
Pandemia não elevou proporcionalmente diagnósticos de ansiedade e depressão nas UBS de Lajeado
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 09/09/2026, 09:00:00
O número de pessoas que procuraram atendimento nas Unidades Básicas de Saúde (UBS) de Lajeado aumentou durante os anos da pandemia de Covid-19, mas esse crescimento não foi acompanhado por uma elevação proporcional dos diagnósticos registrados de ansiedade e depressão. A conclusão integra uma pesquisa que analisou 8.365 pessoas atendidas por demanda espontânea no município entre 2019 e 2022 e identificou, ao mesmo tempo, diferenças importantes segundo faixa etária e sexo.
A pesquisa foi realizada por pesquisadores vinculados à Univates e à Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs). Ernanda Mezaroba está vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Enfermagem da Ufrgs; Gladis R. Tolfo (diplomada do PPGCM); Eduardo Henrique Caio, Davi Augusto T. dos Santos e Pedro F. Zanolla (estudantes de Medicina); Fernanda Majolo e Guilherme L. da Silva (pesquisadores no Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas) são vinculados à Univates. O estudo foi publicado nos Anais da Academia Brasileira de Ciências.
Contexto do estudo
O sofrimento psicológico provocado ou agravado pela pandemia pode não ter sido integralmente captado pelos registros dos serviços de saúde. O estudo aponta que barreiras de acesso, sobrecarga das unidades e o subdiagnóstico de transtornos mentais podem ter contribuído para ampliar a distância entre a experiência de sofrimento da população e sua identificação formal na atenção primária.
A atenção primária é importante nesse processo. As UBS constituem a principal porta de entrada do Sistema Único de Saúde (SUS) e concentram ações de promoção, prevenção, diagnóstico, tratamento e acompanhamento de diferentes condições de saúde. O Ministério da Saúde também estabelece que a Atenção Primária deve participar da detecção, do manejo inicial e do acompanhamento longitudinal dos transtornos relacionados à ansiedade e à depressão.
No Brasil, pesquisas realizadas durante a pandemia já haviam identificado uma elevada frequência de sintomas relacionados à saúde mental. Um levantamento com 45.161 adultos e idosos, por exemplo, encontrou 40,4% de relatos frequentes de tristeza ou depressão e 52,6% de nervosismo ou ansiedade, além de alterações no sono.
Quais são os resultados aos quais chegaram os pesquisadores
Esses dados, contudo, foram obtidos por meio de autorrelato em uma pesquisa populacional, enquanto o estudo realizado em Lajeado considerou diagnósticos médicos conclusivos registrados em prontuários de pessoas que efetivamente procuraram atendimento nas UBS.
É justamente essa diferença metodológica que ajuda a compreender o resultado aparentemente paradoxal encontrado pelos pesquisadores. O estudo não investigou a prevalência de sintomas psicológicos na população de Lajeado, nem verificou se os participantes haviam sido infectados pelo SARS-CoV-2. A comparação foi feita entre períodos distintos: antes da pandemia, de janeiro de 2019 a março de 2020, e durante a pandemia, de abril de 2020 a dezembro de 2022. Portanto, os resultados dizem respeito ao contexto temporal da pandemia e à utilização dos serviços de saúde, e não aos efeitos da infecção pelo coronavírus sobre cada indivíduo.
Ao todo, foram analisadas 8.365 pessoas, com idade média de 45,5 anos. A amostra era composta por 6.038 mulheres, equivalentes a 72,3%, e 2.316 homens, correspondentes a 27,7%. Em 2019 foram registradas 2.600 consultas entre os participantes incluídos na pesquisa. No período de 2020 a 2022, foram 5.755. Apesar do aumento do número absoluto de atendimentos, não houve associação estatisticamente significativa entre o ano da consulta e os registros de ansiedade ou depressão.
A estabilidade proporcional, entretanto, não significa que o perfil dos diagnósticos tenha permanecido inalterado. A análise identificou diferenças significativas entre grupos etários. Pessoas idosas apresentaram maior frequência de depressão, enquanto ansiedade foi mais frequente entre jovens e adultos. Na regressão logística, os idosos apresentaram 82% mais chances de diagnóstico de depressão em comparação com os adultos jovens. Para ansiedade, por outro lado, os idosos apresentaram 45% menos chances de diagnóstico do que os jovens.
O sexo também produziu um resultado que chamou a atenção dos pesquisadores. Embora não tenha sido encontrada associação simples estatisticamente significativa entre sexo e ansiedade, a análise multivariada indicou que os homens apresentaram 12% mais chances de receber um diagnóstico de ansiedade do que as mulheres. Para depressão, o comportamento foi inverso: os homens apresentaram 11% menos chances de diagnóstico do que as mulheres.
