Vale do Taquari, Adaptação climática

Formação no Vale do Taquari busca integrar municípios e qualificar a gestão de riscos climáticos

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 14/10/2026, 15:00:15

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A preparação para enfrentar desastres climáticos depende de planejamento, articulação entre instituições, participação comunitária e atualização permanente dos protocolos de resposta. Essa perspectiva orientou o curso de formação “Gestão de Riscos Climáticos: Plano Integrado de Contingência entre Atores Comunitários e Institucionais do Vale do Taquari”, concluído em 8 de outubro, em atividade realizada na Universidade do Vale do Taquari - Univates. O encontro reuniu representantes de municípios da região para apresentar os resultados da capacitação, compartilhar aprendizados e estabelecer os próximos encaminhamentos para o aprimoramento dos Planos de Contingência Municipais.

A formação começou em abril de 2026 e foi organizada por meio de uma parceria entre o Instituto MBRF, a Univates, a 8ª Coordenadoria Regional de Proteção e Defesa Civil (8ª CREPDEC) e o Ministério Público do Rio Grande do Sul (MP/RS). O projeto teve como objetivo capacitar atores institucionais e comunitários do Vale do Taquari para a atuação em desastres climáticos, com foco na qualificação dos Planos de Contingência Municipais, a partir da metodologia PLANCON (Plano de Contingência de Proteção e Defesa Civil), e na orientação para a organização dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil (NUPDECs), conforme a legislação vigente.

Ao longo das atividades, o curso promoveu discussões sobre os cenários de risco de cada município, os procedimentos de planejamento e resposta a emergências, a organização comunitária e a estruturação de serviços essenciais em situações de desastre. A proposta também buscou aproximar as diferentes realidades municipais, criando condições para a troca de experiências e a construção de uma atuação regional mais articulada diante de eventos climáticos extremos.

O planejamento inicial previa o envolvimento dos 36 municípios do Vale do Taquari, com encontros presenciais na Univates e atividades externas junto às comunidades. Conforme o balanço apresentado no encerramento, 43 municípios realizaram inscrições após o evento inaugural e 35 estiveram presentes nos encontros da formação. Inicialmente o projeto, abrangeria 7 municípios foco da região do Vale do Taquari (Lajeado, Estrela, Arroio do Meio, Encantado, Cruzeiro do Sul, Muçum e Roca Sales), mas atendendo a demanda da Coordenadoria Regional e também o desejo de outros municípios, o projeto disponibilizou inscrições para todos os municípios que abrangem a 8ª CREPDEC. Para contabilizar a inscrição efetiva do município, foi considerada pelo menos uma presença nos encontros. 

Natalia Nissen

A participação de gestores e profissionais municipais ligados à Defesa Civil, representantes de entidades, lideranças comunitárias, profissionais da educação e integrantes da sociedade civil permitiu abordar a gestão de riscos a partir de diferentes perspectivas.

A cerimônia de encerramento, realizada em 8 de outubro na Univates, marcou a conclusão do ciclo de encontros presenciais e a apresentação dos resultados acumulados desde abril. Durante a atividade, também foi apresentado um manifesto com os principais aprendizados e desafios identificados pelos participantes. A etapa final, entretanto, não encerra o trabalho de planejamento, pois os representantes das coordenadorias e administrações municipais têm até 25 de novembro de 2026 para entregar um plano de ação voltado à revisão dos documentos, após a análise dos respectivos Planos de Contingência Municipais.

O prazo representa uma continuidade prática da formação, pois prevê que os conhecimentos discutidos durante o curso sejam incorporados a procedimentos e documentos utilizados pelos municípios. Os planos de ação serão entregues à equipe do projeto como produto final da participação e estes materiais serão repassados para a 8ª CREPDEC para que seja de conhecimento da Coordenadoria o trabalho realizado pelas equipes.

Natalia Nissen

Etapas combinaram conhecimento técnico e participação comunitária

O percurso formativo foi estruturado em cinco etapas temáticas, além do evento inaugural. A organização permitiu avançar no reconhecimento dos cenários de risco para a análise dos instrumentos de planejamento municipal e, posteriormente, para a discussão de medidas relacionadas à organização comunitária e ao atendimento da população em situações de emergência.

