
Do consultório ao neurodesenvolvimento: os novos caminhos da nutrição
Por Patrícia Vogel, nutricionista e professora do curso de Nutrição
|Postado em: 14/10/2026, 09:23:53
|Atualizado em: 14/10/2026, 09:25:06
Em maio de 2025, o Brasil conheceu pela primeira vez seu número oficial de pessoas com diagnóstico de Transtorno do Espectro Autista (TEA): 2,4 milhões de brasileiros, o equivalente a 1,2% da população, conforme o Censo 2022 do IBGE. O dado histórico, que aponta ainda maior prevalência entre homens (1,5%, contra 0,9% entre mulheres), tirou o tema da margem e o colocou no centro de uma discussão que já ocupava consultórios, escolas e políticas públicas. E, junto com as famílias, cresce a procura por um profissional que historicamente ficou associado ao prato, mas que hoje é convocado a olhar o organismo inteiro: o nutricionista. É nesse cenário que atua a nutricionista Patrícia Vogel, professora do curso de Nutrição da Univates.
Um leque de nichos que se abriu
O Conselho Federal de Nutrição (CFN) organiza a profissão em áreas oficiais de atuação, definidas pela Resolução CFN nº 600/2018: da clínica hospitalar e ambulatorial à alimentação coletiva, dos esportes ao ensino, da pesquisa à indústria de alimentos. Nos últimos anos, porém, o que se vê é uma expansão para além das divisões clássicas. Ganham espaço a nutrição comportamental, o cuidado com alergias e sensibilidades alimentares, as doenças autoimunes e gastrointestinais, a fitoterapia, a oncologia, a saúde da mulher e da criança, a nutrição esportiva de precisão, o teleatendimento e a atuação digital.
Entre esses nichos, um dos que mais crescem e mobilizam profissionais e famílias é a nutrição voltada aos transtornos de neurodesenvolvimento, que reúnem o TEA e o Transtorno do Déficit de Atenção com Hiperatividade (TDAH). Não por acaso: em dezembro de 2024, o Conselho Federal de Nutrição participou de seminário na Câmara dos Deputados sobre políticas públicas para o TEA e doenças raras, com a presidente do órgão na época, Erika Carvalho, destacando a atuação indispensável dos nutricionistas nesse cuidado.
Por que a alimentação importa no neurodesenvolvimento
O que a ciência tem mostrado é que pessoas autistas podem apresentar funcionamentos metabólicos, imunológicos e gastrointestinais singulares, que vão muito além do comportamento. Estudos descrevem um estado inflamatório de baixo grau que envolve o sistema nervoso central, a chamada neuroinflamação, capaz de impactar atenção, sono, regulação emocional e sensibilidade a estímulos (Liu et al., 2022). Há também alterações ligadas ao estresse oxidativo, em que nutrientes antioxidantes como vitaminas C e E, magnésio, selênio e zinco exercem papel relevante, muitas vezes com consumo insuficiente nessa população (Offor et al., 2021).
Outro eixo central é o intestino. A comunicação bidirecional entre intestino e cérebro, conhecida como eixo intestino-cérebro, envolve vias neurais, hormonais e imunológicas (Caputi et al., 2024). Queixas gastrointestinais como constipação, dor abdominal e refluxo são mais frequentes em pessoas autistas, nem sempre verbalizadas, e podem se manifestar como irritabilidade, agitação ou autoagressão (Tye et al., 2019). Alterações na microbiota intestinal, a disbiose, estão associadas a processos inflamatórios e ao comprometimento da barreira intestinal, tema explorado desde os estudos sobre a zonulina e a permeabilidade intestinal (Fasano, 2011; Iglesias-Vázquez et al., 2020).
Soma-se a isso a seletividade alimentar, frequente no autismo, que restringe grupos de alimentos por texturas, cores, marcas ou padrões rígidos de preparo. A seletividade prolongada eleva o risco de deficiências de nutrientes essenciais ao funcionamento neurológico: ferro, zinco, magnésio, vitaminas do complexo B, vitamina D e ácidos graxos essenciais (Al-Beltagi, 2024). E o consumo frequente de ultraprocessados, ricos em aditivos e açúcares, aparece associado a maiores riscos de transtornos de neurodesenvolvimento, ansiedade e depressão em revisões epidemiológicas de peso, como a publicada no British Medical Journal (Lane et al., 2024), em linha com as orientações do Guia Alimentar para a População Brasileira.
Um cuidado de suporte, não de correção
Importante marcar o que essa atuação não é. O autismo é um transtorno de neurodesenvolvimento, não uma doença a ser curada, e não existe dieta única ou protocolo fechado para o espectro. A nutrição entra como ferramenta de suporte ao funcionamento biológico: prevenção e correção de deficiências, manejo de sintomas associados, redução de sobrecargas fisiológicas e apoio à saúde intestinal, sempre de forma individualizada, baseada em avaliação clínica e exames, e integrada a uma equipe multidisciplinar. Estratégias coercitivas de ampliação alimentar tendem a aumentar o estresse e a aversão; o cuidado respeita o tempo e a segurança emocional de cada pessoa.
Quem está à frente desse cuidado no Rio Grande do Sul
Um dos nomes que vêm construindo essa ponte entre ciência e prática clínica é o da nutricionista Patrícia Vogel, professora do curso de Nutrição da Universidade do Vale do Taquari - Univates. Com 14 anos de profissão, ela é mestra em Biotecnologia pela Univates, especialista em Nutrição Clínica, em Fitoterapia e em Tratamento Integral do TEA e TDAH, além de escritora e palestrante. Na docência, Patrícia ajuda a formar nutricionistas para um mercado que não para de se diversificar.
A mensagem que fica, tanto para quem estuda quanto para quem busca atendimento, é a de que a nutrição deixou de ser coadjuvante para se tornar peça estratégica de um cuidado ampliado. Para as famílias de pessoas neurodivergentes, especialmente, o recado é claro: a alimentação pode ser uma aliada poderosa, desde que conduzida com critério técnico, sensibilidade e responsabilidade por profissionais qualificados.
Fontes:
Al-Beltagi M. Nutritional management and autism spectrum disorder: a systematic review. World J Clin Pediatr, 2024.
Caputi V. et al. Functional contribution of the intestinal microbiome in ASD, ADHD and Rett syndrome. Front Neurosci, 2024.
Conselho Federal de Nutricionistas, Resolução CFN nº 600/2018 (áreas de atuação) e participação em seminário sobre TEA na Câmara dos Deputados (2024).
Fasano A. Zonulin and its regulation of intestinal barrier function. Physiol Rev, 2011.
IBGE, Censo 2022: dados inéditos sobre diagnóstico de TEA no Brasil (divulgação de maio de 2025).
Iglesias-Vázquez L. et al. Composition of gut microbiota in children with ASD. Nutrients, 2020.
Lane M. M. et al. Ultra-processed food exposure and adverse health outcomes. BMJ, 2024.
Liu X. et al. Oxidative stress in autism spectrum disorder. Front Psychiatry, 2022.
Machado T. C. Clinical profiles in autism spectrum disorder. Med Adv, 2024.
Offor S. J. et al. Augmenting clinical interventions in psychiatric disorders. Front Psychiatry, 2021.
Tye C. et al. Interplay between ASD and comorbid medical conditions. Front Psychiatry, 2019.

