
Pesquisa revela desigualdades na distribuição de ensaios clínicos contra o câncer no Brasil
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 20/10/2026, 08:00:00
Esta pesquisa contém um glossário, ao fim, que explica os termos técnicos empregados no texto, mantidos para fortalecer a precisão conceitual da notícia
Um estudo publicado, em 10 de agosto de 2026, na revista ecancermedicalscience apresenta um panorama nacional dos ensaios clínicos de câncer em andamento no Brasil e evidencia um cenário marcado simultaneamente pela presença de pesquisa oncológica em larga escala e por desigualdades territoriais, temáticas e de financiamento. Intitulado “A comprehensive mapping of cancer clinical trials in Brazil”, o trabalho identificou 272 estudos clínicos intervencionais em andamento no país, correspondentes a 2,55% dos estudos mundiais sobre câncer registrados no ClinicalTrials.gov.
A pesquisa contou com a participação da professora Roberta Pozza, coordenadora do curso de Medicina da Universidade do Vale do Taquari – Univates, e foi desenvolvida por pesquisadores ligados a instituições como Let Me Trial, UFCSPA, LACOG, Pucrs e Ufrgs. Teve como autora correspondente Juliana Giacomazzi.
O objetivo foi compreender como a pesquisa clínica oncológica brasileira está distribuída, considerando fatores como região geográfica, tipo de câncer investigado, fase dos ensaios, fontes de financiamento e relação entre a atividade científica e o perfil epidemiológico do câncer no país. Os resultados apontam que a capacidade brasileira de realizar pesquisas clínicas está fortemente concentrada nas regiões Sul e Sudeste, enquanto áreas do Norte e Nordeste apresentam menor presença de centros de pesquisa.
A distribuição regional constitui um dos principais achados. Sul e Sudeste concentram, juntas, 74,7% dos locais de pesquisa clínica em câncer. O Sul apresenta densidade de 1,98 locais por milhão de habitantes, enquanto o Sudeste registra 1,46. No extremo oposto, a região Norte apresenta densidade de apenas 0,37 local por milhão de habitantes. O levantamento não identificou centros ativos de pesquisa clínica no Acre, Amapá, Sergipe e Tocantins.
A concentração também aparece na escala urbana: 66,9% dos locais de pesquisa estão situados em capitais. Para os autores, a configuração pode criar barreiras adicionais para pacientes residentes em municípios distantes dos grandes centros, sobretudo em um país com dimensões territoriais e desigualdades socioeconômicas tão expressivas.
No Rio Grande do Sul, o estudo identificou 29 locais de pesquisa clínica, o que corresponde a 11,3% dos centros registrados no país. A densidade alcançada pelo Estado foi de 2,58 locais por milhão de habitantes, superior à média observada nas regiões Sul e Sudeste. São Paulo aparece com o maior número absoluto de locais, 78, seguido pelo Rio Grande do Sul, com 29, e Minas Gerais, com 27.
Predominância de pesquisas em fases avançadas
Outro aspecto identificado pelo levantamento diz respeito à fase dos ensaios. Mais da metade dos estudos, 54,8%, estava na Fase III, enquanto 77,6% correspondiam conjuntamente às Fases II/III, III e IV. Em contrapartida, os estudos de fases iniciais apresentaram participação reduzida.
A configuração, segundo os autores, significa que o país participa fortemente de pesquisas destinadas a avaliar tratamentos que já avançaram em seu processo de desenvolvimento, mas possui menor participação em etapas iniciais de investigação de novas terapias. Segundo o artigo, a baixa presença de estudos de Fase I ou Fase I/II restringe oportunidades para o desenvolvimento de novos medicamentos e para a inovação conduzida por pesquisadores.
O financiamento também apresenta forte concentração. Em 78,7% dos ensaios identificados, o patrocinador principal era a indústria. Os estudos acadêmicos ou iniciados por pesquisadores constituíam uma parcela minoritária. Para os autores, embora o investimento privado seja relevante para o desenvolvimento da pesquisa oncológica, a dependência desse modelo pode fazer com que a agenda de investigação se aproxime mais de prioridades comerciais, deixando menos espaço para questões determinadas por necessidades de saúde pública.