A abertura ocorreu em 29 de abril, com um encontro destinado a apresentar o escopo do projeto, seus objetivos e o cronograma preliminar, além de mobilizar os municípios para a participação efetiva nas atividades. O momento inicial também estabeleceu as bases para o intercâmbio entre os representantes municipais, considerando as diferentes condições territoriais e experiências acumuladas na gestão de emergências.

Em 28 de maio, a primeira etapa, intitulada “Conhecendo os cenários de risco”, concentrou-se no reconhecimento das ameaças e das vulnerabilidades locais. As atividades incluíram aulas com as professoras Sofia Royer e Izabele Colusso, que abordaram o contexto histórico e atual dos riscos, e um workshop de mapeamento dos cenários identificados em cada cidade. A análise desses elementos constitui uma etapa inicial do planejamento, uma vez que a definição de medidas preventivas e de resposta depende do conhecimento das características de cada território.

A segunda etapa ocorreu em 18 de junho e teve como tema os Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil. Com aula ministrada pela professora Gisele Dhein e workshop relacionado às atividades do Previne Taquari-Antas, projeto desenvolvido pela Universidade Federal do Rio Grande do Sul, o encontro abordou a organização de estruturas comunitárias voltadas à prevenção e à preparação para desastres.

Os NUPDECs têm como finalidade aproximar a população das ações de proteção e defesa civil, favorecendo a circulação de informações, a identificação de necessidades locais e a mobilização de moradores diante de situações de risco.

Em 2 de julho, a terceira etapa tratou do reconhecimento e da análise dos Planos de Contingência Municipais. O workshop contou com a participação da tenente-coronel Ana Maria, da Defesa Civil Estadual, e do doutor Marcos Leandro Kazmierczak, que apresentaram parâmetros de avaliação dos documentos.

Os planos de contingência sistematizam procedimentos para a atuação diante de situações de emergência, contribuindo para definir responsabilidades, organizar recursos e orientar a mobilização dos serviços envolvidos. Sua elaboração e atualização precisam considerar os riscos identificados, a capacidade operacional dos municípios e os mecanismos de coordenação entre as instituições responsáveis.

No contexto do Vale do Taquari, a análise desses documentos também permite discutir a compatibilidade entre os procedimentos municipais e a necessidade de articulação regional. Embora cada município tenha características próprias, eventos climáticos podem produzir impactos que ultrapassam limites administrativos, exigindo comunicação entre órgãos públicos, compartilhamento de informações e coordenação das ações.

A quarta etapa, desenvolvida entre julho e agosto, levou as atividades para as comunidades. Foram realizadas oficinas, reuniões, assembleias públicas, simulados e outras ações destinadas a apresentar os Planos de Contingência Municipais à população. A equipe do projeto acompanhou a oficina realizada em Lajeado na área conhecida popularmente como “Bairro Praia”, no dia 15 de julho de 2026, em que estiveram presentes 64 participantes, sendo representantes da Prefeitura, moradores do bairro e agentes de equipes envolvidas. 

A quinta etapa ocorreu em 20 de agosto, com o tema “Planejamento e organização de abrigos, saúde e assistência social em desastres”. O encontro incluiu um momento de retorno sobre as oficinas realizadas nas comunidades e de troca de experiências, além de atividades conduzidas pela professora Gisele Dhein e pela assistente social Elisângela Beatris Becker.

A discussão ampliou o enfoque da formação para as necessidades de atendimento à população durante situações de emergência. A organização de abrigos, a continuidade dos serviços de saúde e a assistência social constituem dimensões que precisam ser consideradas previamente, sobretudo quando um desastre provoca deslocamentos de moradores, perdas materiais ou interrupções no funcionamento de serviços públicos.

Natalia Nissen

Participação e assiduidade: indicadores da formação

[Com informações da Prefeitura de Lajeado]

Em relação às pessoas inscritas, o projeto registrou 94 participantes após o evento inaugural. A frequência variou entre os encontros presenciais: a primeira etapa teve 72 presenças; a segunda, 58; a terceira, 64; e a quinta, 38. A quarta etapa correspondeu às atividades realizadas nas comunidades.

