Vale do Taquari, Crise climática, Resiliência climática

Da realidade de Muçum à tecnologia: conheça a experiência de um estudante da Univates que criou uma plataforma para monitorar o Rio Taquari

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 24/09/2026, 11:30:00

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Atualizado em: 24/09/2026, 11:49:41

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O monitoramento dos rios e a compreensão das condições hidrológicas da região do Vale do Taquari ganharam uma nova ferramenta desenvolvida a partir da experiência de um morador de Muçum e estudante da Universidade do Vale do Taquari - Univates. O SMART (Sistema de Monitoramento e Alertas do Rio Taquari), é um projeto desenvolvido por Rafael Lammel Miotti, do curso de Engenharia de Software, como parte de seu Trabalho de Conclusão de Curso (TCC). A iniciativa busca reunir informações que atualmente estão distribuídas em diferentes sistemas e apresentá-las de maneira mais acessível à população. 

Orientado pelo professor doutor Alexandre Stürmer Wolf, da Univates, o projeto conta com a participação da Defesa Civil de Muçum, especialmente por meio do coordenador municipal Wagner Deconto. A colaboração permite que o desenvolvimento da plataforma considere as necessidades concretas do município, estabelecendo uma relação entre os conhecimentos técnicos da área de tecnologia e os desafios enfrentados por uma comunidade exposta aos efeitos das cheias do Rio Taquari.

A proposta do SMART parte de uma questão recorrente em regiões sujeitas a inundações: como transformar um conjunto de dados técnicos, produzidos por diferentes estações e órgãos, em informações que possam ser compreendidas e utilizadas pela população no acompanhamento das condições dos rios? A plataforma procura responder a esse desafio por meio da integração de dados hidrológicos, pluviométricos e relacionados a barragens, associada a recursos de Inteligência Artificial e funcionalidades específicas para os moradores de Muçum.

Divulgação

Dados sobre a chuva entre 18 de setembro e 24 de setembro

A motivação, os desafios e a expectativa 

Miotti explica que é morador de Muçum e foi afetado pelas grandes enchentes que ocorreram nos últimos anos. “A de setembro de 2023 foi a mais marcante para mim, porque na época, por não conseguir acompanhar corretamente o que estava acontecendo com o rio, acabei ficando em cima do telhado da minha casa e precisei ser resgatado pelo Corpo de Bombeiros. Depois dessa experiência comecei a pensar em como a tecnologia poderia ajudar a facilitar o acesso a essas informações. Quando chegou o momento de definir meu TCC, quis desenvolver algo relacionado a um problema que eu realmente vivi e que também faz parte da realidade de muitas pessoas da nossa região”, explica. 

Um dos principais desafios foi trabalhar com dados que vêm de várias fontes diferentes. “Muitas dessas informações já existem, mas estão espalhadas, têm formatos diferentes e nem sempre estão disponíveis da maneira que precisamos. Então não é simplesmente buscar os dados e mostrar na tela: existe todo um trabalho para coletar, tratar, organizar e transformar essas informações em algo que realmente seja compreensível e útil para a população. Outro desafio é a responsabilidade de desenvolver uma ferramenta que trabalha com informações relacionadas a enchentes. É algo que pode influenciar a percepção de risco das pessoas, então existe uma preocupação muito grande em deixar claro o que os dados significam e também os limites do sistema, principalmente porque o SMART não substitui os alertas e as orientações oficiais da Defesa Civil”, complementa ele.  

Em relação à expectativa do próprio idealizador sobre a ferramenta, Miotti explica que “espero principalmente que o SMART continue evoluindo e não seja um projeto que termine junto com o meu TCC. Quero continuar melhorando a plataforma a partir do retorno dos moradores e da Defesa Civil e fazer com que ela realmente seja útil para Muçum. No futuro, também gostaria de expandir essas funcionalidades para outros municípios, adaptando o sistema à realidade e aos dados de cada cidade. Mas, acima de tudo, espero que o projeto consiga facilitar o acesso da população às informações e ajudar as pessoas a entenderem melhor o que está acontecendo com o rio e como aquilo pode afetar o local onde vivem. De certa forma, quero que outras pessoas possam ter acesso à ferramenta que eu gostaria de ter tido quando precisei”, finaliza. 

Dados hidrológicos reunidos em uma única plataforma

O SMART foi concebido para centralizar informações relacionadas ao comportamento do Rio Taquari e às condições hidrológicas da bacia do Taquari-Antas. Atualmente, o sistema acompanha dados provenientes de estações hidrológicas distribuídas pela região, incluindo registros sobre o nível dos rios e a vazão dos cursos d’água. Também reúne informações de estações pluviométricas e dados relacionados a barragens situadas no Rio das Antas.

A reunião dessas informações em um único ambiente procura reduzir a necessidade de consultar diferentes fontes para obter uma visão geral das condições da bacia. Para o usuário, a centralização pode facilitar o acompanhamento da evolução dos níveis dos rios, da ocorrência de chuvas e de outros indicadores relevantes para a compreensão do cenário hidrológico.

O nível de um rio e sua vazão são informações distintas, embora estejam relacionadas. O nível corresponde à altura da água em determinado ponto de medição, enquanto a vazão representa o volume de água que passa por uma seção do curso d’água em determinado intervalo de tempo. A precipitação, por sua vez, indica a quantidade de chuva registrada em uma área e período específicos. A interpretação conjunta desses dados contribui para a compreensão das condições que podem influenciar o comportamento dos rios.

