PPGAD, História

Formigas, vinhas e impérios: o que as pragas nas missões jesuíticas revelam sobre a colonização da América do Sul

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 16/10/2026, 10:45:00

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Um artigo científico publicado na revista Missões – Revista de Ciências Humanas e Sociais reconstrói, a partir de cartas ânuas e relatos de padres jesuítas dos séculos XVII e XVIII, como a implantação das reduções da Companhia de Jesus na bacia do Rio Uruguai provocou desequilíbrios ambientais sentidos já no período colonial. O estudo se soma a um conjunto ainda pequeno de pesquisas brasileiras dedicadas à história ambiental do período colonial no extremo sul da América do Sul, área em que a historiografia tradicionalmente priorizou aspectos políticos, religiosos e econômicos das reduções jesuíticas, deixando em segundo plano o papel de plantas, animais e ecossistemas na configuração desse capítulo da história americana.

Assinado por Tuani de Cristo e Luís Fernando da Silva Laroque, ambos vinculados à Universidade do Vale do Taquari - Univates, o trabalho tem como fio condutor um inimigo inesperado dos colonizadores. São as formigas, que devoraram vinhedos, esvaziaram roças e chegaram a ameaçar a estrutura física de igrejas e casas construídas pelos jesuítas nos territórios que hoje correspondem a partes do Brasil, da Argentina e do Uruguai.

O artigo, intitulado “Colonização, catequização e transformações ambientais (séculos XVII e XVIII): o impacto das missões jesuítas em territórios da Mata Atlântica e do Pampa”, foi publicado em maio de 2026, na edição de número 12 da revista Missões. 

O que a pesquisa descobriu

O objetivo do artigo é analisar os impactos ambientais causados pela formação das missões jesuíticas em territórios dos biomas Mata Atlântica e Pampa, na área que ficou conhecida como Província Jesuítica do Paraguai. Os autores explicam que a investigação se debruça, principalmente, sobre a ação de formigas nas plantações realizadas pelas missões, um problema que aparece de forma recorrente nos escritos deixados pelos próprios padres.

A pesquisa recorre à abordagem da História Ambiental, campo que trata plantas, animais, climas e outros elementos não humanos como agentes históricos. Sob essa ótica, os pesquisadores sustentam que as reduções jesuíticas, com suas igrejas, casas, plantações, poços e criações de gado, não foram construções isoladas do ambiente, antes resultado de relações constantes entre padres, indígenas guaranis, florestas, campos e espécies animais e vegetais, algumas nativas e outras trazidas da Europa.

Os resultados mostram que duas missões em particular, Yapeyú e San Miguel, enfrentaram problemas sérios com o avanço de formigas sobre suas lavouras. Em Yapeyú, localizada no bioma Pampa, na margem direita do Rio Uruguai (atual Argentina), o padre Antônio Sepp registrou que a produção de uvas da missão foi drasticamente reduzida por causa dos ataques constantes de formigas, apesar dos esforços diários dos indígenas para combatê-las. Já em San Miguel, erguida em 1687 na margem esquerda do Rio Uruguai (atual Rio Grande do Sul), o avanço das formigas somou-se ao esgotamento do solo e ao crescimento populacional, tornando-se um dos motivos que levaram à divisão da povoação e à criação de uma nova missão, San Juan Baptista.

Como o estudo foi feito

Metodologicamente, o artigo se caracteriza como uma pesquisa qualitativa baseada em análise documental. A principal fonte utilizada foram as chamadas cartas ânuas, relatórios anuais que os jesuítas enviavam às autoridades da Companhia de Jesus, descrevendo o cotidiano das missões, incluindo dificuldades econômicas, agrícolas e climáticas, além de outros escritos produzidos por padres que atuaram na região, como Antônio Sepp e Martin Dobrizhoffer.

A partir desses relatos históricos, os autores cruzaram as descrições feitas pelos próprios missionários com bibliografia científica contemporânea sobre o comportamento de formigas cortadeiras, dos gêneros Atta e Acromyrmex, conhecidas popularmente como saúvas, para interpretar por que esses insetos se tornaram um problema tão recorrente nas roças das reduções. 

O recorte espacial da pesquisa se concentra nas missões jesuíticas erguidas nas margens direita e esquerda do Rio Uruguai, território que hoje abrange partes da Argentina, do Brasil e do Uruguai, dentro da Bacia Hidrográfica do Rio da Prata. O recorte temporal abrange os séculos XVII e XVIII, período de expansão e consolidação das reduções jesuíticas na chamada Província Jesuítica do Paraguai.

Artur Bocchi - iNaturalist - CC BY-NC 4.0

Formiga da espécie Atta sexdens

As formigas como “inimigas” dos colonizadores

Um dos pontos centrais do artigo é mostrar, com base em documentos originais, o quanto as formigas incomodaram o cotidiano missioneiro. Em um trecho citado pelos autores, o padre Antônio Sepp descreve a destruição sofrida na vinha de Yapeyú:

“A vinha é tão grande, que bem daria uns 50 baldes, mas êste ano não deu tanta uva que desse para duas sobremesas. A causa são os muitos inimigos, por exemplo as formigas.”

