Meio Ambiente

Univates coordena dois projetos de restauração ecológica no Vale do Taquari após enchentes históricas

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 10/03/2026, 08:45:00

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Atualizado em: 10/03/2026, 15:34:59

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As enchentes de 2023 e 2024 deixaram cicatrizes no Vale do Taquari, especialmente nas margens dos cursos d’água que atravessam a Região, fundamentais para a estabilidade dos ecossistemas e para a proteção contra erosões. 

Entre os cursos d’água mais afetados está o rio Forqueta, que corta o município de Marques de Souza e se conecta diretamente ao rio Taquari. Em maio de 2024, uma das enchentes mais severas da história recente destruiu boa parte da cobertura vegetal de suas margens, provocando erosões, verticalização dos taludes e a perda da função de contenção natural dos solos. A recuperação dessa área tornou-se prioridade ambiental, mas também social e econômica, já que a região impactada possui ligação direta com a vida da comunidade local.

É nesse contexto que a Universidade do Vale do Taquari – Univates, por meio do Programa de Pós-graduação em Biotecnologia, assume protagonismo. A Instituição, por meio da professora doutora Elisete Maria de Freitas, está responsável pela coordenação de dois projetos complementares voltados à recuperação de um trecho de mata ciliar na margem do rio Forqueta que associa técnicas de restauração ecológica e de engenharia natural. As iniciativas, financiadas por diferentes fontes, aliam ciência, interdisciplinaridade, inovação e compromisso com a recuperação do meio ambiente para enfrentar um dos maiores desafios ambientais recentes da região.

A instituição, por meio dessa equipe, já desenvolveu outros projetos com resultados positivos em outros pontos da região, antes dos eventos de setembro de 2023 e maio de 2024. 

Nas imagens da galeria, diferentes estapas do trabalho desenvolvido até fevereiro de 2026

O primeiro projeto: engenharia natural e restauração como resposta imediata

O primeiro dos projetos, financiado pela Grupo CEEE-Equatorial por meio da Política Pública dos projetos técnicos de Reposição Florestal Obrigatória da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura (SEMA-RS), tem como título “Técnicas de engenharia natural e restauração ecológica em área degradada na margem do Rio Forqueta, Marques de Souza”.

O diagnóstico que embasou a proposta foi crítico: taludes marginais do rio apresentavam elevado grau de degradação, com solo exposto e cobertura vegetal drasticamente reduzida. Em muitos trechos, espécies exóticas invasoras dominavam o cenário, substituindo a vegetação nativa e comprometendo a função ecológica das margens. A situação exigia medidas capazes de conter a erosão e restabelecer a resiliência ambiental.

As técnicas de engenharia natural surgem como alternativa sustentável diante desse quadro. Diferentemente de soluções estruturais, elas utilizam elementos vivos e materiais naturais, como estacas de madeira, rochas, biomantas e o próprio plantio de espécies nativas, para estabilizar o solo e recuperar a função ecológica. A associação dessas técnicas com métodos de restauração ecológica, como o replantio de espécies e a remoção de invasoras, garante que o processo de recuperação não se limite ao controle imediato da erosão, mas avance para a recomposição da biodiversidade e da funcionalidade ambiental.

O objetivo geral é conter os processos erosivos em talude na margem do rio Forqueta, utilizando um conjunto integrado de engenharia natural e restauração ecológica. Entre os objetivos específicos, destacam-se: avaliar a eficácia da engenharia natural na contenção da erosão; testar diferentes metodologias de restauração ecológica, associadas às técnicas de estabilização do solo; compartilhar o conhecimento adquirido com a comunidade regional, gestores e proprietários de terras, visando multiplicar a experiência.

O segundo projeto: ciência aplicada à diversidade da fauna e flora

O segundo projeto aprovado, desta vez no edital FAPERGS 06/2024 – Programa de Pesquisa e Desenvolvimento voltado a desastres climáticos, amplia a abordagem. Seu título, “Efeitos das técnicas de restauração ecológica e engenharia natural na promoção da cobertura vegetal e na diversidade da fauna e da flora na margem do rio Forqueta”, já indica a perspectiva, que é a conter erosões e avaliar como a restauração contribui para o retorno da biodiversidade e para a resiliência ambiental.

Antes mesmo das enchentes, apenas 31,64% das Áreas de Preservação Permanente (APP) ao longo do rio Taquari eram cobertas por floresta nativa. O número já era insuficiente para garantir a proteção contra processos erosivos. Com as destruições de 2023 e 2024, esse percentual caiu ainda mais, segundo estimativas do grupo envolvido, deixando as margens totalmente vulneráveis.

A área escolhida para a intervenção tem extensão de 1.170 metros, localizada na margem direita do rio Forqueta em Marques de Souza. Além da relevância ambiental, trata-se de um espaço de importância social e econômica, já que conecta comunidades vizinhas e integra o cotidiano da população local.

Perguntas de pesquisa

O projeto busca responder a questões importantes para o futuro da restauração ambiental na Região, entre elas: as técnicas aplicadas serão eficientes na contenção da erosão e na promoção da cobertura do solo? A restauração favorecerá o aumento da diversidade de flora e fauna, reduzindo a presença de espécies invasoras? Quais espécies podem ser consideradas indicadoras de restauração ecológica? Quais estratégias podem ser eficazes no controle de espécies exóticas durante o processo de recuperação?

Metodologias inovadoras

Após levantamento topográfico e análises hidrológicas, foram selecionadas as técnicas mais adequadas de engenharia natural. Paralelamente, métodos de restauração ativa estão sendo aplicados, como plantio em núcleos, semeadura de espécies nativas e uso de poleiros artificiais para dispersão natural de sementes. Também há parcelas destinadas à restauração passiva, permitindo a comparação entre diferentes abordagens.

O monitoramento vem sendo contínuo, com análises da cobertura vegetal a cada seis meses e avaliação da fauna em diferentes grupos: polinizadores, formigas, anfíbios, répteis, aves e mamíferos, acompanhamento que permitirá medir resultados imediatos e também compreender como as interações ecológicas evoluem ao longo do tempo no local.

Animais circulando na área recuperada

Divulgação

Resultados esperados

Entre os principais resultados previstos estão: a estabilização dos processos erosivos; formação de uma nova floresta ribeirinha com características funcionais; o retorno da diversidade de flora e fauna, com identificação de espécies indicadoras; a elaboração de um manual técnico detalhado, servindo como guia para replicação em outras áreas; e a divulgação ampla dos métodos e resultados, fortalecendo a educação ambiental e a conscientização comunitária. Além disso, o projeto alinha-se a três Objetivos do Desenvolvimento Sustentável da ONU: Ação contra a mudança climática (ODS 13), Vida na água (ODS 14) e Vida terrestre (ODS 15).

Impactos esperados para a Região

Os projetos têm potencial de gerar múltiplos impactos: na esfera ambiental, com a contenção da erosão, recuperação da biodiversidade e aumento da resiliência dos ecossistemas ribeirinhos; impactos sociais, ao promover maior segurança para comunidades que vivem próximas ao rio e dependem de suas margens para atividades econômicas e de lazer; desdobramentos econômicos, com a valorização das áreas restauradas; redução de prejuízos causados por erosões e inundações, estímulo a novos projetos de recuperação; e científicos, a partir da produção de conhecimento aplicado, publicação de artigos de alto impacto e formação de recursos humanos especializados.

Comparação entre antes e depois da intervenção

Duoteb Engenharia

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