Pesquisa

Boas práticas agrícolas elevam a qualidade do leite no Vale do Taquari e ressaltam a sustentabilidade da produção familiar

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 07/04/2026, 11:30:00

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A aplicação de boas práticas agrícolas (BPA) na produção leiteira tem potencial para transformar a realidade de pequenas propriedades rurais, melhorar a qualidade dos alimentos e fortalecer a segurança alimentar. Essa constatação é reforçada por um estudo realizado em 2022 com 51 unidades de produção leiteira do Vale do Taquari, no Rio Grande do Sul, que avaliou de forma sistemática os efeitos da adoção dessas práticas sobre a qualidade do leite cru refrigerado. Desenvolvida na área das Ciências Agrárias, a pesquisa foi conduzida por Jeferson Aloísio Ströher (UFRGS), com coautoria de Aline Marjana Pavan (Univates), Isaac dos Santos Nunes (UFSM), Anderson Santos de Freitas (USP) e Patrícia da Silva Malheiros (UFRGS), e publicada em 2025 na Revista de Investigación Agraria y Ambiental.

O trabalho foi realizado em propriedades vinculadas a uma agroindústria de laticínios da região e integrou as ações do Plano de Qualificação de Fornecedores de Leite (PCPL), instrumento previsto pela legislação brasileira para promover melhorias contínuas na cadeia produtiva. O objetivo central foi avaliar os efeitos da implementação das boas práticas agrícolas sobre parâmetros microbiológicos e físico-químicos do leite, além de caracterizar o perfil socioeconômico dos produtores envolvidos. A pesquisa parte de um contexto mais amplo: embora o Brasil esteja entre os maiores produtores de leite do mundo, ainda enfrenta desafios significativos relacionados à qualidade e à segurança do produto, especialmente no segmento da agricultura familiar.

O método adotado combinou inspeções técnicas em campo, análises laboratoriais e levantamento de dados socioeconômicos. As 51 propriedades foram visitadas duas vezes ao longo de 2022. A primeira visita ocorreu em janeiro e teve caráter diagnóstico. Nessa etapa, foram coletadas seis amostras de leite cru refrigerado em cada propriedade e aplicadas listas de verificação baseadas na Instrução Normativa nº 77 do Ministério da Agricultura, que estabelece critérios para a adoção de boas práticas agropecuárias. Ao todo, foram avaliados 16 itens relacionados a higiene da ordenha, manejo dos animais, controle de insumos, qualidade da água, bem-estar animal e organização do processo produtivo. Também foram aplicados questionários estruturados para levantar informações sobre escolaridade, estrutura produtiva e condições socioeconômicas das famílias.

A segunda visita, realizada em março de 2022, seguiu o mesmo protocolo metodológico e teve como foco verificar os ajustes implementados pelos produtores após as orientações técnicas recebidas. Durante ambas as visitas, as rotinas de trabalho foram acompanhadas ao longo de um turno completo de ordenha, com inspeções visuais sistemáticas e coleta de amostras de leite enviadas para análise no laboratório da Rede Brasileira de Laboratórios de Controle de Qualidade do Leite, em Lajeado (RS). 

Foram avaliados parâmetros como contagem padrão em placas, contagem de células somáticas, teor de gordura, proteína, lactose, sólidos totais e sólidos não gordurosos, além de testes de acidez, crioscopia, densidade e estabilidade ao alizarol. A análise estatística dos dados foi realizada com o uso do software R, permitindo comparar os resultados obtidos antes e depois da implementação das boas práticas.

Os resultados indicam avanços na qualidade do leite após a adoção das BPA. Um dos dados mais relevantes diz respeito à contagem de células somáticas, indicador diretamente associado à saúde da glândula mamária e à ocorrência de mastite. Na primeira visita, apenas 17,64% das propriedades apresentavam valores dentro do limite estabelecido pela legislação brasileira. Após as melhorias implementadas, esse percentual saltou para 82,35%, com uma redução significativa da média de células somáticas, que caiu de 988 mil para 303 mil células por mililitro. Segundo o estudo, essa redução “representa uma diminuição de mais da metade”, evidenciando o impacto positivo das práticas de higiene e manejo na prevenção da mastite e na qualidade do leite produzido.

