
Um panorama do câncer de próstata no Brasil
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 18/09/2026, 12:30:00
O câncer de próstata não se distribui de maneira uniforme pelo território brasileiro. Embora a doença esteja fortemente associada ao envelhecimento e apresente crescimento dos indicadores epidemiológicos nas faixas etárias mais avançadas, a trajetória registrada entre 1990 e 2021 apresenta diferenças marcantes entre as regiões do país.
Sul e Sudeste concentram os maiores valores de incidência, prevalência e anos de vida perdidos por incapacidade ou morte, enquanto Norte e Nordeste apresentam, em diferentes faixas etárias, crescimento mais acelerado de determinados indicadores e dificuldades históricas de acesso aos serviços de saúde.
O contraste é um dos principais resultados de um estudo desenvolvido por pesquisadores vinculados à Universidade do Vale do Taquari – Univates que analisou a evolução do câncer de próstata no Brasil ao longo de 32 anos. O trabalho examinou quatro indicadores epidemiológicos (incidência, prevalência, mortalidade e anos de vida ajustados por incapacidade, conhecidos pela sigla DALY) e comparou seu comportamento entre as cinco macrorregiões brasileiras e diferentes grupos etários.
Publicado em 19 de agosto de 2026 no periódico internacional Cancer Causes & Control, o estudo mostra que a leitura dos dados nacionais, quando feita sem considerar as diferenças territoriais e etárias, pode esconder trajetórias epidemiológicas bastante distintas.
O estudo reúne pesquisadores vinculados ao Programa de Pós-Graduação em Ciências Médicas, ao Programa de Pós-Graduação em Biotecnologia e ao Centro de Ciências Médicas da Univates. Participaram Gabriela Daiprai (egressa do PPGCM e doutoranda do PPGBiotec), Bruna Cristina Jordon Togni (doutoranda do PPGBiotec), Maria Noêmia Souza de Alcântara (discente do PPGCM), Joana Ecco (estudante de Medicina), Ágatha Kniphoff da Cruz (estudante de Medicina) e os professores do PPGCM Fernanda Majolo e Guilherme Liberato da Silva, que é o autor correspondente.
Uma doença associada ao envelhecimento
O câncer de próstata é predominantemente relacionado ao envelhecimento e apresenta incidência mais elevada entre homens com mais de 65 anos. No estudo, os indicadores de incidência, prevalência e mortalidade aumentaram progressivamente com a idade, atingindo níveis particularmente elevados entre homens de 75 a 89 anos.
Na faixa de 70 a 74 anos, por exemplo, a taxa média de incidência chegou a 377,67 casos por 100 mil homens no Sul, enquanto no Norte foi de 272,32 casos por 100 mil. Na mesma faixa etária, a prevalência, que corresponde ao conjunto de pessoas vivendo com a doença, alcançou 2.619,50 casos por 100 mil homens no Sul, contra 1.846,18 no Norte.
A diferença, entretanto, não deve ser interpretada como evidência de que o câncer de próstata seja biologicamente mais frequente no Sul. Os próprios autores relacionam os valores mais elevados nessas regiões a fatores como maior expectativa de vida, infraestrutura diagnóstica mais estruturada, maior acesso à detecção da doença e maior sobrevida após o diagnóstico.
A distinção é importante para compreender os resultados da pesquisa, visto que uma região pode apresentar uma prevalência menor não necessariamente porque tenha menos doença, mas porque possui menor capacidade de identificar os casos, registrar os diagnósticos ou garantir que os pacientes permaneçam vivos por mais tempo após o diagnóstico.

Artigo publicado no periódico Cancer Causes & Control
Quando números menores também podem indicar desigualdade
O comportamento observado no Norte e no Nordeste ajuda a evidenciar essa questão. O estudo identificou indicadores absolutos mais baixos nessas regiões em diversas faixas etárias, mas também encontrou crescimento mais acentuado de incidência, prevalência e carga da doença em determinados grupos.
No Nordeste, por exemplo, a incidência apresentou os maiores aumentos anuais médios em praticamente todas as faixas etárias analisadas. Entre homens de 55 a 59 anos, o crescimento médio anual da incidência chegou a 2,57%. Na faixa de 50 a 74 anos, tanto Norte quanto Nordeste apresentaram crescimento mais pronunciado da incidência do que as demais regiões.
