
Pesquisa com universitários aponta lacunas de conhecimento sobre infecções sexualmente transmissíveis, ressaltando a importância da educação em saúde
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 30/03/2026, 08:30:00
Um estudo realizado na Universidade do Vale do Taquari – Univates analisou o conhecimento de estudantes universitários sobre infecções sexualmente transmissíveis (ISTs), revelando que, embora a maioria dos jovens declare conhecer o tema, ainda existem lacunas relevantes de informação e comportamentos que aumentam o risco de transmissão. A pesquisa foi conduzida pela graduanda em Enfermagem Stefanie Scalabrin, com orientação da professora Dra. Paula Lohmann, e envolveu 102 estudantes de graduação matriculados em diferentes cursos da universidade.
O trabalho teve como objetivo caracterizar o conhecimento dos universitários sobre as ISTs, identificar práticas de prevenção adotadas pelos estudantes e analisar aspectos relacionados à promoção da saúde no ambiente acadêmico. A coleta de dados foi realizada entre setembro e outubro de 2023 por meio de questionário on-line, e os resultados indicam que, apesar de uma aparente familiaridade com o tema, muitos jovens ainda mantêm práticas consideradas de risco, como a não utilização regular de preservativos.
O estudo foi publicado na Revista Contemporânea.
Infecções sexualmente transmissíveis: um problema global de saúde pública
As infecções sexualmente transmissíveis são causadas por vírus, bactérias ou outros microrganismos e são transmitidas principalmente por meio do contato sexual sem proteção, seja vaginal, anal ou oral. Algumas dessas infecções também podem ser transmitidas da mãe para o bebê durante a gestação, parto ou amamentação.
Segundo dados da Organização Mundial da Saúde citados no estudo, mais de 1 milhão de novos casos de ISTs curáveis são registrados diariamente no mundo, totalizando cerca de 376 milhões de novos casos por ano de infecções como clamídia, gonorreia, tricomoníase e sífilis.
Além do impacto direto na saúde, essas infecções podem provocar consequências, incluindo infertilidade, complicações durante a gravidez, aumento do risco de transmissão do HIV e, em situações extremas, morte fetal.
Dentro desse cenário, os jovens são considerados um dos grupos mais vulneráveis. O início da vida sexual, muitas vezes associado à falta de informação adequada ou à baixa adesão a métodos de prevenção, contribui para ampliar o risco de exposição às infecções.
Objetivo da pesquisa
Diante desse contexto, o estudo desenvolvido na Univates buscou compreender como estudantes universitários percebem e lidam com as infecções sexualmente transmissíveis.
O objetivo da pesquisa foi caracterizar o conhecimento, as medidas de prevenção e as ações de promoção à saúde relacionadas às ISTs entre estudantes universitários de uma instituição privada do interior do Rio Grande do Sul.
Assim, ao investigar esse tema no ambiente universitário, a pesquisa pretende contribuir para a elaboração de estratégias educativas voltadas à promoção da saúde e à prevenção dessas infecções entre jovens adultos.
Como o estudo foi realizado
A pesquisa adotou um delineamento transversal, exploratório e descritivo, com abordagem quali-quantitativa, tipo de metodologia que permite analisar tanto dados estatísticos quanto percepções e relatos dos participantes, oferecendo uma compreensão mais ampla do fenômeno estudado.
Participaram da pesquisa 102 estudantes de graduação, com idades entre 18 e 37 anos, matriculados em diferentes cursos da universidade. O levantamento considerou estudantes de diversas áreas do conhecimento, incluindo saúde, humanas e exatas.
A coleta de dados ocorreu por meio de um questionário eletrônico elaborado pela pesquisadora e disponibilizado via Google Forms, contendo perguntas de caracterização dos participantes e questões relacionadas ao conhecimento sobre ISTs, práticas de prevenção e comportamentos sexuais.
O projeto recebeu aprovação do Comitê de Ética em Pesquisa da Univates, sob parecer nº 6.269.425, garantindo que todos os procedimentos respeitassem as normas éticas aplicáveis a pesquisas envolvendo seres humanos.
Após a coleta, os dados foram analisados em duas etapas. Inicialmente, as informações foram organizadas em banco de dados no software Excel. Em seguida, as respostas qualitativas passaram por análise de conteúdo baseada na metodologia de Bardin, que envolve etapas de pré-análise, exploração do material e interpretação dos resultados.
Perfil dos participantes
Entre os 102 participantes do estudo, a maioria estava na faixa etária de 18 a 22 anos, que representou 53,9% da amostra. A segunda faixa etária mais frequente foi a de 23 a 27 anos, com 31,4% dos estudantes.
Outro aspecto relevante identificado foi a predominância de estudantes do gênero feminino, que representaram 86,3% dos participantes, enquanto 13,7% se identificaram como do gênero masculino.
Em relação ao estado civil, 82,4% dos estudantes eram solteiros, 12,7% estavam em união estável e 4,9% eram casados.
