
VER-SUS reúne estudantes em imersão no SUS no Vale do Taquari com participação da Univates e foco na formação prática em saúde pública
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 20/02/2026, 12:45:12
O Vale do Taquari recebeu, neste mês de fevereiro, a primeira edição regional do VER-SUS (Vivências e Estágios na Realidade do Sistema Único de Saúde), iniciativa vinculada ao Programa Nacional de Vivências no SUS que reúne estudantes, residentes e facilitadores em uma imersão formativa voltada à compreensão prática do funcionamento da rede pública de saúde. Com atividades iniciadas no último dia 6 de fevereiro e programação que finalizou no dia 12, a experiência mobilizou instituições de ensino, gestores públicos, movimentos sociais e serviços de saúde dos municípios de Arroio do Meio, Cruzeiro do Sul, Lajeado e Teutônia, propondo uma formação baseada na integração entre ensino, serviço e comunidade.
Organizado pela Associação da Rede Unida em parceria com o Ministério da Saúde, por meio da Secretaria de Gestão do Trabalho e da Educação na Saúde (SGTES), a Organização Pan-Americana da Saúde (Opas), a Universidade do Vale do Taquari - Univates, a 16ª Coordenadoria Regional de Saúde do Rio Grande do Sul (16ª CRS/RS) e o Coletivo Vale Diferença, o projeto é financiado pelo governo federal e não possui custos para os participantes selecionados. Ao todo, foram disponibilizadas 30 vagas para viventes (estudantes e residentes da área da saúde) e 3 vagas para facilitadores, perfil destinado a pessoas com experiências anteriores em vivências no SUS, movimentos estudantis ou projetos de extensão e pesquisa vinculados à saúde pública.
A realização do primeiro VER-SUS regional ocorreu em um contexto marcado pelos desafios enfrentados pelo sistema de saúde no Rio Grande do Sul, especialmente após eventos climáticos extremos que impactaram serviços, territórios e comunidades entre 2023 e 2024. Nesse cenário, a iniciativa buscou fortalecer a formação de futuros profissionais a partir de uma abordagem que privilegia a análise crítica das políticas públicas, a compreensão das redes de atenção e a construção coletiva de estratégias voltadas à equidade, à gestão compartilhada e à participação social.
A programação
A programação iniciou no dia 6 de fevereiro, com credenciamento, acolhida e atividades de integração realizadas nas dependências da Univates, incluindo dinâmicas de apresentação entre participantes, debates sobre expectativas e alinhamentos de convivência. O primeiro dia também contou com uma apresentação contextual sobre o Vale do Taquari e a realidade regional, conduzida por gestores locais, além da participação de representantes de movimentos sociais que compartilharam experiências de atuação comunitária. A proposta foi estabelecer desde o início um ambiente de diálogo interdisciplinar e reconhecimento dos diversos atores envolvidos na construção do SUS.
Nos dias seguintes (7 de fevereiro e 8 de fevereiro), a imersão intensificou a articulação entre teoria e prática. Atividades formativas abordaram temas como a história do Sistema Único de Saúde, o papel do VER-SUS na formação acadêmica e profissional, e a importância da ética, dos registros e da cartografia como ferramentas para análise crítica das vivências. Oficinas práticas e dinâmicas corporais complementaram o processo pedagógico, ampliando o espaço de reflexão para além das metodologias tradicionais e estimulando a participação ativa dos viventes.
Além das formações teóricas, a programação incluiu visitas a serviços de saúde e territórios que permitem aos participantes observar diretamente o funcionamento das redes de cuidado. Entre os locais visitados estiveram Centros de Atenção Psicossocial (CAPS), hospitais, unidades básicas de saúde, secretarias de saúde e comunidades e espaços culturais, como quilombos e museus históricos. Tais experiências têm como objetivo ampliar a compreensão sobre os diferentes contextos sociais e culturais que influenciam a organização do cuidado em saúde, contribuindo para a construção de uma visão ampliada do processo saúde-doença.
