Pesquisa

Pesquisa da Univates analisa mortalidade por cardiopatia reumática no Rio Grande do Sul e revela padrões por idade e sexo

Por Lucas George Wendt

|

Postado em: 31/03/2026, 08:00:00

Compartilhe

Estudo conduzido por estudantes e pesquisadores do curso de Medicina identificou 321 mortes por cardiopatia reumática crônica entre 2017 e 2021 e aponta maior incidência relacionada à valva mitral, além de associação estatística com faixa etária e sexo.

Uma pesquisa desenvolvida no curso de Medicina da Universidade do Vale do Taquari – Univates analisou o panorama da mortalidade por cardiopatia reumática crônica no Rio Grande do Sul entre os anos de 2017 e 2021. O estudo identificou 321 óbitos relacionados à doença no período e apontou padrões epidemiológicos, incluindo maior ocorrência associada à valva mitral e diferenças estatísticas relacionadas à idade e ao sexo dos pacientes. O estudo foi publicado no periódico  Revista de Medicina da Universidade de São Paulo. 

O trabalho foi conduzido por Abighail Brune, Lucas Henrique Gerhardt, Aline David e Gabriela Gottems, com orientação de Guilherme Chiari Cabral e Guilherme Liberato da Silva, e utilizou dados públicos do Sistema Único de Saúde (SUS) para avaliar o comportamento da doença no estado. A pesquisa buscou compreender como os óbitos se distribuem entre diferentes grupos populacionais e destaca a importância de políticas de prevenção e diagnóstico precoce para reduzir o impacto da cardiopatia reumática.

O contexto do estudo 

A cardiopatia reumática crônica é uma complicação tardia da febre reumática, uma doença inflamatória desencadeada por infecção pela bactéria Streptococcus pyogenes. O quadro geralmente ocorre após episódios de faringoamigdalite não tratados adequadamente e pode provocar danos permanentes às valvas cardíacas. Essas lesões, ao longo do tempo, comprometem o funcionamento do coração e podem levar à insuficiência cardíaca, complicações graves e morte. Segundo os autores do estudo, trata-se de uma doença que continua sendo uma das principais causas de cardiopatia adquirida em jovens e permanece relevante como problema de saúde pública, especialmente em contextos de vulnerabilidade social.

Os pesquisadores destacam que a doença possui forte relação com determinantes socioeconômicos. Regiões com menor acesso a serviços de saúde e maior exposição ao agente infeccioso apresentam maior incidência da enfermidade. A literatura científica aponta que a cardiopatia reumática ainda é responsável por parcela significativa dos casos de insuficiência cardíaca em países em desenvolvimento. Estimativas citadas no estudo indicam que, no Brasil, cerca de 10 milhões de infecções estreptocócicas ocorrem anualmente, das quais aproximadamente 30 mil evoluem para febre reumática e 15 mil resultam em cardiopatia reumática crônica, gerando impactos importantes no sistema de saúde público.

Nesse contexto, compreender o comportamento epidemiológico da doença torna-se fundamental para orientar estratégias de prevenção, diagnóstico e tratamento. Foi com esse objetivo que o grupo de pesquisadores da Univates realizou uma análise detalhada dos registros de mortalidade por cardiopatias reumáticas no Rio Grande do Sul ao longo de cinco anos.

Os dados e o método 

O estudo foi estruturado como uma pesquisa transversal baseada em dados secundários. Para isso, os autores utilizaram informações do sistema TabNet, ferramenta do Departamento de Informática do Sistema Único de Saúde (DataSUS). Foram incluídos todos os registros de óbitos relacionados a cardiopatias reumáticas classificados na décima edição da Classificação Internacional de Doenças (CID-10), abrangendo quatro categorias principais: doenças reumáticas da valva mitral (I05), doenças reumáticas da valva aórtica (I06), doenças reumáticas da valva tricúspide (I07) e outras doenças reumáticas do coração (I09).

Os dados coletados correspondem ao período entre 2017 e 2021 e foram organizados de acordo com sexo e faixa etária das vítimas. Após a coleta, as informações foram armazenadas em planilhas e analisadas por meio de técnicas estatísticas. Para avaliar possíveis associações entre as variáveis estudadas,  como idade, sexo e tipo de doença valvar, os pesquisadores utilizaram o teste Qui-Quadrado (χ²), realizado com auxílio do software SPSS. O critério adotado para considerar diferenças estatisticamente significativas foi valor de p igual ou inferior a 0,05. Por se tratar de dados de domínio público e sem identificação individual, a pesquisa não precisou ser submetida à avaliação de um comitê de ética.

Os resultados 

A análise revelou que, no período estudado, ocorreram 321 mortes relacionadas a cardiopatias reumáticas no Rio Grande do Sul. Desse total, a grande maioria foi causada por comprometimento da valva mitral, responsável por 72,3% dos óbitos. Em seguida aparecem as doenças reumáticas da valva aórtica, com 10,6%, as da valva tricúspide, com 9,3%, e outras cardiopatias reumáticas, com 7,8%.