Os dados, no entanto, precisam ser interpretados com cautela. Os autores discutem a possibilidade de que padrões tradicionais de procura por serviços de saúde e formas diferentes de manifestação dos transtornos contribuam para o que aparece nos prontuários. No caso da depressão entre homens, por exemplo, o estudo considera a possibilidade de subdiagnóstico associado tanto à menor procura por atendimento quanto a manifestações que podem não ser imediatamente reconhecidas como depressivas. Já o resultado relativo à ansiedade masculina contraria a tendência observada em diversos estudos citados pelos pesquisadores, que geralmente apontam maior prevalência de ansiedade entre mulheres.
Entre as pessoas idosas, a interpretação também exige atenção. O estudo discute que manifestações atípicas de depressão podem ser confundidas com mudanças atribuídas ao próprio envelhecimento, como alterações nas relações sociais, perda de interesse ou mudanças na dinâmica familiar. Durante a pandemia, esse cenário foi atravessado ainda pelo isolamento social e por dificuldades de acesso aos serviços de saúde. O próprio Ministério da Saúde reconhece que a solidão e o isolamento podem afetar negativamente a saúde mental das pessoas idosas e orienta que depressão e transtornos de ansiedade sejam identificados e tratados no SUS.
Outro aspecto observado foi a mudança na distribuição dos diagnósticos específicos registrados pela Classificação Internacional de Doenças, a CID-10. Entre os casos de ansiedade, o transtorno de ansiedade generalizada foi o diagnóstico predominante ao longo do período, enquanto houve diferenças na frequência de categorias específicas entre os anos. Na depressão, os episódios depressivos passaram a representar parcela maior dos registros, especialmente em 2022. Os autores observam que a própria classificação dos episódios depressivos depende de características como duração e intensidade dos sintomas, parâmetros que podem ter sido prejudicados pela redução do acompanhamento longitudinal durante a sobrecarga dos serviços de saúde.
O artigo, portanto, não sustenta a conclusão de que a pandemia não afetou a saúde mental da população. O que os dados permitem afirmar é mais específico: entre as pessoas que procuraram espontaneamente as UBS de Lajeado e tiveram diagnósticos conclusivos registrados, não houve aumento proporcional dos diagnósticos de ansiedade e depressão nos primeiros anos da pandemia. Ao mesmo tempo, os padrões encontrados entre idosos e homens indicam que o impacto sobre a saúde mental não foi homogêneo e que parte desse fenômeno pode ter permanecido invisível nos registros da atenção primária.
Impactos da pesquisa
A hipótese de subdiagnóstico é importante para interpretar os resultados. Segundo a discussão apresentada no artigo, a pandemia pode ter produzido uma situação em que o sofrimento psicológico aumentou sem que esse crescimento aparecesse proporcionalmente nos registros das UBS. A sobrecarga dos serviços, a priorização dos atendimentos relacionados à Covid-19 e o receio de contaminação podem ter afastado dos serviços pessoas com sintomas leves ou moderados. Dessa forma, pesquisas baseadas em sintomas autorrelatados e estudos fundamentados em diagnósticos registrados em serviços de saúde podem produzir retratos diferentes do mesmo período.
A distinção é relevante para o planejamento das políticas públicas. O Ministério da Saúde considera a Atenção Primária um espaço para acolhimento, diagnóstico, manejo e acompanhamento de condições de saúde mental, enquanto os casos que demandam atenção especializada podem ser encaminhados para outros pontos da rede, incluindo os Centros de Atenção Psicossocial (Caps).
Nesse sentido, o estudo desenvolvido em Lajeado sugere que indicadores baseados exclusivamente nos diagnósticos registrados podem não ser suficientes para dimensionar a carga real de sofrimento psicológico produzida por uma emergência sanitária. Os próprios autores defendem o fortalecimento do rastreamento de saúde mental na atenção primária, especialmente entre grupos considerados vulneráveis, e a qualificação dos sistemas de informação para captar melhor o impacto psicológico de futuras emergências de saúde pública.
Como o estudo foi feito?
A pesquisa utilizou dados de prontuários eletrônicos registrados na plataforma SIGSS, sistema utilizado para gestão e registro dos atendimentos de saúde no município. Foram consideradas informações como sexo, idade, bairro de residência, data da consulta e códigos da CID-10. A análise estatística empregou os programas JAMOVI e R, com testes de qui-quadrado, de Brunner-Munzel e modelos de regressão logística binomial.
O projeto recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Univates, sob o número 6.159.072, e foi registrado na Plataforma Brasil, seguindo as normas éticas estabelecidas pela Resolução nº 466/2012 e as disposições da Lei Geral de Proteção de Dados.
Os pesquisadores também apontam limitações que impedem generalizar os resultados para outras regiões. A pesquisa foi realizada em um único município do sul do Brasil, utilizou registros de diagnósticos conclusivos e adotou desenho observacional e transversal, o que impossibilita estabelecer relação causal entre a pandemia e as condições de saúde mental. Também não foram avaliados o status de infecção por Covid-19, a gravidade dos sintomas, os tratamentos recebidos, os desfechos longitudinais, dados ocupacionais ou informações socioeconômicas.

Imagem de máscara caseira, ilustrativa para o contexto da pandemia de coronavírus

