Pesquisa, Meio Ambiente

Pesquisa revela como plantações florestais alteram a morfologia de libélulas na Mata Atlântica do Sul do Brasil

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 09/02/2026, 09:30:00

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Atualizado em: 09/02/2026, 13:51:05

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Uma pesquisa desenvolvida no Sul do Brasil acaba de demonstrar que a conversão de florestas nativas em plantações florestais não altera apenas a paisagem, mas também a própria forma dos organismos que nela vivem. O estudo analisou como a morfologia de uma libélula neotropical, a Erythrodiplax castanea, varia entre fragmentos de floresta nativa e áreas de plantios florestais na região da Mata Atlântica subtropical, no Rio Grande do Sul. A investigação foi conduzida pela equipe do professor Eduardo Périco, coordenador do Laboratório de Ecologia e Evolução, vinculada ao Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento – PPGAD da Universidade do Vale do Taquari – Univates, e publicada em 2025 no International Journal of Tropical Insect Science.

Realizado no município de São Francisco de Paula, em áreas da Floresta Nacional de São Francisco de Paula (FLONA/SFP), o trabalho comparou indivíduos adultos da espécie coletados em lagos cercados por Floresta Ombrófila Mista, conhecida como floresta com araucárias, e em lagos situados em áreas de plantações florestais, compostas principalmente por Araucaria angustifolia e espécies de Pinus. O objetivo central foi testar se a estrutura da vegetação e as condições ambientais associadas a esses dois tipos de floresta influenciam o formato do corpo e das asas das libélulas adultas.

A pergunta que orientou o estudo é a seguinte: até que ponto alterações no uso do solo e na cobertura vegetal são capazes de modificar características funcionais de insetos aquáticos, organismos reconhecidos por seu papel-chave no funcionamento dos ecossistemas de água doce? A resposta encontrada pelos pesquisadores reforça a ideia de que a morfologia dos insetos é altamente sensível às mudanças no ambiente e pode funcionar como um indicador dos efeitos da fragmentação e da conversão florestal. Vale lembrar que libélulas são organismos que passam a maior parte de sua vida na água, como larvas.

Os resultados

Os resultados mostraram que indivíduos de Erythrodiplax castanea encontrados em áreas de plantações florestais apresentaram, em média, tórax mais largo e asas anteriores mais longas e com maior razão de aspecto quando comparados aos indivíduos coletados em fragmentos de floresta nativa, mesmo quando o tamanho corporal geral foi controlado estatisticamente. Em outras palavras, libélulas de tamanho semelhante exibiram diferenças claras de forma associadas ao tipo de habitat em que viviam.

Segundo o artigo, “espécimes com tamanhos corporais semelhantes apresentaram valores significativamente maiores de largura do tórax, comprimento da asa anterior e razão de aspecto da asa anterior em plantações do que em floresta ombrófila mista”. Essas diferenças morfológicas, destacam os autores, estão provavelmente relacionadas às variações de microclima e de complexidade estrutural entre os dois tipos de floresta, como níveis de insolação, temperatura, umidade, vento e espaçamento entre árvores.

O estudo se insere em um contexto mais amplo de preocupação com os impactos da conversão de habitats naturais, especialmente em biomas considerados hotspots de biodiversidade, como a Mata Atlântica. Embora as plantações florestais mantenham certa cobertura arbórea, elas diferem substancialmente das florestas nativas em termos de diversidade de espécies, estrutura do sub-bosque e estabilidade microclimática. Essas diferenças podem representar pressões seletivas importantes para organismos que dependem de condições específicas para voar, se reproduzir e regular sua temperatura corporal, como é o caso das libélulas.

O método

As coletas foram realizadas em cinco lagos: dois localizados em áreas de floresta nativa e três em áreas de plantações florestais. As campanhas ocorreram entre janeiro e maio de 2022, período correspondente ao pico e ao final da estação de voo de muitas espécies de libélulas na região. As amostragens foram feitas apenas em dias ensolarados, entre 9h e 16h, quando a atividade desses insetos é mais intensa.