Quanto aos cursos, estudantes de Enfermagem representaram a maior participação na pesquisa, correspondendo a 26,5% da amostra, seguidos pelos alunos de Psicologia, com 18,6%. Também participaram estudantes de áreas como Medicina, Odontologia, Farmácia, Biomedicina e Engenharia de Software, entre outras.
Início da vida sexual
Os resultados indicam que a maioria dos estudantes iniciou a vida sexual ainda na adolescência.
De acordo com os dados coletados, 51% dos participantes relataram ter tido a primeira relação sexual entre 16 e 19 anos, enquanto 41,1% afirmaram ter iniciado entre 12 e 15 anos. Apenas 7,9% disseram ter começado a vida sexual entre 20 e 24 anos.
Além disso, 91,2% dos estudantes afirmaram possuir vida sexual ativa, evidenciando que a temática das ISTs é diretamente relevante para a maior parte do público pesquisado.
Segundo a literatura citada no estudo, a iniciação sexual precoce pode estar associada a comportamentos de maior risco, como múltiplos parceiros e uso inconsistente de preservativos.
Conhecimento declarado sobre ISTs
Quando questionados se sabiam o que é uma infecção sexualmente transmissível, 99% dos participantes afirmaram conhecer o significado do termo.
No entanto, ao detalhar as possíveis formas de transmissão, surgiram inconsistências que revelam lacunas no conhecimento.
A maioria dos estudantes reconheceu corretamente que as ISTs podem ser transmitidas por relações sexuais sem proteção, vaginal (97,1%), anal (93,1%) e oral (87,3%).
Também houve alto reconhecimento da transmissão por compartilhamento de agulhas (76,5%). Entretanto, 26,5% dos estudantes afirmaram que o beijo, a saliva ou o compartilhamento de talheres podem transmitir ISTs, o que demonstra equívocos conceituais sobre o tema.
Esse dado sugere que, apesar da percepção de conhecimento, ainda existem interpretações incorretas sobre as formas de transmissão.
Testagem e diagnóstico
Outro aspecto investigado pela pesquisa foi a realização de testes rápidos para detecção de infecções sexualmente transmissíveis.
Entre os participantes, 66,7% afirmaram já ter realizado algum teste rápido, enquanto 33,3% disseram nunca ter feito esse tipo de exame.
Além disso, 10,8% dos estudantes relataram já ter recebido diagnóstico de alguma IST, percentual considerado significativo considerando o número total de participantes da pesquisa.
Uso de preservativos
No campo da prevenção, a pesquisa investigou o uso de preservativos nas relações sexuais.
A maioria dos participantes reconheceu que o preservativo masculino (97,1%) e o preservativo feminino (89,2%) são métodos eficazes de prevenção contra ISTs.
Apesar disso, apenas 67,6% afirmaram utilizar preservativo nas relações sexuais, enquanto 32,4% declararam não fazer uso desse método de proteção.
Motivos para não usar preservativo
Entre os estudantes que afirmaram não utilizar preservativos, a justificativa mais recorrente foi a existência de parceiro fixo ou relacionamento estável.
Nas respostas abertas do questionário, participantes relataram, por exemplo:
“Mantenho um relacionamento de longa data, monogâmico (...) e fazemos teste de IST anualmente.”
“Tenho parceiro fixo há muito tempo.”
Também surgiram outras justificativas, como o desconforto durante o uso do preservativo, acordos entre parceiros e o uso de métodos contraceptivos como o DIU.
Em alguns casos, estudantes associaram a prevenção apenas à gravidez, desconsiderando o risco de transmissão de infecções.
Implicações para a saúde pública
Os resultados do estudo ressaltam um aspecto amplamente discutido na literatura científica: ter conhecimento sobre um tema não significa necessariamente adotar comportamentos preventivos.
Mesmo entre jovens universitários, grupo que possui maior acesso à informação,persistem práticas que aumentam o risco de transmissão de ISTs.
Desta forma, o estudo destaca que a vulnerabilidade dos jovens está associada a diversos fatores, incluindo início precoce da vida sexual, percepção reduzida de risco em relacionamentos estáveis e falta de debate aberto sobre sexualidade.
A importância da educação em saúde no ambiente universitário
A pesquisa conclui que o conhecimento dos estudantes sobre infecções sexualmente transmissíveis ainda é limitado em alguns aspectos, especialmente no que diz respeito às formas de transmissão e à importância do uso contínuo de preservativos.
Entre as recomendações do estudo está a ampliação de ações educativas, a formação de educadores preparados para discutir o tema e a criação de espaços de diálogo sobre sexualidade e prevenção dentro do ambiente acadêmico.
Referência do estudo
SCALABRIN, Stefanie et al. CONHECIMENTO DE ESTUDANTES UNIVERSITÁRIOS EM RELAÇÃO A INFECÇÕES SEXUALMENTE TRANSMISSÍVEIS. Revista Contemporânea, v. 4, n. 8, p. e5558-e5558, 2024. DOI: https://doi.org/10.56083/RCV4N8-159

