
Isa Carla Osterkamp: da formação científica na Univates ao cargo de secretária de Estado do Meio Ambiente e Infraestrutura do RS
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 09/10/2026, 08:30:00
A trajetória de Isa Carla Osterkamp, anunciada em agosto de 2026 como nova secretária de Estado do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul, mantém uma relação estreita com a Universidade do Vale do Taquari - Univates. Foi na Instituição que a bióloga construiu parte de sua formação acadêmica e científica, passando pela graduação, pelo mestrado e pelo doutorado, além de atuar em laboratórios, projetos de pesquisa e atividades relacionadas às Ciências Biológicas e ao meio ambiente.
Natural de Lajeado, Isa iniciou sua trajetória acadêmica na Univates em 2001, quando ingressou no curso de Ciências Biológicas – Licenciatura. Durante a graduação, aproximou-se da pesquisa científica e desenvolveu estudos relacionados à Botânica e à Palinologia, área que investiga os grãos de pólen e outros elementos microscópicos associados às plantas. Em 2006, concluiu o curso com um trabalho dedicado ao espectro polínico de amostras de méis provenientes do Rio Grande do Sul, sob orientação do professor André Jasper, pesquisador que posteriormente também orientaria suas pesquisas de mestrado e doutorado.
A relação com a Univates, contudo, não se encerrou com a graduação. No mesmo período em que consolidava sua formação como bióloga, Isa passou a integrar profissionalmente a da Instituição. Entre 2006 e 2010, atuou como laboratorista no Unianálises, envolvendo-se com atividades nos laboratórios de Microbiologia e de Microscopia de Alimentos. Nesse período, também exerceu funções relacionadas à gestão da qualidade e à responsabilidade técnica, além de participar de treinamentos em Boas Práticas de Fabricação no âmbito do Programa de Qualidade e Segurança dos Alimentos.
O mestrado
A experiência profissional nos laboratórios se articulava à formação científica que Isa vinha desenvolvendo. Em 2007, ela ingressou no Mestrado em Ambiente e Desenvolvimento da Univates, concluído em 2009. A dissertação, orientada por André Jasper, analisou características polínicas e físico-químicas de amostras de méis produzidos por duas espécies de abelhas na região do Vale do Taquari. O trabalho combinou conhecimentos de Ciências Biológicas, Botânica, Palinologia e Química. A dissertação integra o acervo da Biblioteca Digital da Univates.
Durante esse período, Isa também esteve envolvida em projetos de pesquisa desenvolvidos na Universidade. Em um projeto financiado pela própria Univates, por exemplo, aparece como pesquisadora em estudo que avaliava parâmetros físico-químicos, microbiológicos, polínicos e antimicrobianos de amostras de mel comercializado em feiras do Vale do Taquari. As análises eram realizadas nos laboratórios do Unianálises, aproximando a pesquisa acadêmica de uma questão concreta relacionada à qualidade de alimentos e às características da produção regional.
O doutorado
A formação científica avançou para o doutorado. Entre 2013 e 2017, Isa cursou o Doutorado em Ambiente e Desenvolvimento na Univates, novamente sob orientação de André Jasper, com coorientação do professor sueco Dieter Uhl. A tese, vinculada à linha de pesquisa em Ecologia, investigou inferências ambientais e taxonômicas a partir de lenhos carbonizados, concentrando-se em alterações produzidas pela carbonização artificial de espécies da família Araucariaceae. O trabalho combinava anatomia vegetal, paleobotânica, antracologia e interpretação paleoambiental.
Parte desse percurso ocorreu também em âmbito internacional. Durante o doutorado, Isa realizou estágio doutoral no Senckenberg Research Institute, na Alemanha, sob orientação de Dieter Uhl. A experiência ampliou o repertório metodológico da pesquisadora e estabeleceu uma conexão entre a investigação desenvolvida na Univates e instituições científicas estrangeiras. Seu doutorado contou ainda com bolsa Capes,enquanto sua trajetória de pós-graduação registra participação em iniciativas de apoio à pesquisa.
Atuação no Ensino Básico
Ela lecionou Biologia na rede privada, como no Colégio Evangélico Alberto Torres (CEAT) e no Colégio Cenecista João Batista de Mello, além de ter atuado como docente na rede pública de Ensino Fundamental de Lajeado, em diferentes escolas.