A experiência de Lajeado ilustra a participação municipal ao longo do curso. Conforme as informações da Defesa Civil do município, a equipe acompanhou todas as etapas e concluiu a formação com o máximo de assiduidade. Para o coordenador da Defesa Civil de Lajeado, Luis Marcelo Gonçalves Maya, a capacitação contribuiu tanto para o aprimoramento dos instrumentos locais de planejamento quanto para o intercâmbio entre as coordenadorias municipais.

“O curso, além de ter proporcionado informações importantes para a melhoria do nosso Plano de Contingência, para a organização dos Núcleos Comunitários de Proteção e Defesa Civil e para outras pautas ligadas à gestão de riscos climáticos, oportunizou nivelamento e troca de informações entre as várias coordenadorias municipais de Proteção e Defesa Civil da nossa região. Foi mais um importante passo no sentido de tornar nossa região melhor preparada e nossa comunidade mais resiliente e organizada no enfrentamento às emergências climáticas”, afirma o coordenador.

A avaliação converge com um dos objetivos estruturantes da iniciativa: criar condições para que os municípios compartilhem conhecimentos e reconheçam desafios comuns, sem desconsiderar as particularidades de cada território. A troca de experiências permite comparar procedimentos, identificar dificuldades e discutir alternativas para melhorar a preparação institucional.

Desafios identificados pelos participantes

Os registros de avaliação apresentados no encerramento apontaram a comunicação entre municípios, o engajamento comunitário e a articulação entre os diferentes setores como desafios para a gestão de riscos climáticos no Vale do Taquari. Também apareceram manifestações sobre a necessidade de aproximar as informações científicas da população e fortalecer a confiança nas informações divulgadas pelos órgãos competentes.

As percepções indicam que a gestão de riscos envolve também a capacidade de comunicar ameaças, orientar comportamentos e construir relações de confiança entre instituições e comunidades. Em situações de emergência, a informação precisa circular de maneira compreensível e coordenada, de modo que a população saiba quais orientações seguir e onde buscar informações confiáveis.

Outro aspecto presente nas avaliações foi a necessidade de fortalecer o reconhecimento institucional da Defesa Civil. Um dos relatos reunidos no material do projeto defende que o órgão não seja percebido como um setor acionado apenas quando o desastre acontece, mas como parte permanente da estrutura de prevenção e preparação. Os participantes também mencionaram contribuições relacionadas à compreensão dos Planos de Contingência, à avaliação realizada pelo Estado, ao reconhecimento das necessidades específicas de cada município e à troca de experiências entre equipes. Nos depoimentos, aparece a percepção de que a atuação integrada é necessária mesmo quando as cidades apresentam dimensões, estruturas administrativas e capacidades operacionais diferentes. 

Próximos passos após o encerramento

Com a conclusão dos encontros em 8 de outubro, o projeto entra em uma etapa voltada à transformação dos conhecimentos acumulados em encaminhamentos para os municípios. O prazo estabelecido para a entrega dos planos de ação é 25 de novembro de 2026. Após a análise dos Planos de Contingência Municipais, os representantes das coordenadorias e administrações deverão apresentar propostas de revisão dos documentos, utilizando o modelo disponibilizado pela organização.

Essa etapa constitui um dos principais resultados operacionais esperados da formação, pois vincula a capacitação à revisão dos instrumentos de planejamento utilizados pelos municípios. A elaboração dos planos de ação poderá sistematizar as necessidades identificadas, definir prioridades e orientar a atualização dos documentos, conforme os procedimentos estabelecidos pelos responsáveis pelo projeto.

A continuidade do trabalho dependerá da aplicação dos conhecimentos em cada município e da manutenção dos canais de comunicação entre os participantes. A formação estabeleceu um espaço de aproximação entre instituições, profissionais e comunidades, mas o aprimoramento da gestão de riscos requer atualização dos documentos, exercícios de preparação e avaliação periódica dos procedimentos adotados.

Natalia Nissen

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