Foram coletados apenas indivíduos machos adultos, de modo a evitar interferências relacionadas ao dimorfismo sexual, comum em Odonata. Ao todo, 16 exemplares foram analisados, oito de cada tipo de floresta, número considerado compatível com estudos anteriores sobre variação morfológica em libélulas. Os insetos foram preservados e depositados na coleção de invertebrados do Museu de Ciências da Univates.

Em laboratório, os pesquisadores mediram uma série de características morfológicas com o auxílio de paquímetro digital de alta precisão. Entre as medidas avaliadas estão o comprimento do abdômen, a largura do tórax, o comprimento e a largura das asas anteriores e posteriores, além de cálculos derivados como área das asas e razão de aspecto, um índice relacionado à forma da asa e ao tipo de voo. Todas as medições foram realizadas de forma padronizada, sempre no lado direito do corpo do inseto.

Macho de Erythrodiplax castanea (espécime vermelho, à direita, na imagem), registrada em Saül, Guiana Francesa

Bernard Dupont - Reprodução Wikimedia Commons

Análise dos dados

Para analisar os dados, o estudo empregou ferramentas estatísticas amplamente utilizadas em estudos morfométricos. Inicialmente, foram examinadas as correlações entre as variáveis medidas. Em seguida, uma análise de componentes principais (PCA) permitiu visualizar como os indivíduos se distribuem no espaço morfológico e se diferenciam entre os tipos de floresta. Os dois primeiros eixos dessa análise explicaram mais de 80% da variação total observada, sendo que o primeiro esteve fortemente associado ao tamanho corporal geral e o segundo destacou diferenças de forma relacionadas ao habitat.

Além disso, os pesquisadores compararam os padrões de covariação entre os traços morfológicos nos dois tipos de floresta, identificando que as áreas de silvicultura (matas plantadas) apresentaram menor variabilidade morfológica, sugerindo uma maior homogeneidade ambiental. Por fim, análises de covariância foram usadas para isolar o efeito do tamanho corporal e identificar diferenças de forma independentes do tamanho.

Essas escolhas metodológicas permitiram aos autores sustentar com consistência a conclusão de que as diferenças observadas não se devem apenas ao fato de alguns indivíduos serem maiores que outros, mas refletem adaptações ou respostas plásticas às condições ambientais específicas de cada tipo de floresta.

Importância dos achados

Do ponto de vista ecológico, os achados são relevantes porque a morfologia das libélulas está diretamente ligada ao desempenho de voo, à termorregulação, à capacidade de dispersão e ao sucesso reprodutivo. Um tórax mais largo, por exemplo, está associado a maior massa muscular, o que pode favorecer voos mais longos ou intensos e a geração de calor corporal em ambientes com maior variação térmica. Asas mais longas e com maior razão de aspecto podem melhorar a eficiência do voo em áreas mais abertas, onde é necessário percorrer maiores distâncias entre pontos de pouso ou recursos.

Em contraste, os indivíduos encontrados na floresta nativa apresentaram valores menores de razão de aspecto das asas, característica associada a voos mais planados e energeticamente econômicos, possivelmente vantajosos em ambientes mais sombreados e estruturalmente complexos. O artigo sugere que, em florestas densas, onde a insolação é reduzida e a temperatura mais estável, estratégias de voo que demandam menos esforço muscular podem ser favorecidas.

Essas interpretações dialogam com estudos anteriores citados pelos autores, que indicam que libélulas de ambientes mais abertos tendem a apresentar asas mais longas e corpos mais robustos, enquanto espécies ou populações de florestas mais preservadas exibem características associadas a maior manobrabilidade e menor gasto energético.

No plano social e ambiental, a pesquisa contribui para o debate sobre o papel das plantações florestais na conservação da biodiversidade. Embora frequentemente apresentadas como alternativas menos impactantes do que outros usos do solo, como agricultura intensiva ou urbanização, as plantações não reproduzem integralmente as condições ecológicas das florestas nativas. O estudo mostra que mesmo organismos relativamente móveis, como libélulas, respondem de forma mensurável a essas diferenças.