O trabalho no Governo do Estado
O percurso construído na Univates antecedeu sua entrada na gestão ambiental pública. Posteriormente, Isa passou a atuar na Fundação Estadual de Proteção Ambiental Henrique Luiz Roessler (Fepam), onde assumiu funções técnicas e de assessoria. Em 2021, ela e Marjorie Kauffmann, então presidente da Fepam, participaram da comitiva gaúcha na Conferência das Nações Unidas sobre Mudança Climática, a COP26, realizada em Glasgow, na Escócia.
A relação profissional entre Isa e Marjorie se estendeu pelos anos seguintes. Isa acompanhou a gestão ambiental estadual durante o período em que Marjorie esteve à frente da Fepam e, posteriormente, da Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura.
Em agosto de 2026, o percurso levou à nomeação de Isa para comandar a Secretaria do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul. A nova secretária reúne, portanto, uma formação acadêmica construída ao longo de 16 anos na Univates, da graduação ao doutorado, com experiência profissional em laboratório, pesquisa, educação ambiental, gestão pública e políticas ambientais. Ela também tem MBA em ESG e Inovação e especialização em Energias Renováveis, ampliando sua formação para campos diretamente relacionados aos desafios contemporâneos da gestão ambiental.
A Univates e o Vale do Taquari na trajetória de Isa
Segundo a gestora pública, a trajetória na Univates foi fundamental para formar a profissional que ela é, e também a forma como encara os desafios. “Foram 16 anos entre graduação, mestrado, doutorado e também a experiência como laboratorista no Unianálises. A pesquisa me ensinou, acima de tudo, disciplina, responsabilidade e comprometimento. Ensinou a ter autonomia, a ir atrás do que eu preciso e a não esperar que alguém me entregue a resposta pronta. Aprendi a pesquisar, procurar artigos e referências, interpretar dados, comparar informações e, principalmente, traduzir conhecimento técnico para conseguir aplicá-lo na prática”, explica. “E acho que isso tem uma relação muito forte com a gestão pública. Como secretária de Estado, todos os dias chegam assuntos diferentes e complexos. Eu não preciso saber tudo, mas preciso saber onde buscar a informação, quem ouvir, quais perguntas fazer e como interpretar aquilo que está sendo apresentado para tomar uma decisão. A vida acadêmica me ensinou justamente isto: ter curiosidade, autonomia e capacidade de buscar soluções. É uma formação que carrego comigo todos os dias na gestão”.
Em relação à orientação de seus trabalhos de conclusão (de graduação, mestrado e doutorado), que foi realizada pelo professor André Jasper, Isa detalha que o docente teve um peso importante em sua formação como pesquisadora. “Ele me acompanhou desde a graduação até o doutorado, então foram muitos anos de orientação, aprendizado e construção conjunta. A bagagem científica dele, a experiência acumulada e a reputação que construiu como pesquisador foram fundamentais para que eu entendesse o que significa fazer ciência com seriedade e rigor. Aprendi muito observando a forma como ele conduzia as pesquisas, questionava resultados, buscava referências e estimulava a gente a sempre aprofundar o conhecimento. Ao mesmo tempo, ele sempre incentivou muito a autonomia. Não era simplesmente receber uma resposta pronta, mas aprender a procurar, questionar, interpretar e construir o próprio caminho como pesquisadora”, informa ela.
A gestora pública também reflete sobre suas origens, atreladas ao Vale do Taquari. “Faz muita diferença na forma como eu enxergo esse trabalho [na Secretaria]. É a região onde nasci, onde construí boa parte da minha trajetória acadêmica e profissional e que eu conheço não apenas tecnicamente, mas pela vivência. Depois de tudo o que o Vale enfrentou com os eventos climáticos extremos, esse conhecimento ganha ainda mais importância. Conhecer o território, os rios, as cidades, as atividades econômicas e a realidade das comunidades ajuda a compreender melhor onde estão as vulnerabilidades e quais soluções podem efetivamente funcionar. Acredito que posso contribuir muito para a reconstrução, principalmente trazendo o olhar da ciência e da gestão ambiental para as tecnologias e soluções que podem ser empregadas na mitigação e, especialmente, na adaptação às mudanças climáticas. O desafio agora não é simplesmente reconstruir o que existia, mas reconstruir melhor, com mais conhecimento, prevenção e resiliência. E, para mim, poder contribuir para esse processo em uma região que faz parte da minha história tem um significado muito especial”, complementa.


