
Para que serve o componente de Língua Portuguesa na escola?
Por Garine Andrea Keller, docente do curso de Letras
|Postado em: 27/10/2026, 08:54:33
|Atualizado em: 27/10/2026, 08:55:43
Essa pergunta certamente já passou pela sua cabeça quando você frequentava a escola. Sujeito, predicado, objeto direto, indireto, orações subordinadas, orações coordenadas... Quando eu vou usar tudo isso?
Enquanto a escola reduzir a disciplina ao ensino desses conteúdos, o engajamento dos estudantes só cairá, como já vem acontecendo há muitos anos. Isso porque, antes de aprenderem sobre teoria gramatical, eles precisam aprender a ler com fluidez, a compreender e a interpretar o que leem. Se essa base não estiver consolidada, não adianta partir para questões mais complexas de análise linguística.
Muitas vezes, professores acabam se rendendo à teoria da gramática porque, quando estudavam, as aulas de Português eram assim, ou porque parece haver uma exigência de que esses conteúdos estejam todos os dias nas salas de aula. Romper com essa dinâmica não é fácil.
Uma forma de repensar o ensino de língua portuguesa na escola é analisar as avaliações externas, como Prova Brasil, ENEM, ENADE e PISA. Nessas provas, pouco ou quase nada é cobrado sobre conteúdos gramaticais isolados, priorizando-se a compreensão e a interpretação de textos e seus propósitos comunicativos.
O linguista Marcos Bagno nos oferece uma analogia esclarecedora ao comparar nossa relação com a linguagem à dos peixes com a água: assim como o peixe vive imerso no oceano e precisa dele para existir, nós vivemos imersos na linguagem. E essa "água" que nos cerca e nos constitui ganha corpo na forma de textos. A linguagem não está no vazio ou em frases isoladas de uma folha de exercícios; ela se concretiza e ganha sentido no texto, na interação social.
Um dia, um aluno da graduação, diante de uma questão de nomenclatura acerca de um processo de referenciação em um texto, respondeu mais ou menos assim: “Professora, eu sei fazer pipocas deliciosas, mas se você me perguntar quais processos químicos ocorrem para que o milho vire pipoca, não saberei explicar”.
Essa resposta me fez pensar que o nosso desafio na formação de professores está em mostrar ao aluno que compreender a “química” da linguagem não serve para complicar a receita, mas para dar um controle refinado sobre o resultado final. A metalinguagem não é o prato principal da aula de Português, mas o tempero que nos permite ter consciência do que estamos servindo.
Garine Andrea Keller
Docente da Educação Básica
Docente do Curso de Letras da Univates

