogeneidade constituiu, ao mesmo tempo, uma riqueza e uma limitação da revisão. Por um lado, permitiu observar o fenômeno sob diferentes perspectivas e em contextos geográficos variados. Por outro, dificultou a comparação direta entre os resultados, já que os estudos nem sempre utilizaram os mesmos critérios para definir ou mensurar a exposição às áreas verdes.

Os 27 trabalhos foram organizados a partir de seus objetivos, métodos e resultados. Na etapa de análise, uma dupla de pesquisadoras realizou a leitura completa e a síntese dos artigos. Os dados foram então apresentados em textos e quadros, considerando duas dimensões principais: os aspectos relacionados à saúde mental e os diferentes tipos de ambientes. Em seguida, foram comparadas aproximações, discordâncias e singularidades, buscando identificar padrões entre os estudos.

Vinte e cinco dos vinte e sete estudos encontraram benefícios

O resultado mais expressivo aparece na distribuição geral das evidências: dos 27 estudos analisados, 25 identificaram benefícios do contato com áreas verdes para a saúde mental. Um estudo não encontrou alterações e outro registrou piora no índice de depressão, resultado atribuído pelos autores às características do bairro onde a exposição ocorreu. Quando a análise foi concentrada na ansiedade, oito estudos identificaram redução desse estado após a exposição a áreas verdes, enquanto dois não encontraram evidências de alteração. Para o estresse, dez estudos apontaram redução dos níveis após o contato com ambientes verdes, sem que nenhum dos trabalhos analisados apresentasse resultado contrário nesse aspecto.

Na depressão, 11 estudos demonstraram redução associada ao contato com ambientes verdes. Dois não encontraram evidências suficientes de alteração e um identificou aumento da depressão, novamente relacionado às condições de insegurança do bairro analisado. Os benefícios não se restringiram aos três indicadores centrais. Quatro estudos identificaram melhora no bem-estar; sete apontaram melhora nos índices de humor; quatro observaram redução de pensamentos ou emoções negativas; e quatro registraram diminuição do sofrimento psíquico ou mental. Também foram encontrados resultados relacionados à autorrealização e à inclusão social, à atenção e à saúde física.

O conjunto de evidências levou as autoras a uma conclusão favorável, mas cautelosa. Segundo o artigo, “a análise integrativa demonstra uma minoria de estudos que contradizem a maioria das pesquisas que atestam os benefícios dos ambientes verdes para a saúde, principalmente mental”. Ao mesmo tempo, o trabalho adverte que esses resultados não podem ser simplesmente generalizados, pois a experiência de contato com a natureza depende de circunstâncias específicas.

Marius Karotkis (Unsplash)

Hortas, parques e bairros não produzem exatamente a mesma experiência

Uma das principais contribuições do estudo está justamente na diferenciação dos ambientes. Os 27 artigos foram agrupados em cinco categorias: hortas, parques, bairros, fragmentos florestais e ambientes simulados. A classificação permitiu observar que os benefícios não são homogêneos e que determinados tipos de contato parecem apresentar resultados mais expressivos em alguns indicadores.

Nas hortas, os estudos analisados relacionaram a horticultura urbana à melhora de depressão, ansiedade, estresse e à promoção do bem-estar. Uma das pesquisas comparou parques urbanos, hortas e paisagens verdes e identificou que as hortas caseiras apresentaram melhor interferência sobre a saúde mental. Outro estudo apontou que o contato com hortas produziu alívio do estresse e diminuição de pensamentos negativos, além de favorecer a sensação de inclusão social e autorrealização.

Os parques também apresentaram resultados positivos. Os estudos associaram esses espaços à diminuição de depressão e ansiedade, redução do estresse, melhora do humor e aumento do bem-estar. Caminhadas em grupo realizadas em parques, por exemplo, foram relacionadas a benefícios para a saúde mental. A exposição a espaços verdes urbanos também apareceu associada à regulação de respostas relacionadas a emoções negativas.