O artigo defende, nesse sentido, o fortalecimento de redes públicas e acadêmicas, capazes de ampliar a diversidade das pesquisas e contemplar populações e tipos de câncer que não necessariamente ocupam posição prioritária na agenda comercial.

Radiografia de tórax mostrando um tumor no pulmão (indicado por uma seta)
Câncer de pulmão e de mama concentram pesquisas
Os tipos de câncer mais frequentemente investigados também seguem uma tendência identificada internacionalmente. O câncer de pulmão correspondeu a 18,8% dos estudos, seguido pelo câncer de mama, com 16,9%. Na sequência aparecem os cânceres gastrointestinais, com 13,2%; urogenitais, com 11,8%; e de cabeça e pescoço, com 8,8%. Entre as classes terapêuticas mais investigadas estavam os medicamentos antineoplásicos, presentes em 205 ensaios, os agentes antineoplásicos imunológicos, em 109, os inibidores enzimáticos, em 89, e os inibidores de checkpoint imunológico, em 67 estudos.
O levantamento, entretanto, identificou uma diferença entre a produção de pesquisa e determinadas necessidades epidemiológicas brasileiras. Cânceres de colo do útero, gástrico e de pênis, associados pelos autores a contextos de vulnerabilidade socioeconômica, aparecem sub-representados.
Essa assimetria tem implicações que ultrapassam o universo acadêmico. A participação em ensaios clínicos pode proporcionar acesso a tratamentos inovadores quando as terapias convencionais são insuficientes ou não estão disponíveis, além de contribuir para a capacitação de profissionais e para o desenvolvimento da infraestrutura especializada. Em um país no qual aproximadamente 75% da população é atendida pelo Sistema Único de Saúde (SUS), a expansão da pesquisa clínica também pode representar uma dimensão do acesso à inovação em saúde.
Como o estudo foi realizado
Para construir o panorama nacional, os pesquisadores utilizaram como principal fonte o ClinicalTrials.gov, banco internacional de estudos clínicos administrado pela U.S. National Library of Medicine, ligado aos National Institutes of Health dos Estados Unidos. A extração dos dados foi automatizada por meio de um script desenvolvido em Python e executado no Google Colab. Depois da coleta, os dados foram submetidos a procedimentos de limpeza e padronização, incluindo a correção e uniformização dos códigos postais dos locais de pesquisa, realizadas em planilhas do Excel.
Para a análise quantitativa e espacial, foram utilizadas as plataformas Looker Studio e Tableau. Os pesquisadores também incorporaram dados populacionais e epidemiológicos provenientes do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), do Instituto Nacional de Câncer (Inca) e do Global Cancer Observatory. A equipe realizou ainda uma comparação simplificada com Estados Unidos, Japão, Canadá e Reino Unido, buscando situar o cenário brasileiro em relação a países de alta renda.
Desafio é democratizar o acesso à pesquisa
Os autores interpretam os resultados como evidência de que o contexto brasileiro de pesquisa oncológica possui capacidade relevante, mas ainda apresenta disparidades na distribuição dos estudos, na densidade dos centros e nos tipos de câncer investigados. A concentração nas regiões Sul e Sudeste é relacionada à presença de infraestrutura mais avançada, centros acadêmicos e equipes com experiência em pesquisa clínica.
O artigo também aponta uma dificuldade de natureza informacional. O país não dispõe de um registro nacional centralizado, integrado e de fácil utilização pelo público para localizar ensaios clínicos em andamento. O ClinicalTrials.gov, embora seja a principal fonte internacional, está disponível em inglês e não contempla necessariamente todos os estudos registrados no Brasil. O Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos - ReBEC e a Plataforma Brasil, por sua vez, não possuem interoperabilidade em tempo real. A Plataforma Brasil, especificamente, foi concebida principalmente para submissão e acompanhamento de projetos no sistema de ética em pesquisa, e não como uma ferramenta pública de busca de estudos em andamento.