Os resultados confirmam um padrão já descrito na literatura médica: o envolvimento predominante da valva mitral nos casos de cardiopatia reumática, fenômeno que está relacionado a características anatômicas e fisiológicas dessa estrutura cardíaca, que a tornam particularmente suscetível às alterações inflamatórias provocadas pela doença. Segundo os autores, estudos anteriores indicam que a valva mitral pode ser afetada em praticamente todos os casos de cardiopatia reumática, embora os mecanismos exatos dessa maior vulnerabilidade ainda não sejam completamente compreendidos.

Em relação à distribuição temporal dos casos, o levantamento mostrou variações no número de mortes ao longo dos anos analisados. O ano de 2021 registrou o maior número de óbitos por cardiopatia reumática crônica, com 84 casos, representando 26,2% do total. Já o menor número ocorreu em 2018, com 51 registros. Apesar dessas diferenças, os pesquisadores não identificaram uma tendência clara de crescimento contínuo ou redução progressiva da mortalidade ao longo do período estudado.

A análise da distribuição por faixa etária revelou padrões. O estudo demonstrou associação estatisticamente significativa entre idade e tipo de cardiopatia reumática. A maior frequência de óbitos relacionados à valvulopatia mitral foi observada entre pessoas com idade entre 40 e 49 anos. Já as doenças reumáticas da valva tricúspide apresentaram maior associação com indivíduos com 80 anos ou mais.

Quando considerado o conjunto de todos os tipos de cardiopatia reumática, a maior concentração de mortes ocorreu em faixas etárias mais avançadas, especialmente entre pessoas com 70 a 79 anos, resultado que demonstra que a doença pode evoluir ao longo de décadas após a infecção inicial, manifestando complicações graves na idade adulta ou na velhice.

Além da idade, o estudo também investigou diferenças entre homens e mulheres. Os resultados indicaram associação entre sexo e tipo de cardiopatia reumática. A análise demonstrou que as mulheres apresentaram maior frequência de óbitos por doenças reumáticas da valva mitral, enquanto os homens tiveram maior ocorrência de mortes associadas a outras cardiopatias reumáticas.

O padrão de predominância feminina já foi observado em outras pesquisas internacionais. Um exemplo citado pelos autores é o estudo REMEDY, um registro global sobre cardiopatia reumática que apontou que mais de 60% dos casos da doença ocorrem em mulheres. O trabalho realizado na Instituição dá mais evidências a essa tendência ao relacionar maior frequência de mortalidade feminina relacionada ao comprometimento da valva mitral.

Os pesquisadores também destacam que a cardiopatia reumática continua sendo considerada uma doença negligenciada, apesar de ser potencialmente prevenível. A principal estratégia de prevenção consiste no tratamento adequado da faringite causada por estreptococos do grupo A. A Organização Mundial da Saúde recomenda a utilização de penicilina benzatina dentro de nove dias após o início dos sintomas para erradicar a infecção e evitar o desenvolvimento da febre reumática. Entretanto, na prática, a implementação dessa estratégia nem sempre ocorre de forma eficaz.

Segundo o artigo, diversos fatores contribuem para essa dificuldade, incluindo limitações no acesso aos serviços de saúde, diagnóstico tardio e baixa disponibilidade de recursos para exames mais sensíveis, como a ecocardiografia. Em regiões com infraestrutura médica limitada, essas barreiras podem resultar em diagnósticos tardios e evolução para formas graves da doença.

Outro ponto destacado pelos autores é o impacto econômico da cardiopatia reumática para o sistema público de saúde. Procedimentos de diagnóstico, hospitalizações e intervenções cirúrgicas, como cirurgias valvares, representam custos significativos para o SUS. Estimativas citadas no estudo indicam que, somente em 2019, os gastos relacionados ao diagnóstico e tratamento da febre reumática e da cardiopatia reumática no Brasil chegaram a cerca de 27 milhões de dólares.

Diante desse cenário, os resultados da pesquisa ganham relevância ao fornecer um panorama atualizado da mortalidade por cardiopatia reumática no Rio Grande do Sul. Para os autores, compreender o perfil epidemiológico da doença é essencial para orientar políticas públicas de saúde, direcionar investimentos e aprimorar estratégias de prevenção.

Os pesquisadores ressaltam que uma abordagem terapêutica mais abrangente, combinada com campanhas de conscientização sobre a importância do tratamento correto das infecções estreptocócicas, pode contribuir significativamente para reduzir a mortalidade associada à doença. Conforme apontam no estudo, “é necessário uma abordagem terapêutica mais abrangente associada à elaboração de campanhas que divulguem a importância do tratamento correto ainda na fase aguda, a fim de reduzir os índices de mortalidade por cardiopatia reumática”.  

Referência do estudo 


David, A., Brune, A., Gottems, G., Cabral, G. C. ., Gerhardt, L. H., & Silva, G. L. da . (2024). Panorama da mortalidade por cardiopatia reumática crônica entre 2017 e 2021, no Rio Grande do Sul. Revista De Medicina, 103(3), e-222819. https://doi.org/10.11606/issn.1679-9836.v103i3e-222819

Fique por dentro de tudo o que acontece na Univates. Escolha um dos canais para receber as novidades:

Compartilhe

topo
voltar