A quantidade de vegetação, contudo, não parece ser o único elemento relevante. Um dos estudos comparou espaço verde total, copas de árvores, grama e vegetação baixa e encontrou melhores resultados associados às copas das árvores para a diminuição do sofrimento psíquico. Isso sugere que a caracterização da vegetação pode ser tão relevante quanto a simples contabilização da existência de uma área verde.

O bairro pode modificar o efeito do verde

Quando o foco recaiu sobre os bairros, a pesquisa encontrou uma relação mais complexa. Os estudos analisaram principalmente a presença e a distância das áreas verdes e sua associação com depressão, ansiedade, estresse, bem-estar e sofrimento psíquico.

Em determinados contextos, mais cobertura verde esteve associada à redução da ansiedade e a melhores indicadores de saúde mental. Um dos estudos identificou que o aumento de 1% na área coberta por árvores estava associado a uma redução de 5% na prevalência de sofrimento emocional. Os benefícios, porém, variaram de acordo com as características dos indivíduos e dos bairros.

A segurança aparece como variável decisiva. Um estudo realizado no Marrocos identificou aumento da depressão associado ao contato com jardins de rua, resultado que as autoras relacionam à condição de insegurança dos bairros. Ou seja, a presença física de vegetação não necessariamente neutraliza os efeitos negativos produzidos por um ambiente urbano percebido como ameaçador.

A distância também interferiu nos resultados. Uma das pesquisas apontou menor prevalência de patologias em locais que contavam com maior quantidade de áreas verdes em um raio de um quilômetro, com correlação mais forte para depressão e ansiedade. Outro estudo identificou uma relação segundo a qual quanto maior a distância a ser percorrida até um ambiente natural, maior o número de atendimentos relacionados à ansiedade e à desordem de humor.

Há ainda uma dimensão temporal. Os estudos sugerem que a exposição a áreas verdes ao longo da vida, particularmente durante a infância, pode repercutir sobre a saúde mental posteriormente, na fase adulta. 

Florestas apresentam resultados particularmente consistentes

Entre as categorias examinadas, os fragmentos florestais e as experiências de “banho de floresta” apresentaram resultados particularmente favoráveis. Os estudos associaram esses ambientes a melhorias em ansiedade, depressão, estresse, humor, restauração subjetiva, vitalidade, atenção e aspectos da saúde física.

Em uma das pesquisas, participantes submetidos ao banho de floresta apresentaram aumento de sentimentos positivos, restauração subjetiva e vitalidade, além da diminuição de sentimentos negativos como tensão, ansiedade, depressão e confusão. Quando comparados a participantes que realizaram caminhadas em ambientes urbanos, aqueles expostos à floresta apresentaram resultados mais favoráveis para humor, sentimentos positivos, restauração e vitalidade.

Outro estudo comparou caminhadas de 15 minutos em uma cidade e em uma floresta de bambu. Após a experiência na floresta, foram observadas redução da ansiedade e melhora da atenção e do humor. Também houve redução significativa da pressão arterial e alterações na atividade cerebral.

Os efeitos fisiológicos foram igualmente observados em outras pesquisas. Um dos estudos sobre banho de floresta identificou diminuição do cortisol salivar, da atividade simpática e da frequência de pulso, além de aumento da atividade parassimpática. Em conjunto, os resultados foram interpretados como indicativos de efeitos positivos tanto sobre a saúde psicológica quanto sobre a fisiológica.

A síntese apresentada pelas autoras indica que ambientes florestais, hortas e a visualização de copas de árvores tendem a apresentar mais benefícios do que o contato genérico com fragmentos verdes urbanos, conclusão que aponta para a não existência de um único tipo de espaço ideal, mas a evidência da necessidade de compreender com mais precisão quais características ambientais estão relacionadas a determinados efeitos.

Até ambientes virtuais apresentaram efeitos

Um dos aspectos mais singulares da revisão está na inclusão de ambientes simulados. Em um dos estudos analisados, participantes foram expostos virtualmente a diferentes cenários: espaço cinza, espaço azul, espaço verde aberto, espaço verde parcialmente aberto, espaço verde parcialmente fechado e espaço verde fechado.