Nesse contexto, os pesquisadores defendem a combinação de políticas públicas, expansão da capacidade de pesquisa e ferramentas digitais capazes de conectar pacientes, profissionais de saúde e centros de pesquisa. A democratização do acesso aos ensaios clínicos é apresentada como estratégia para reduzir desigualdades e fazer com que os avanços científicos alcancem populações atualmente pouco representadas.

Ficha da pesquisa
Título original: A comprehensive mapping of cancer clinical trials in Brazil
Autores: Laura Mendonça Diefenthaeler, Julia Kasali Lima, Maria Carolina Buj, Giovani Gadonski, Matheus Gadonski Stortti Rosa, Alexandre Vieira, Gustavo Werutsky, Roberta Pozza e Juliana Giacomazzi
Instituições envolvidas: Let Me Trial (Porto Alegre/RS); Universidade Federal de Ciências da Saúde de Porto Alegre (UFCSPA); Latin American Cooperative Oncology Group (LACOG); Hospital São Lucas da Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs); Pontifícia Universidade Católica do Rio Grande do Sul (Pucrs); Universidade do Vale do Taquari (Univates, Lajeado/RS); e Programa de Pós-Graduação em Epidemiologia da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (Ufrgs)
DOI: https://doi.org/10.3332/ecancer.2026.2184
Glossário
Ensaio clínico: estudo realizado com participantes humanos para avaliar intervenções em saúde, como medicamentos ou tratamentos.
Ensaio clínico intervencional: pesquisa na qual os participantes recebem uma intervenção definida pelos pesquisadores para avaliar seus efeitos.
Fase I: etapa inicial de desenvolvimento clínico, geralmente voltada à avaliação preliminar de segurança, tolerabilidade e características de uma nova intervenção.
Fase II: etapa destinada, entre outros objetivos, a avaliar eficácia preliminar, segurança e dose de uma intervenção em determinado grupo de pacientes.
Fase III: estudo realizado em grupos maiores de participantes para avaliar a eficácia e a segurança de uma intervenção e compará-la, quando aplicável, a tratamentos existentes.
Fase IV: estudos realizados após a aprovação de uma intervenção, destinados a ampliar o conhecimento sobre seus efeitos e utilização em condições de prática clínica.
Imunoterapia: abordagem terapêutica que utiliza mecanismos do sistema imunológico para combater o câncer.
Inibidor de checkpoint imunológico: medicamento que bloqueia mecanismos utilizados pelos tumores para escapar da resposta do sistema imunológico.
Antineoplásico: substância ou medicamento utilizado para combater neoplasias, isto é, tumores.
Densidade de locais de pesquisa: relação entre o número de centros ou locais de pesquisa e a população de determinada área, expressa no estudo por milhão de habitantes.
Interoperabilidade: capacidade de diferentes sistemas e bases de dados compartilharem e utilizarem informações de maneira integrada.
ClinicalTrials.gov: registro internacional de estudos clínicos administrado pela U.S. National Library of Medicine, utilizado pelo estudo como principal fonte de dados.
ReBEC (Registro Brasileiro de Ensaios Clínicos): plataforma nacional relacionada ao registro de pesquisas clínicas.
Plataforma Brasil: sistema brasileiro utilizado principalmente para submissão, avaliação e acompanhamento de projetos de pesquisa no sistema de ética em pesquisa.
Pesquisa acadêmica ou investigator-initiated: estudo conduzido sob liderança de pesquisadores ou instituições acadêmicas, em contraste com pesquisas patrocinadas predominantemente pela indústria.
Epidemiologia: campo que estuda a distribuição, frequência e determinantes de eventos relacionados à saúde em populações.
Equidade em saúde: princípio segundo o qual diferentes grupos devem ter oportunidades justas de acesso à prevenção, ao diagnóstico, ao tratamento e aos recursos necessários para alcançar melhores condições de saúde.