A contagem padrão em placas também apresentou melhora. No diagnóstico inicial, apenas quatro produtores atendiam aos padrões legais, e a média geral era superior a 1,2 milhão de unidades formadoras de colônia por mililitro. Na segunda avaliação, a média caiu para cerca de 405 mil unidades, e mais da metade das propriedades passou a cumprir a legislação. Esse indicador reflete diretamente a adoção de rotinas adequadas de limpeza dos equipamentos, higiene da ordenha e resfriamento do leite, aspectos centrais das boas práticas agrícolas.

Além dos parâmetros microbiológicos, o estudo identificou avanços importantes nos aspectos físico-químicos do leite. O teor de gordura aumentou de forma significativa após a implementação das BPA, e houve maior conformidade com os padrões legais de proteína e lactose. Testes utilizados para detectar possíveis adulterações, como a crioscopia, também mostraram evolução. O percentual de propriedades em conformidade com os limites legais passou de 47,05% para 86,27%, reduzindo o risco de adição de água ao produto e reforçando a integridade da cadeia produtiva. A acidez do leite, outro parâmetro sensível à qualidade microbiológica, apresentou aumento do número de amostras dentro dos padrões legais, indicando melhor controle do crescimento microbiano.

A estabilidade do leite, avaliada pelo teste do alizarol, também melhorou após a adoção das práticas recomendadas. Na primeira visita, cerca de 78% das amostras estavam em conformidade com a legislação; na segunda, esse percentual ultrapassou 94%. O estudo destaca que esse teste é uma ferramenta essencial para o controle da qualidade ainda na propriedade, sendo o único procedimento que pode ser realizado pelo transportador antes da coleta, o que reforça sua importância para a tomada de decisão ao longo da cadeia.

No campo do bem-estar animal, os avanços também foram notáveis. O índice de adesão a práticas relacionadas à gestão racional e ao cuidado com os animais passou de 90,2% para 100% entre as visitas. Esse resultado evidencia a atenção crescente dos produtores a aspectos como nutrição, hidratação, conforto e prevenção de doenças. O estudo ressalta, no entanto, que diferentes indicadores respondem em ritmos distintos às mudanças implementadas. Enquanto aspectos ligados à higiene da ordenha e à nutrição animal apresentam respostas mais rápidas, questões ambientais, como qualidade da água, controle integrado de pragas e gestão de resíduos, demandam investimentos e ações de médio e longo prazo.

A caracterização socioeconômica das propriedades revelou um perfil típico da agricultura familiar brasileira, marcado por baixo nível de escolaridade formal, mas também por forte vínculo com a atividade produtiva e crescente adoção de tecnologias apropriadas. Apesar das limitações educacionais, os produtores demonstraram capacidade de incorporar orientações técnicas e ajustar suas rotinas de trabalho quando recebem acompanhamento sistemático. O estudo observa que, mesmo com avanços importantes, ainda persistem práticas inadequadas, como o uso compartilhado de toalhas na secagem das tetas, o que indica a necessidade de continuidade das ações de capacitação.

Do ponto de vista científico, a pesquisa contribui ao demonstrar, com dados empíricos, a efetividade das boas práticas agrícolas na melhoria da qualidade do leite cru refrigerado em sistemas de produção familiar. Na medida em que integra análises microbiológicas, físico-químicas e informações socioeconômicas, o estudo oferece uma visão da produção leiteira regional e assinala a importância de políticas públicas e programas de assistência técnica voltados para a qualificação dos produtores. Os autores destacam que a capacitação técnica contínua e o fortalecimento da assistência rural são elementos-chave para promover a sustentabilidade, a segurança alimentar e a competitividade da produção leiteira familiar.

Socialmente, os resultados têm impacto direto sobre a renda das famílias rurais e sobre a confiança do consumidor. A melhoria da qualidade do leite favorece o cumprimento das exigências legais, reduz perdas ao longo da cadeia e amplia as possibilidades de inserção dos produtores em mercados mais exigentes. 

Referência 

STRÖHER, Jeferson Aloísio; MARJANA PAVAN , Aline; DOS SANTOS, Isaac; SANTOS DE FREITAS, Anderson; DA SILVA MALHEIROS, Patrícia. Interrelación entre las buenas prácticas agrícolas y la calidad de la leche cruda refrigerada:Un estudio en unidades de producción lecheras del valle de Taquari, Brasil. Revista de Investigación Agraria y Ambiental, Colombia,CO, v. 16, n. 2, p. 217–239, 2025. DOI: 10.22490/21456453.8588. Disponível em: https://hemeroteca.unad.edu.co/index.php/riaa/article/view/8588. Acesso em: 7 apr. 2026. 

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