A exposição virtual produziu redução da fadiga atencional e do humor negativo, além de restauração do estresse fisiológico. O espaço verde parcialmente aberto foi o que apresentou mais influência na diminuição do humor negativo. Embora não tenham sido identificadas diferenças significativas nas respostas fisiológicas entre todas as imagens, os resultados indicaram que mesmo uma experiência simulada pode produzir determinadas respostas relacionadas à restauração.

Para as pesquisadoras, o resultado amplia a discussão sobre o conceito de exposição. A relação entre saúde mental e natureza não necessariamente depende, em todos os casos, da presença física em uma floresta, parque ou jardim. Entretanto, os resultados também reforçam a necessidade de não equiparar experiências distintas: uma experiência virtual e uma imersão em um ambiente natural são fenômenos diferentes e exigem avaliações específicas.

Uma evidência que não deve ser transformada em generalização

A principal ressalva da pesquisa está relacionada à diversidade metodológica dos estudos analisados. Como os trabalhos utilizaram diferentes formas de medir exposição, saúde mental, tempo de contato e características ambientais, não foi possível estabelecer comparações amplas entre todos os resultados.

Essa limitação é central para interpretar corretamente a pesquisa. O estudo não afirma que qualquer área verde, em qualquer circunstância, produzirá automaticamente melhora da saúde mental. Pelo contrário, as autoras enfatizam que os resultados dependem “da forma de contato escolhida e de avaliação dos resultados para a saúde mental, o tipo de área verde urbana, o tempo de exposição, a quantidade de verde, a distância dos moradores em relação às áreas verdes, as características dos indivíduos e dos bairros”.

O trabalho também reconhece que determinadas dimensões da experiência humana escapam às métricas utilizadas nas pesquisas. A interação com um ambiente verde não é apenas uma exposição mensurável em termos de distância ou quantidade de vegetação; ela envolve uma experiência situada, atravessada por características individuais e sociais. Por isso, as autoras defendem a realização de pesquisas que aprofundem os aspectos qualitativos desse contato.

Resultados recentes reforçam a tendência

Como esforço complementar de atualização, as pesquisadoras retornaram ao PubMed e aplicaram os mesmos descritores utilizados originalmente. Entre 20 de setembro de 2021 e 12 de julho de 2025, foram encontrados 182 novos resultados. Uma leitura exploratória de 15 artigos selecionados a partir dos títulos e resumos indicou que pesquisas mais recentes reiteram os resultados encontrados na revisão original.

O próprio artigo apresenta exemplos dessa produção posterior. Entre os resultados destacados estão evidências de que banhos de floresta podem diminuir o estresse e aumentar o bem-estar; parques com mais elementos naturais podem favorecer a redução do sofrimento mental; hortas comunitárias podem melhorar a saúde mental; adolescentes podem se beneficiar dos espaços verdes; e o acesso a essas áreas pode estar associado à redução de sintomas de ansiedade.

Outros trabalhos recentes citados na atualização relacionam maior quantidade de espaços verdes residenciais a menor utilização de medicamentos para transtornos de humor, apontam que jardins residenciais e ambientes naturais podem mitigar riscos de transtornos mentais e indicam associação entre áreas verdes e menor probabilidade de procura por atendimento relacionado a problemas de saúde mental. Esses estudos complementares, contudo, foram apresentados pelas autoras apenas como atualização exploratória, pois não passaram pelos mesmos critérios de rigor empregados na seleção dos 27 artigos que compõem a revisão principal.

Referência

MAZZARINO, Jane Marcia; LIMA, Patrícia Cota; MOURA, Caroline Silva. Relação entre exposição a diferentes tipos de espaços verdes urbanos e estados de depressão, ansiedade e estresse: uma análise integrativa. Estudos de Psicologia (Natal), v. 30, p. 1-12, 2025. DOI: https://doi.org/10.22491/1678-4669.20253015

Shane Rounce (Unsplash)

Fique por dentro de tudo o que acontece na Univates. Escolha um dos canais para receber as novidades:

Compartilhe

topo
voltar