Segundo o relato, oito jovens indígenas percorriam a plantação duas vezes por dia para localizar e queimar formigueiros, sem sucesso: as formigas devoravam as uvas antes que pudessem ser colhidas. O problema, somado à ação de vespas e pássaros, tornava o vinho produzido na missão caro e de baixa qualidade.

Já o padre Martin Dobrizhoffer chegou a descrever formigas capazes de escavar túneis tão extensos sob templos e casas que ameaçavam a estabilidade das construções, sobretudo em período de chuvas, quando a água penetrava pelas galerias abertas pelos insetos e comprometia pilares e vigas.

Em San Miguel, o problema teve consequências ainda mais drásticas. De acordo com o relato de Sepp, os líderes indígenas foram reunidos pelos padres para justificar a necessidade de dividir a povoação, entre outros motivos, porque parte dos campos ao redor da missão “estava tomada pelas formigas que devastavam tudo”, tornando o solo impróprio para novos plantios.

Nem praga, nem vilã: uma leitura ambiental

Um dos aspectos mais originais do artigo é a forma como os autores reinterpretam o papel das formigas na história das missões. Em vez de tratá-los como “pragas” no sentido moderno do termo, visão associada a um discurso eurocêntrico que os pesquisadores questionam diretamente, o estudo argumenta que os insetos apenas reagiram às transformações que os próprios jesuítas e colonizadores impuseram ao ambiente.

Segundo os autores, a derrubada de matas, o uso constante do fogo na abertura de roças, o esgotamento dos nutrientes do solo e o cultivo intensivo de espécies exóticas, como a videira europeia, criaram condições favoráveis para a expansão das colônias de formigas cortadeiras, insetos que, segundo a bibliografia biológica citada no artigo, tendem a se instalar justamente em áreas de vegetação alterada, solos empobrecidos e bordas de floresta. Nas palavras do próprio artigo, esse cenário se tornou, “literalmente, um prato cheio” para os insetos.

A leitura é sustentada por um dado histórico. A missão de San Miguel foi fundada em 1687 e, apenas onze anos depois, em 1698, já apresentava sinais de esgotamento do solo, um intervalo de tempo considerado curto pelos próprios pesquisadores, já que os povos indígenas ocupavam aquela região havia milênios sem gerar o mesmo desgaste. A diferença, segundo o artigo, está no modelo econômico das reduções, que exigia produção intensiva e contínua para sustentar milhares de habitantes, pagar tributos à Coroa Espanhola e gerar excedentes para comércio e reservas.

O artigo compara o modelo com as práticas indígenas anteriores à colonização, descritas como mais diversificadas e menos predatórias: os Guarani combinavam cultivo, caça, pesca e coleta, deixavam parte da produção nas próprias roças, alimento que terminava sendo consumido por pássaros, roedores e insetos, e recorriam ao pousio das terras, deixando o solo descansar, estratégia que se tornou inviável com o crescimento populacional e a fixação territorial impostos pelas missões.

Disputas de poder em torno da natureza

O artigo também mostra que os problemas ambientais nas missões não ficaram restritos à esfera econômica. Segundo os autores, apoiados em pesquisa anterior sobre crenças e práticas missionais, episódios de seca, falta de alimentos ou ataques de animais geravam cobranças dos indígenas guaranis em relação aos padres, uma dinâmica que, antes da colonização, era dirigida às lideranças xamânicas. Diante das adversidades, os jesuítas recorriam a procissões, missas e penitências como forma de demonstrar controle simbólico sobre a situação, enquanto lideranças xamânicas tradicionais buscavam reafirmar sua própria autoridade cosmológica. O artigo interpreta essas disputas como parte de um jogo de poder mais amplo, no qual a natureza, e suas adversidades, se tornou também um campo de disputa religiosa e política entre jesuítas e Guarani.

Por que essa pesquisa importa hoje

Ao final do artigo, os autores conectam explicitamente a discussão histórica ao debate ambiental contemporâneo, mencionando a agenda climática internacional como pano de fundo para justificar a relevância do tema. O argumento é que, embora guardadas as devidas proporções, episódios como os registrados nas missões jesuíticas ajudam a compreender como modelos econômicos baseados em exploração intensiva de recursos tendem a gerar impactos ambientais mais severos do que sistemas produtivos mais diversificados, uma reflexão que os pesquisadores relacionam a desafios ainda hoje enfrentados por povos indígenas e comunidades tradicionais em regiões submetidas a explorações econômicas de grande escala, como extração de madeira e minérios.

Referência 

DE CRISTO, Tuani; LAROQUE, Luís Fernando da Silva. Colonização, catequização e transformações ambientais (séculos XVII e XVIII): o impacto das missões jesuítas em territórios da Mata Atlântica e do Pampa. Missões: Revista de Ciências Humanas e Sociais, v. 12, n. 2, p. 01-21, 2026. DOI: https://doi.org/10.62236/missoes.v12i2.557. 

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