
Estudo revela conexões entre saúde mental, nutrição e trabalho no interior do RS
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 25/05/2026, 08:00:00
Um estudo conduzido por pesquisadoras do curso de Nutrição da Universidade do Vale do Taquari - Univates analisou, entre janeiro e fevereiro de 2025, como indicadores de saúde mental, ansiedade, depressão e estresse, se relacionam com o estado nutricional e o nível de atividade física de trabalhadores da indústria no interior do Rio Grande do Sul.
A investigação, que envolveu 158 colaboradores de duas empresas da região, identificou associações estatisticamente significativas entre escolaridade e depressão, idade e estresse, além de uma correlação entre índice de massa corporal (IMC) e ansiedade, sugerindo a existência de um campo complexo de interdependências entre condições físicas, fatores sociais e sofrimento psíquico.
A pesquisa foi desenvolvida no âmbito da graduação em Nutrição, tendo como autora principal Émili Goergen, com orientação da professora Fernanda Scherer Adami, e participação de Rafaela Wietholder, Patricia Fassina Cé, Juliana Paula Bruch Bertani, Paula Michele Lohmann, Marinês Pérsigo Morais Rigo e Camila Marchese. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa da Univates, o que assegura conformidade com protocolos éticos em investigações envolvendo seres humanos.
Do ponto de vista científico e social, os resultados tensionam abordagens fragmentadas da saúde do trabalhador ao evidenciar que variáveis frequentemente tratadas de forma isolada, como alimentação, atividade física e saúde mental, operam, na prática, em regime de codeterminação. No plano aplicado, os achados oferecem subsídios empíricos para o desenho de estratégias de promoção da saúde no ambiente laboral, particularmente em contextos industriais marcados por demandas produtivas.
Como o estudo foi feito
A arquitetura metodológica da pesquisa insere-se no campo quantitativo, com delineamento descritivo e corte transversal, característica que permite capturar um retrato analítico das condições de saúde em um determinado momento, ainda que sem estabelecer relações causais definitivas. A amostra foi composta por trabalhadores de ambos os sexos, com predominância feminina (73,4%), distribuídos majoritariamente entre 30 e 40 anos.
A coleta de dados ocorreu por meio de questionários on-line enviados via WhatsApp pelo setor de recursos humanos das empresas, utilizando a plataforma Google Forms. Foram empregados instrumentos validados internacionalmente, como o Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ, versão curta) e a escala Depression, Anxiety and Stress Scale (DASS-21), além de informações sociodemográficas e antropométricas autorreferidas.
O nível de atividade física foi classificado em categorias que variam de sedentário a muito ativo, com base em frequência, intensidade e duração das atividades. Já os níveis de ansiedade, depressão e estresse foram aferidos por meio de uma escala psicométrica composta por 21 itens, na qual os participantes indicaram a frequência de sintomas experimentados na semana anterior. O estado nutricional foi determinado pelo cálculo do IMC, seguindo critérios da Organização Mundial da Saúde e da Organização Pan-Americana da Saúde.
A análise estatística utilizou o Teste Exato de Fisher para associações entre variáveis categóricas e o coeficiente de correlação de Spearman para mensurar relações entre variáveis ordinais ou contínuas, adotando nível de significância de 5% (p≤0,05).

O que os dados informam
Os resultados revelam um quadro nutricional que já se aproxima de tendências nacionais: embora a eutrofia tenha sido a condição mais frequente (38,6%), a soma de sobrepeso e obesidade alcançou 60,1% da amostra, configurando um cenário de atenção para políticas de saúde pública e ocupacional.
No que se refere à saúde mental, a análise identificou que a escolaridade apresentou associação significativa com a gravidade da depressão (p=0,019). Trabalhadores com Ensino Superior foram mais frequentemente classificados em níveis normais, enquanto aqueles com apenas Ensino Médio apresentaram mais incidência de depressão leve.
O resultado sugere que o capital educacional pode operar como um fator de proteção, possivelmente mediado por mais acesso a recursos simbólicos, suporte social e estratégias de enfrentamento. Ao mesmo tempo, é evidenciada a persistência de desigualdades estruturais no campo da saúde mental, em que a escolaridade se articula com condições de trabalho e vulnerabilidade psicossocial.
