Ciência

Pesquisa no Amapá revela como a rede social Instagram potencializa o ensino de Língua Espanhola

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 13/01/2026, 10:21:09

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Atualizado em: 13/01/2026, 10:27:35

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Em um cenário educacional em que o uso de smartphones em sala de aula é frequentemente visto como um vilão da atenção e do aprendizado, uma nova pesquisa desenvolvida no Instituto Federal do Amapá (IFAP), campus Macapá, propõe uma inversão de lógica: e se, em vez de proibir, a escola integrasse a rede social favorita dos jovens ao processo pedagógico?
Foi essa a premissa que guiou a dissertação de mestrado da professora e pesquisadora Thaynam Cristina Maia dos Santos, realizada no Programa de Pós-Graduação em Ensino da Universidade do Vale do Taquari - Univates, orientada pela professora Kári Lúcia Forneck. Intitulado "#Instagram: Uma contribuição para as aulas de Língua Espanhola no Instituto Federal do Amapá", o estudo investigou como a plataforma de fotos e vídeos pode ser transformada em uma ferramenta de ensino e aprendizagem.
A pesquisa, de caráter qualitativo, revelou que a utilização estratégica do Instagram não apenas aumenta o engajamento dos estudantes, como também favorece o desenvolvimento de habilidades linguísticas, alinhando-se aos conceitos contemporâneos de "Educação onLIFE".
Do conflito à oportunidade
A motivação para o estudo surgiu da própria experiência docente de Thaynam Santos. Ao retornar às aulas presenciais após o período de ensino remoto imposto pela pandemia de COVID-19, a educadora notou uma dificuldade crescente dos alunos em se desconectarem de seus celulares. O uso exacerbado das redes sociais, que havia sido o único meio de conexão com o mundo durante o isolamento, tornou-se um obstáculo na sala de aula tradicional.
Em vez de lutar contra a corrente, Santos decidiu investigar como canalizar esse interesse para o ensino da Língua Espanhola. A hipótese central era que o Instagram, utilizado como estratégia de cocriação, poderia abrir um novo leque de apoio pedagógico, aproximando o conteúdo escolar da realidade vivida pelos estudantes do Ensino Médio.
Metodologia
Para testar essa hipótese, o estudo adotou o método da pesquisa-ação. Diferente de métodos tradicionais em que o pesquisador apenas observa o fenômeno de fora, na pesquisa-ação há uma intervenção direta na realidade para resolver um problema coletivo. O objetivo é  produzir dados e construir conhecimento em conjunto com os alunos, transformando-os em atores do próprio aprendizado.
A pesquisa foi estruturada em torno de uma sequência didática aplicada entre março e setembro de 2023. O público-alvo foi uma turma de 29 alunos do 3º ano do Ensino Médio do curso Técnico em Alimentos do IFAP – Campus Macapá.
A sequência didática foi desenhada para explorar as quatro habilidades linguísticas fundamentais: leitura, escrita, fala e audição. As atividades foram integradas a um projeto de extensão batizado de "IFgram", criando um ambiente híbrido de aprendizagem que extrapolava as paredes da sala de aula física.

As etapas  
O trabalho pedagógico utilizou diversas funcionalidades do Instagram, desde os Stories até o Reels e o Direct. A abordagem foi fundamentada na Base Nacional Comum Curricular (BNCC), tratando as tecnologias digitais não apenas como ferramentas ou instrumentos, mas como ambientes de aprendizagem inerentes às práticas escolares, potencializando a inventividade e a co-criação.
Entre as atividades desenvolvidas, destacaram-se: 
Leitura e escrita interativa: utilização de enquetes nos Stories para sondar conhecimentos prévios e engajar os alunos em tópicos de literatura e cultura hispânica, inspirada em estudos anteriores que mostraram a eficácia desse recurso para avaliação diagnóstica. 
Produção de conteúdo: estudantes foram desafiados a produzir vídeos curtos (Reels) em espanhol, simulando situações reais de comunicação ou abordando temas culturais. 
Interação em grupo fechado: para garantir um ambiente seguro e focado, parte das interações ocorreu em um grupo fechado (Close Friends) ou perfil específico do projeto, permitindo que a professora monitorasse o progresso e fornecesse feedback personalizado. 
Rodas de conversa: como instrumento de produção de dados, foram realizadas rodas de conversa presenciais. Nesses momentos, os estudantes debateram sobre a experiência, avaliando o impacto das atividades em seu processo de aprendizagem e discutindo sua relação com a rede social.

Os achados da pesquisa 
Os resultados, analisados através da técnica de Análise de Conteúdo, de Laurence Bardin, confirmaram o potencial pedagógico da plataforma. A pesquisa demonstrou que a integração do Instagram às aulas de Língua Espanhola favoreceu a aprendizagem, tornando o conteúdo mais acessível e interessante para os nativos digitais. 
Um dos achados mais interessantes foi o impacto na oralidade. Muitos alunos que se sentiam intimidados em falar espanhol na frente da turma inteira sentiram-se mais confortáveis gravando vídeos em que podiam editar, refazer e controlar a sua autoimagem antes de publicar. A ferramenta serviu como um "palco seguro" para a prática da língua. 
O estudo corroborou os pressupostos da "Educação onLIFE", um conceito que defende a mistura fluida entre os ambientes físicos e digitais. Os alunos relataram que o contato com a língua espanhola deixou de ser algo restrito aos 50 minutos de aula e passou a permear seus momentos de lazer, quando, ao navegar pelo feed, se deparavam com conteúdos do projeto ou interagiam com a professora e colegas. 
Na roda de conversa final, os estudantes destacaram que essa maneira de ensinar uma língua adicional os ajudou a perceber o Instagram como ecossistema de estudo e não apenas de distração. A possibilidade de usar a criatividade para produzir conteúdo em Língua Espanhola gerou um senso de pertencimento e autoria que dificilmente seria alcançado apenas com o livro didático.

Desafios 
A pesquisa também lançou luz sobre os desafios dessa abordagem. A professora Thaynam Santos destacou a questão do tempo de trabalho docente. O gerenciamento de interações em redes sociais exige disciplina para não invadir o tempo pessoal do educador. A autora sugere que haja um controle rigoroso de horários para postagens e avaliações, evitando que a docência online se torne exaustiva. Além disso, a privacidade e a segurança dos dados dos alunos foram preocupações constantes, geridas através de Termos de Consentimento Livre e Esclarecido e autorizações dos responsáveis.

A banca avaliadora

A defesa da dissertação contou com uma banca examinadora composta por especialistas na área de ensino e linguística: 
Profa. Dra. Kári Lúcia Forneck (Orientadora - Universidade do Vale do Taquari) 
Prof. Dr. Derli Juliano Neuenfeldt (Universidade do Vale do Taquari) 
Profa. Dra. Silvana Neumann Martins (Universidade do Vale do Taquari) 
Prof. Dr. Kleber Eckert (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Rio Grande do Sul)

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