Ao revelar que a conversão da floresta nativa está associada a uma redução na variabilidade morfológica dentro das populações, o trabalho levanta questões importantes sobre a resiliência ecológica desses sistemas. Menor diversidade de formas pode significar menor capacidade de resposta a mudanças futuras, como variações climáticas ou novas perturbações ambientais.

Os autores destacam que os resultados devem ser interpretados com cautela, em função do tamanho amostral relativamente pequeno, mas argumentam que os padrões observados são consistentes e biologicamente plausíveis. Eles defendem que a pesquisa amplia o conhecimento sobre como insetos aquáticos respondem a mudanças na estrutura da vegetação em florestas subtropicais sul-americanas, um tema ainda pouco explorado na literatura científica.

Referência

PIRES, Mateus Marques et al. Variation in the morphology of a neotropical dragonfly (Erythrodiplax castanea; Odonata, Libellulidae) in patches of natural forest and tree plantations in Southern Brazil. International Journal of Tropical Insect Science, p. 1-10, 2025. DOI: https://doi.org/10.1007/s42690-025-01538-z.   

 

Glossário de termos científicos

Este glossário reúne e explica, em linguagem acessível, os principais termos científicos utilizados no texto

Abordagem morfométrica
Conjunto de métodos usados para medir e analisar quantitativamente a forma e o tamanho de organismos ou de suas estruturas corporais.

Anisoptera
Subordem da ordem Odonata que inclui as libélulas que caracterizam-se por corpo robusto, voo forte e asas anteriores e posteriores de tamanhos diferentes.

Aspecto da asa (razão de aspecto)
Índice que relaciona o comprimento da asa com sua área. Asas com alta razão de aspecto tendem a ser longas e estreitas, favorecendo voos mais eficientes em ambientes abertos.

Covariância
Medida estatística que indica como duas ou mais variáveis variam em conjunto. No estudo, refere-se a como diferentes traços morfológicos se relacionam entre si.

Ecomorfologia
Área da ecologia que estuda a relação entre a forma dos organismos (morfologia) e suas funções ecológicas, como voo, alimentação e reprodução.

Fenótipo
Conjunto de características observáveis de um organismo, resultantes da interação entre seus genes e o ambiente.

Floresta Ombrófila Mista
Tipo de vegetação da Mata Atlântica subtropical, também conhecida como floresta com araucárias, caracterizada pela presença de Araucaria angustifolia associada a outras espécies arbóreas.

Fragmentação de habitat
Processo pelo qual áreas naturais contínuas são divididas em fragmentos menores e isolados, geralmente em decorrência de atividades humanas.

Habitat
Conjunto de condições ambientais onde uma espécie vive e se desenvolve.

Heliotérmico
Organismo que depende da radiação solar para regular sua temperatura corporal.

Mata Atlântica subtropical
Porção meridional da Mata Atlântica, localizada no Sul do Brasil, com clima mais frio e presença de formações florestais específicas, como a floresta com araucárias.

Microclima
Conjunto de condições climáticas locais, como temperatura, umidade e incidência de luz, que podem diferir do clima regional.

Morfologia
Estudo da forma e da estrutura dos organismos.

Plasticidade fenotípica
Capacidade de um organismo apresentar diferentes características morfológicas ou fisiológicas em resposta às condições ambientais, sem alterações genéticas.

Pressão seletiva
Fator ambiental que favorece determinados indivíduos ou características em detrimento de outros, influenciando a sobrevivência e reprodução.

Termorregulação
Processo pelo qual um organismo controla sua temperatura corporal para manter funções fisiológicas adequadas.

Traços morfológicos
Características mensuráveis da forma do organismo, como comprimento, largura ou área de determinadas estruturas.

Variação intraespecífica
Diferenças observadas entre indivíduos da mesma espécie.

Voo planado
Tipo de voo que exige menor batimento de asas, associado a menor gasto energético.

Zonas ripárias
Áreas localizadas às margens de corpos d’água, importantes para a manutenção da biodiversidade aquática e terrestre.
 

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