Os pesquisadores interpretam parte desse movimento como resultado de uma expansão recente da capacidade de diagnóstico. Quando uma população passa a ter mais acesso a exames e serviços especializados, mais casos podem ser identificados, fazendo com que a incidência registrada aumente mesmo sem que isso represente, necessariamente, uma elevação proporcional do risco biológico da doença.
O problema é que essa expansão ainda ocorre sobre uma infraestrutura desigual. O estudo aponta, por exemplo, que a Região Norte possui a menor incidência registrada, mas também apresenta limitações na disponibilidade de profissionais e serviços especializados. A análise utilizada pelos autores cita que apenas cerca de 30% dos municípios da região possuíam urologistas e que pacientes precisam frequentemente se deslocar para capitais como Belém e Manaus para acessar serviços oncológicos de maior complexidade.
Mortalidade segue caminhos diferentes
As diferenças tornam-se ainda mais expressivas quando se observa a mortalidade. Entre 1990 e 2021, o Sul e o Sudeste apresentaram reduções significativas em diferentes grupos etários, enquanto o Nordeste registrou aumento da mortalidade em algumas faixas. Entre homens de 65 a 69 anos, por exemplo, a mortalidade apresentou redução média anual de 0,64% no Sul, mas crescimento de 0,76% no Nordeste. No Sudeste, foram observadas reduções de 0,64% ao ano entre 70 e 74 anos e de 0,70% entre 80 e 84 anos.
Para os autores, essas trajetórias distintas são compatíveis com diferenças na disponibilidade e na qualidade dos serviços de saúde, no diagnóstico e no acesso a tratamentos. A redução observada em determinadas regiões é discutida em associação com avanços terapêuticos, incluindo radioterapia conformacional e terapias hormonais de segunda geração. Ao mesmo tempo, o crescimento da mortalidade em determinados grupos no Nordeste sinaliza que a incorporação desses avanços não ocorre de maneira uniforme pelo país.
O que significa medir DALY?
Um dos diferenciais do estudo é a utilização dos DALYs, sigla em inglês para Disability-Adjusted Life Years, ou anos de vida ajustados por incapacidade. O indicador permite observar a carga de uma doença para além da quantidade de diagnósticos ou mortes. O cálculo combina os anos de vida perdidos em razão de morte prematura com os anos vividos com incapacidade. Em termos simplificados, um DALY representa a perda de um ano de vida saudável. Por isso, o indicador permite dimensionar simultaneamente os efeitos fatais e não fatais de uma doença.
No câncer de próstata, essa medida produz um resultado que os autores explicitam como particularmente relevante: embora incidência, prevalência e mortalidade aumentem com a idade, o maior peso relativo dos DALYs aparece em faixas etárias mais jovens, especialmente entre 50 e 64 anos. A razão está relacionada ao impacto da morte prematura e da incapacidade sobre indivíduos que ainda estão em idade economicamente ativa. Assim, um óbito ou uma condição incapacitante aos 50 ou 60 anos representa mais anos de vida saudável perdidos do que um evento semelhante em uma idade muito avançada. No Nordeste, os DALYs entre homens de 50 a 64 anos apresentaram crescimento anual significativo, chegando a 0,85% em determinados grupos.

Imagem ilustrativa para pélvis
Três décadas marcadas por mudanças no diagnóstico
A série histórica analisada também mostra que a evolução do câncer de próstata não ocorreu de maneira linear. A incidência apresentou crescimento expressivo entre 1990 e aproximadamente 2010, período marcado pela expansão do uso do PSA, exame que mede o antígeno prostático específico.
Posteriormente, os indicadores de incidência passaram por estabilização ou redução em algumas regiões. O estudo relaciona essa mudança às alterações nas recomendações para rastreamento do câncer de próstata, sobretudo diante das evidências de que o uso indiscriminado do PSA poderia levar ao sobrediagnóstico e ao sobretratamento de tumores que talvez jamais provocassem sintomas ou ameaçassem a vida do paciente.
A partir de 2012, houve uma transição para uma abordagem mais seletiva, posteriormente influenciada por recomendações que passaram a enfatizar a decisão compartilhada entre médico e paciente, considerando os benefícios e os riscos do rastreamento.