Em relação à ansiedade, embora nenhuma variável tenha apresentado associação estatisticamente significativa, observou-se uma tendência de maior prevalência em mulheres e em indivíduos com obesidade, especialmente nos níveis mais severos.
A análise correlacional, por sua vez, identificou uma relação positiva entre IMC e ansiedade (r=0,157; p=0,050), indicando para os pesquisadores que o aumento do peso corporal está associado à maior intensidade de sintomas ansiosos.
O achado reforça a hipótese de circularidade entre corpo e mente, na qual fatores fisiológicos, como inflamação e alterações hormonais, coexistem com dimensões psicossociais, incluindo estigma e insatisfação corporal. O próprio estudo destaca que “quanto maior o grau de ansiedade maior tende a ser o grau do estado nutricional”.
No eixo do estresse, a idade aparece como variável determinante. Trabalhadores com menos de 30 anos apresentaram mais prevalência de estresse moderado, com associação estatisticamente significativa (p=0,010).
O padrão sugere aos investigadores maior vulnerabilidade entre trabalhadores mais jovens, possivelmente relacionada à menor experiência profissional, maior instabilidade ocupacional e exigências adaptativas intensificadas. A literatura mobilizada no próprio estudo aponta que essa faixa etária tende a enfrentar mais sobrecarga emocional no ambiente de trabalho, o que se alinha aos dados empíricos encontrados.
Um dos resultados mais instigantes da pesquisa reside na ausência de associação significativa entre nível de atividade física e sintomas de ansiedade, depressão ou estresse.
Embora a literatura frequentemente aponte a atividade física como fator protetor da saúde mental, os dados analisados não confirmaram essa relação no contexto específico investigado. A discrepância pode ser interpretada à luz de variáveis não capturadas pelo estudo, como qualidade do trabalho, carga horária, condições ergonômicas e dimensões subjetivas da experiência laboral.
Ao avançar para a discussão, o estudo insere seus achados em um panorama mais amplo, articulando-os com dados nacionais e internacionais. A prevalência de excesso de peso observada, por exemplo, converge com dados da Pesquisa Nacional de Saúde, que indicam que mais de 60% dos adultos brasileiros estão com sobrepeso.
Além disso, a pesquisa destaca que a obesidade não se restringe a uma condição biomédica, conectando também dimensões simbólicas e sociais, como estigma e discriminação, que impactam diretamente a saúde mental. No ambiente laboral, esses fatores podem se traduzir em menor engajamento em programas de saúde, isolamento social e agravamento de sintomas psíquicos.
A análise também ressalta diferenças de gênero, com maior incidência de ansiedade severa entre mulheres, ainda que sem significância estatística. Esse padrão é interpretado pelos autores à luz de fatores como sobrecarga de responsabilidades, desigualdades estruturais e mais exposição a eventos estressantes.
Considerações dos pesquisadores
A conclusão do estudo sintetiza um conjunto de evidências que apontam para a centralidade de três variáveis: idade, estado nutricional e escolaridade. Enquanto a idade se mostrou determinante para o estresse, o estado nutricional correlacionou-se com a ansiedade, e a escolaridade influenciou os níveis de depressão e estresse.
Nesse sentido, a saúde do trabalhador é entendida como um fenômeno multidimensional, que exige abordagens integradas tanto na pesquisa quanto na formulação de políticas públicas e institucionais.
Ao final, o estudo recomenda a ampliação de pesquisas com amostras mais robustas e a inclusão de variáveis ocupacionais específicas, com o objetivo de aprofundar a compreensão dos determinantes da saúde mental no trabalho industrial.
Ficha da pesquisa
Relação do nível de ansiedade, depressão e estresse com o estado nutricional e nível de atividade física de trabalhadores
Émili Goergen, Rafaela Wietholder, Patricia Fassina Cé, Juliana Paula Bruch Bertani, Paula Michele Lohmann, Marinês Pérsigo Morais Rigo, Camila Marchese, Fernanda Scherer Adami
Palavras-chave: saúde mental, estado nutricional, atividade física, trabalhadores, transtornos mentais
Como citar
GOERGEN, Émili et al. Relação do nível de ansiedade, depressão e estresse com o estado nutricional e nível de atividade física de trabalhadores. REVISTA DELOS, [S. l.], v. 18, n. 68, p. e5482, 2025. DOI: 10.55905/rdelosv18.n68-077.

