
Bombeiros consomem quase metade das calorias diárias em ultraprocessados, aponta estudo da Univates
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 12/05/2026, 10:15:00
Quem protege vidas todos os dias pode estar, em silêncio, colocando a própria saúde em risco. É o que sugere um estudo realizado pelo curso de Nutrição da Universidade do Vale do Taquari - Univates. A pesquisa analisou o consumo alimentar de bombeiros militares do interior gaúcho e identificou que, em média, 45,6% de toda a energia consumida por esses profissionais vêm de alimentos processados e ultraprocessados (salgadinhos, embutidos, refrigerantes, biscoitos recheados, refeições prontas e congeladas), entre outros produtos industrializados com alta densidade calórica e baixo valor nutricional.
O estudo, publicado em 2024 no periódico científico Journal Health NPEPS, foi conduzido pelo nutricionista e educador físico Guilherme Borges, sob orientação das docentes do curso de Nutrição da Univates. A pesquisa faz parte de um projeto maior intitulado "Consumo alimentar e estado nutricional de bombeiros de uma cidade do interior do Rio Grande do Sul" e é considerada pioneira no estado, dado o número restrito de publicações que investigam os hábitos alimentares dessa categoria profissional específica.
O que foi investigado e por quê importa
Bombeiros militares operam em condições extremas: combate a incêndios, resgates em ambientes hostis, socorro em desastres naturais e situações de risco imediato à vida. Para isso, precisam de força muscular, resistência cardiovascular e capacidade cognitiva elevadas.
O problema é que a rotina desses profissionais frequentemente dificulta uma alimentação adequada. Com pouco tempo para o preparo das refeições e o cansaço acumulado, ambos fazem com que, na prática, muitos bombeiros recorram a opções mais rápidas e acessíveis, justamente os alimentos processados e ultraprocessados.
"O menor tempo para o preparo das refeições, o cansaço devido às escalas exaustivas de trabalho, associados ao pouco tempo de descanso, dificultam uma alimentação adequada e, por vezes, essa categoria de trabalhadores acaba optando por refeições mais práticas", aponta o estudo.
O padrão alimentar não é exclusividade dos bombeiros gaúchos. Nos Estados Unidos, pesquisas com bombeiros identificaram consumo excessivo de sódio e colesterol, comumente presentes em alimentos industrializados. Em Belém, no Pará, um estudo revelou perfil semelhante. No entanto, os dados do Rio Grande do Sul, publicados agora, trazem uma perspectiva inédita sobre a realidade gaúcha, marcada também pelas características da culinária regional, historicamente rica em açúcares e gorduras saturadas.
Como o estudo foi feito
A pesquisa teve a coleta de dados realizada entre março e outubro de 2023, no ambulatório de nutrição da própria Univates. Os participantes eram bombeiros militares atendidos nessa unidade de saúde, todos do sexo masculino, com média de idade de 35 anos.
A amostra foi composta por 14 bombeiros, um número reduzido, que os próprios autores reconhecem como uma limitação do estudo, mas justificado pelo perfil específico da população investigada e por se tratar de dados provenientes de um único quartel. Os prontuários da primeira consulta de cada participante foram analisados, contemplando informações sobre alimentação, rotina de exercícios, dados antropométricos (peso, altura e dobras cutâneas) e nível de atividade física.
Para avaliar o estado nutricional, calculou-se o Índice de Massa Corporal (IMC), classificado conforme os critérios da Organização Mundial da Saúde (OMS). Já a composição corporal, em especial o percentual de gordura corporal, foi estimada por meio de medição de dobras cutâneas em nove regiões do corpo, seguindo os protocolos da Sociedade Internacional para o Avanço da Cineantropometria (ISAK). Para calcular a densidade e o percentual de gordura, utilizou-se a equação de Petroski, validada para adultos brasileiros.
O consumo alimentar foi avaliado a partir do recordatório alimentar de 24 horas, instrumento amplamente usado na nutrição clínica, no qual o participante relata tudo que comeu e bebeu no dia anterior. As informações foram processadas no software de nutrição DietSmart, que permitiu calcular o percentual de calorias provenientes de alimentos processados e ultraprocessados em relação ao total energético consumido.