O projeto desenvolvido por Miotti procura aproximar essas informações do cotidiano da população. Em vez de exigir que o usuário conheça previamente os diferentes sistemas de monitoramento ou domine conceitos de hidrologia, a plataforma busca apresentar os dados de forma organizada, permitindo que sejam consultados em um ambiente integrado.

A iniciativa também ressalta a possibilidade de aplicação de conhecimentos de Engenharia de Software a demandas relacionadas à gestão de riscos e à resiliência territorial. Nesse contexto, o desenvolvimento tecnológico envolve a organização de informações, a definição de funcionalidades e a consideração das necessidades dos usuários que utilizarão o sistema.

Inteligência Artificial para facilitar a compreensão

Um dos recursos incorporados ao SMART é o uso de Inteligência Artificial para auxiliar na interpretação dos dados hidrológicos. A tecnologia integra a proposta de tornar as informações mais compreensíveis para um público que nem sempre tem conhecimentos específicos sobre rios, vazões, cotas ou sistemas de monitoramento.

A plataforma busca, dessa forma, ir além da apresentação de números. A funcionalidade está associada a uma questão central da comunicação de riscos: a disponibilidade de informação não garante, por si só, que ela seja compreendida. Para que um dado técnico tenha utilidade social, é necessário que o usuário consiga identificar o que está sendo medido, compreender seu significado e relacioná-lo à sua realidade. 

O objetivo não é substituir a análise técnica dos órgãos responsáveis pelo monitoramento, mas oferecer uma forma complementar de acesso às informações qualificadas. A participação da Defesa Civil de Muçum contribui para que o desenvolvimento seja acompanhado a partir das demandas de um município que conhece, na prática, os efeitos das inundações. 

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Uma das estações em destaque

Acompanhamento personalizado conforme o endereço

Entre as funcionalidades desenvolvidas para Muçum está a possibilidade de o usuário cadastrar seu endereço na plataforma. A partir dessa informação, o sistema pode relacionar a localização cadastrada à respectiva cota de inundação, conforme os dados estabelecidos no Plano de Contingência municipal.

A funcionalidade procura considerar que um município não apresenta o mesmo nível de vulnerabilidade em todos os seus pontos. Diferentes áreas podem ser atingidas em momentos distintos durante a elevação do Rio Taquari, de acordo com suas características topográficas e com os parâmetros de inundação considerados no planejamento municipal.

Na prática, um endereço localizado em uma área que costuma ser atingida quando o rio alcança determinada cota pode demandar atenção antes de outro situado em uma região mais elevada, o que é relevante para a compreensão dos riscos, uma vez que a relação entre o nível do rio e os possíveis impactos sobre o território não é uniforme. Ao utilizar o endereço cadastrado como referência, o SMART procura estabelecer um acompanhamento mais próximo da realidade de cada usuário. 

O mecanismo também aproxima os dados hidrológicos de uma dimensão cotidiana: a residência, o local de trabalho ou outro endereço de interesse do usuário. Em vez de consultar apenas o nível geral do rio, a pessoa pode relacionar a informação à área em que vive e compreender melhor como os indicadores monitorados se conectam às condições do município.

Desenvolvimento a partir da realidade de Muçum

A participação da Defesa Civil municipal constitui um dos elementos que diferenciam o desenvolvimento do SMART. O projeto foi concebido apenas como uma aplicação tecnológica genérica e incorpora funcionalidades relacionadas às informações do Plano de Contingência de Muçum. A colaboração entre Rafael Miotti, o professor Alexandre Stürmer Wolf e o coordenador municipal Wagner Deconto permite que a solução seja analisada considerando tanto os aspectos de desenvolvimento de software quanto as necessidades de monitoramento enfrentadas pelo município.

A experiência de Muçum oferece um contexto de concretude para a discussão sobre o acesso a informações hidrológicas. O município faz parte da região do Vale do Taquari, onde as inundações assinalaram a necessidade de ampliar a compreensão sobre o comportamento dos rios, os diferentes níveis de exposição das áreas urbanas e a importância de informações acessíveis para a população.

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Mapa de pluviômetros

Ferramenta complementar aos sistemas oficiais

Embora o SMART tenha sido desenvolvido para facilitar o acesso e a interpretação de informações relacionadas aos rios, a plataforma não substitui os sistemas oficiais de monitoramento e alerta. O projeto funciona como uma ferramenta complementar, destinada a reunir dados e apoiar a compreensão das condições hidrológicas.

Em situações de risco ou emergência, os moradores devem seguir prioritariamente os comunicados, alertas, orientações e determinações divulgados pela Defesa Civil e pelos demais órgãos oficiais responsáveis. A consulta à plataforma não deve ser utilizada como único critério para decisões relacionadas à segurança, deslocamento ou permanência em áreas sujeitas a inundações.

A distinção entre monitoramento e alerta é relevante. O monitoramento envolve o acompanhamento de dados e indicadores que ajudam a compreender o comportamento dos rios. Já os alertas oficiais integram procedimentos institucionais de avaliação de risco, comunicação e orientação à população, considerando as atribuições dos órgãos responsáveis.

Nesse sentido, o SMART procura ampliar o acesso às informações sem substituir as estruturas oficiais de gestão de riscos. A plataforma pode contribuir para que os usuários acompanhem os dados disponíveis e compreendam melhor as condições da bacia, mas as orientações emitidas pelos órgãos competentes permanecem como referência principal em situações de emergência.

 

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