No dia 9 de fevereiro, por exemplo, os grupos foram divididos para acompanhar atividades em serviços especializados de Lajeado, incluindo CAPS adulto, CAPS AD, CAPS infantil, a Casa Verde e o Hospital Bruno Born. Após as visitas, os participantes retornaram à Univates para momentos de reflexão coletiva, orientados por perguntas norteadoras relacionadas às percepções pessoais, potencialidades observadas nos serviços, desafios enfrentados pelas equipes e lacunas na formação acadêmica tradicional. A metodologia de análise crítica é um dos pilares do VER-SUS, buscando estimular a autonomia intelectual e a capacidade de intervenção dos futuros profissionais.
Já no dia 10 de fevereiro, a programação ampliou a diversidade de cenários de prática, incluindo visitas ao Museu Municipal de Arroio do Meio, serviços de saúde mental em Teutônia e uma comunidade quilombola. A inclusão desses espaços assinala a perspectiva de equidade e diversidade, abordando dimensões sociais e históricas que influenciam o acesso e a qualidade da atenção em saúde. As atividades foram seguidas por plenárias e discussões em pequenos grupos, nas quais os participantes sistematizam aprendizagens e compartilham impressões sobre os territórios visitados.
Na quarta-feira, 11 de fevereiro, as vivências continuaram com visitas a novos cenários, como a Secretaria de Saúde e unidades básicas de Arroio do Meio e o hospital de Cruzeiro do Sul. O objetivo foi ampliar ainda mais a compreensão sobre diferentes modelos de organização da rede de atenção e sobre o papel dos profissionais em contextos diversos. Ao final do dia, houve uma roda de conversa com trabalhadores(as) da saúde e representantes do controle social de Lajeado sobre as responsabilidades éticas e sociais dos estudantes e futuros trabalhadores da saúde, reforçando a dimensão político-pedagógica da iniciativa.
O encerramento do 1º VER-SUS Vale do Taquari ocorreu no dia 12 de fevereiro, com uma mesa-redonda reunindo gestores municipais, representantes da universidade, movimentos sociais e participantes da vivência. A atividade final consolidou as aprendizagens construídas ao longo da semana, abrindo espaço para avaliação coletiva e sistematização de propostas que possam contribuir para o fortalecimento da rede regional de saúde.
Outro eixo importante da programação foi a abordagem dos impactos das mudanças climáticas e da gestão de crises, tema que ganhou destaque após eventos extremos recentes no estado. Atividades específicas com representantes da Defesa Civil e especialistas em gestão de emergências discutiram a necessidade de preparar profissionais capazes de atuar em cenários de desastre, integrando ações intersetoriais e fortalecendo a resiliência dos sistemas de saúde. A inclusão desse tema demarca a atualização do VER-SUS frente aos desafios contemporâneos, aproximando a formação acadêmica das demandas reais dos territórios.
As vivências também incorporaram atividades culturais e momentos de convivência coletiva, como apresentações artísticas e espaços de socialização, reconhecendo a importância da dimensão subjetiva e comunitária no processo formativo. Essas ações contribuem para fortalecer vínculos entre participantes e estimular o trabalho em equipe, competência considerada essencial para a atuação no SUS.
Segundo a organização, a metodologia do VER-SUS se baseia na construção compartilhada do conhecimento, valorizando a escuta, o diálogo e a reflexão crítica sobre as práticas de saúde. Diferentemente de estágios tradicionais, a proposta prioriza a imersão intensiva em curto período, permitindo aos participantes experimentar diferentes cenários e refletir sobre as relações entre políticas públicas, organização dos serviços e necessidades da população.
A iniciativa integra um movimento nacional que busca aproximar a formação acadêmica das diretrizes do Sistema Único de Saúde, promovendo experiências que incentivem a compreensão do SUS como política pública complexa, construída historicamente a partir da participação social. Ainda, reforça o que se nomeia de quadrilátero da formação em saúde: a articulação entre gestão, assistência/cuidado, controle social/população e a universidade/espaços de educação. Ao vivenciar a rotina dos serviços e dialogar com profissionais, usuários e gestores, os estudantes têm a oportunidade de desenvolver uma visão mais crítica e contextualizada sobre sua futura atuação profissional.





