
Do Instagram e do TikTok à sala de aula: bolsistas do Pibid usam linguagem das redes sociais para ensinar História, Linguagens e Ciências Biológicas
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 07/10/2026, 13:15:00
Uma intervenção pedagógica interdisciplinar realizada por bolsistas do Programa Institucional de Bolsas de Iniciação à Docência (Pibid) da Universidade do Vale do Taquari - Univates levou estudantes do 3º ano do Ensino Médio a repensar os impactos da Ditadura Militar brasileira (1964-1985) na Amazônia e em seus povos originários, usando como ferramenta pedagógica algo bem familiar aos adolescentes: a linguagem da “fofoca” em vídeos curtos, no estilo TikTok e Instagram.
A atividade, desenvolvida na Escola Estadual de Educação Básica Érico Veríssimo, em Lajeado/RS, reuniu conhecimentos de História, Biologia e Língua Portuguesa e teve como resultado a produção de material audiovisual em que os próprios alunos narraram, de forma crítica, episódios ligados ao desmatamento, ao garimpo ilegal e à violência contra comunidades indígenas no período ditatorial.
O trabalho é assinado por Eduarda Hilgemann Belleboni (Ciências Biológicas), Raíssa Juchem (Letras) e Rian Eduardo Diedrich (mestrando em Ambiente e Desenvolvimento), integrantes do Subprojeto Interdisciplinar do Pibid/Univates, sob supervisão da doutora Karen Daniela Pires e coordenação do professor Sérgio Nunes Lopes, coordenador de área do Pibid e doutor em Ciência: Ambiente e Desenvolvimento pelo PPGAD/Univates.
A pesquisa foi apresentada no V Encontro das Licenciaturas da Região Sul (ENLIC Sul), evento que também reúne o Seminário Institucional do Pibid e o Seminário da Associação Nacional pela Formação de Professores, e contou com apoio da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Um passado que ainda pesa sobre a floresta
Durante a Ditadura Militar, a Amazônia foi tratada como fronteira estratégica para o desenvolvimento econômico do país. Projetos de ocupação territorial, expansão agropecuária, mineração e grandes obras de infraestrutura, como a Rodovia Transamazônica, iniciada em 1970, transformaram profundamente o território, resultando em desmatamento, fragmentação de habitats e perda de biodiversidade. A lógica que orientava essas políticas ficou resumida no lema oficial da época, “integrar para não entregar”, que impulsionou a ocupação acelerada da região.
Os povos indígenas estiveram entre os grupos mais afetados por esse processo. Segundo a pesquisa, eles sofreram deslocamentos forçados e formas de violência física, religiosa e cultural, com perdas diretas de território que atingiram também seu sentimento de pertencimento. Um exemplo citado no trabalho é o Reformatório Krenak, criado em 1969 em Minas Gerais, que funcionava como espaço de confinamento para indígenas considerados “desviantes” pelos órgãos indigenistas da época, primeiro pelo Serviço de Proteção ao Índio (SPI) e, depois, pela Fundação Nacional do Índio (Funai). De acordo com o relatório da Comissão Nacional da Verdade, o local operava sob métodos disciplinares e punitivos, marcados por detenções arbitrárias, trabalho forçado e diferentes formas de violência.
Para os autores, esse conjunto de evidências mostra que as políticas desenvolvimentistas do regime envolveram também estratégias de controle, repressão e tentativas de assimilação cultural dos povos indígenas, unindo autoritarismo estatal e violação de direitos.
Como a pesquisa foi conduzida
O estudo tem caráter qualitativo, descritivo e interpretativo, e buscou compreender os efeitos de uma intervenção pedagógica realizada em sala de aula. A proposta nasceu dentro do Subprojeto Interdisciplinar do Pibid/Univates, que reúne estudantes de licenciatura em Ciências Biológicas, História e Letras, e foi desenvolvido com uma turma do 3º ano do Ensino Médio.
O trabalho seguiu três etapas. Primeiro, os bolsistas prepararam um material didático com slides e vídeos, apresentando a Ditadura Militar “sob uma perspectiva nem sempre relatada”, com foco nos impactos ambientais na Amazônia e nas consequências sociais para os povos indígenas, articulando aspectos históricos, ecológicos e discursivos. Em seguida, essas aulas foram conduzidas de forma expositiva-dialogada, incentivando perguntas e discussões com a turma.
A etapa final foi a atividade avaliativa: os estudantes deveriam produzir vídeos verticais curtos, inspirados em redes sociais, relatando um acontecimento ligado ao conteúdo estudado, mas usando a linguagem da “fofoca” como estratégia narrativa. Os temas propostos pelos próprios bolsistas incluíam “Os Estados Unidos e a influência no Brasil”, “Transamazônica e os impactos na região”, “Garimpo ilegal”, “Impacto nas comunidades indígenas” e “Destruição ambiental”. A produção seguiu um roteiro escrito, com pesquisa e captação de imagens feitas em chromebooks disponibilizados pela escola, seguidas de edição e montagem do conteúdo audiovisual.
A análise dos resultados baseou-se na observação da participação dos estudantes, na qualidade das produções finais e no envolvimento demonstrado ao longo de todo o processo.

Interdisciplinaridade como estratégia de aprendizagem
O referencial teórico do trabalho dialoga com autores como Bertha Becker, que discute a ocupação da Amazônia a partir de interesses estratégicos do Estado, e Philip Fearnside, referência em estudos sobre desmatamento na região. A pesquisa também se apoia na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), que assinala a importância de práticas pedagógicas capazes de integrar diferentes áreas do conhecimento e conectar conteúdos escolares a problemáticas sociais contemporâneas.
Cada disciplina teve um papel específico na proposta: a História forneceu o contexto político e social da Ditadura Militar; a Biologia analisou os impactos ambientais decorrentes das políticas do período, como desmatamento e alterações nos ecossistemas; e a Língua Portuguesa trabalhou a construção da linguagem e da narrativa, com foco na interpretação crítica de discursos e na produção dos vídeos. O estudo também se apoia nas ideias de Paulo Freire, para quem ensinar é criar possibilidades para a produção de conhecimento, reconhecendo o estudante como sujeito ativo no processo educativo.
Resultados: engajamento e pensamento crítico
Segundo os pesquisadores, a intervenção gerou resultados positivos de participação já nas etapas expositivas, com interesse constante dos estudantes pelos temas apresentados. A produção dos vídeos, porém, foi apontada como a estratégia mais eficaz: ao recorrer à linguagem da “fofoca”, os estudantes reinterpretaram os conteúdos de forma mais acessível e conectada à própria realidade, ao mesmo tempo que evidenciaram capacidade de articular desmatamento, exploração econômica e violência contra povos indígenas em uma mesma narrativa crítica.
Para os autores, os resultados estabelecem que metodologias ativas, que colocam o estudante, pedagogicamente orientado, como protagonista da própria aprendizagem, tendem a gerar aprendizagens mais duradouras, e que o uso de linguagens digitais familiares aos jovens aproxima o conteúdo escolar de sua realidade, tornando o processo educativo mais significativo.
As conclusões do trabalho destacam que os impactos históricos analisados continuam a influenciar o presente, especialmente nas discussões contemporâneas sobre preservação ambiental e direitos dos povos indígenas. Os pesquisadores defendem a ampliação de práticas pedagógicas interdisciplinares como caminho para formar cidadãos mais críticos e conscientes diante de temas socioambientais complexos, unindo rigor histórico, compreensão científica e criatividade na comunicação.