Os dados analisados pelos pesquisadores são compatíveis com esse processo histórico. Entre os grupos de 50 a 54 e 55 a 59 anos, por exemplo, as trajetórias de incidência foram estatisticamente paralelas e apresentaram aumento médio anual de 1,88% entre 1990 e 2021. O comportamento semelhante dessas faixas etárias indica que mudanças nas políticas de diagnóstico e na disseminação do PSA produziram efeitos comparáveis sobre esses grupos.
Prevalência maior também pode significar maior sobrevida
Outro resultado foi o aumento da prevalência entre 40 e 89 anos em todas as macrorregiões brasileiras. O Nordeste apresentou os maiores crescimentos em grande parte das faixas analisadas, enquanto o Norte também apresentou aumentos expressivos em determinados grupos.
O crescimento não deve ser lido, no entanto, como agravamento da situação epidemiológica. A prevalência também aumenta quando pessoas diagnosticadas permanecem vivas por mais tempo. Nesse sentido, o crescimento da prevalência pode refletir simultaneamente o envelhecimento populacional, a detecção de novos casos e a ampliação da sobrevida.
No Sul, por exemplo, a prevalência chegou a 2.619,50 casos por 100 mil homens entre 70 e 74 anos. Para os autores, esse padrão é compatível com uma combinação de envelhecimento populacional, maior capacidade de diagnóstico e sobrevivência prolongada.
Pesquisa desenvolvida na Univates
A base utilizada foi o Global Burden of Disease (GBD) 2021, mantido pelo Institute for Health Metrics and Evaluation (IHME). Os pesquisadores trabalharam com estimativas de incidência, prevalência, mortalidade e DALYs para o Brasil e suas cinco macrorregiões, estratificadas por grupos etários.
Para identificar mudanças nas trajetórias ao longo do tempo, foi empregada regressão Joinpoint, técnica estatística que permite localizar pontos de inflexão em séries temporais. Também foi calculada a variação percentual anual média (AAPC), acompanhada de intervalos de confiança de 95%. As análises foram realizadas para grupos etários de cinco em cinco anos, dos 40-44 anos até 95 anos ou mais.
O desafio de transformar desigualdade em política pública
Os resultados apontam para uma questão que ultrapassa a epidemiologia: políticas nacionais de enfrentamento do câncer de próstata precisam considerar as diferenças territoriais existentes dentro do próprio país. O estudo recomenda o fortalecimento da infraestrutura diagnóstica nas regiões com menor oferta de serviços, a qualificação das equipes de saúde, campanhas direcionadas a homens mais jovens e ampliação do acesso a serviços especializados. Também defende o aperfeiçoamento dos registros epidemiológicos, com informações mais detalhadas sobre estágio dos tumores e modalidades de tratamento.
A recomendação ganha relevância diante das estimativas mais recentes do Instituto Nacional de Câncer (Inca). Para o triênio 2026-2028, o Instituto estima 77.920 novos casos de câncer de próstata por ano no Brasil, correspondendo a uma taxa ajustada de 45,31 casos por 100 mil homens. A doença permanece como o câncer mais incidente entre os homens em todas as Unidades da Federação. Os números do Inca também reproduzem a dimensão territorial do problema: a taxa ajustada estimada para o Sudeste é de 64,12 casos por 100 mil homens, enquanto no Norte é de 31,38. No Centro-Oeste, a taxa chega a 58,31; no Nordeste, a 49,28; e no Sul, a 35,91.
A comparação entre a estimativa atual e a série histórica analisada pelo estudo reforça a necessidade de evitar uma leitura simplificada dos indicadores. Taxas mais altas podem estar relacionadas tanto à ocorrência da doença quanto à capacidade de identificá-la; taxas mais baixas, por sua vez, podem coexistir com dificuldades de diagnóstico, registro e tratamento.
É justamente nessa tensão que a pesquisa encontra sua principal contribuição para o debate sobre saúde pública: compreender o câncer de próstata no Brasil exige olhar simultaneamente para a doença, para o envelhecimento da população e para a infraestrutura que permite reconhecer, tratar e acompanhar cada caso.
Referência
DAIPRAI, Gabriela et al. Global burden of prostate cancer (1990–2021) from Brazil: trends in disability-adjusted life years, incidence, mortality, and prevalence. Cancer Causes & Control, v. 37, n. 9, p. 147, 2026. DOI: https://doi.org/10.1007/s10552-026-02232-2.

Imagem que documenta quadro de normalidade no tecido da próstata