O nível de atividade física foi aferido com base no Questionário Internacional de Atividade Física (IPAQ), classificando os participantes como muito ativos, moderadamente ativos ou pouco ativos, conforme o tipo e a frequência semanal de exercícios praticados. Para a análise estatística, foram aplicados o Teste Exato de Fisher e o Teste t de Student, com nível de significância de 5%.
O que os números revelaram
Sobrepeso dominante, mas com ressalvas
78,6% dos bombeiros analisados foram classificados com sobrepeso pelo IMC. O índice médio do grupo foi de 26,6 kg/m², ligeiramente acima da faixa de eutrofia (peso adequado), que vai até 24,9 kg/m². O percentual supera amplamente o observado em estudos com bombeiros de outros locais: 52% na Turquia, 42% em Santa Catarina e 48,5% no Espírito Santo.
No entanto, os pesquisadores alertam para uma limitação importante do IMC: o índice não diferencia a massa muscular de massa gorda. Em populações de trabalhadores físicos, como militares, é comum que o excesso de peso pelo IMC reflita, na verdade, maior desenvolvimento muscular, e não necessariamente gordura em excesso. Estudos com militares chineses chegaram à conclusão semelhante, apontando que o IMC superestimou a prevalência de sobrepeso nessas populações.
Essa hipótese é reforçada pelos dados de composição corporal da pesquisa: 42,9% dos bombeiros apresentaram percentual de gordura abaixo da média para a faixa etária, ou seja, quase metade do grupo estava com menos gordura corporal do que a referência, o que seria incomum em pessoas verdadeiramente sedentárias ou com alimentação muito inadequada.
Alimentos ultraprocessados
O consumo médio de 45,6% das calorias diárias provenientes de alimentos processados e ultraprocessados é considerado elevado pelos autores, e reflete uma tendência observada na população brasileira em geral, que consiste na substituição progressiva de alimentos in natura e minimamente processados por produtos industrializados, impulsionada pela facilidade de preparo, alta palatabilidade, baixo custo e fácil armazenamento.
Esses alimentos, porém, são modificados pela indústria e apresentam baixo teor de vitaminas, minerais e fibras. O consumo excessivo e prolongado está associado a um aumento do risco de obesidade, doenças cardiovasculares, hipertensão, diabetes tipo 2, dislipidemias e até alguns tipos de câncer.
A relação com a atividade física
O dado que mais chamou a atenção dos pesquisadores foi a associação estatisticamente significativa entre o consumo de alimentos ultraprocessados e o nível de atividade física dos bombeiros. O teste estatístico mostrou que o percentual de energia proveniente de processados e ultraprocessados foi significativamente mais alto entre os bombeiros moderadamente ativos e pouco ativos (p=0,045) em comparação com o único participante classificado como muito ativo.
Em termos práticos: os bombeiros menos ativos consumiam, proporcionalmente, muito mais alimentos industrializados do que os mais ativos. Entre os pouco ativos, a média chegou a 61,8% das calorias diárias provenientes de ultraprocessados. Entre os moderadamente ativos, 40,1%. O único bombeiro muito ativo registrou apenas 9,3%, uma diferença importante.
Gordura corporal e alimentação
Outro achado foi a associação entre o consumo de ultraprocessados e o percentual de gordura corporal. Os bombeiros classificados com gordura corporal acima da média apresentaram um percentual significativamente maior de calorias provenientes de processados e ultraprocessados (p=0,011) do que aqueles com gordura abaixo da média. A média de consumo de ultraprocessados no grupo com gordura acima da média foi de 55,8% das calorias diárias, um valor muito superior aos 28,2% registrados no grupo com gordura abaixo da média.
Curiosamente, apesar dessas associações, não foi encontrada relação estatisticamente significativa entre o consumo de ultraprocessados e o IMC, o estado nutricional pelo peso e altura o que, para os pesquisadores, reforça a ideia de que o IMC, sozinho, é insuficiente para avaliar a saúde de populações fisicamente ativas como bombeiros.
O perfil dos bombeiros
Dos 14 bombeiros analisados, a maioria (57,1%) foi classificada como moderadamente ativa pelo IPAQ. Apenas um (7,1%) foi considerado muito ativo, e 35,7% foram classificados como pouco ativos. Os dados, combinados com os de consumo alimentar, sugerem que parte significativa do grupo, apesar de exercer uma profissão que demanda preparo físico, não pratica atividades físicas regulares e intensas fora do serviço, o que pode comprometer tanto a saúde a longo prazo quanto o desempenho operacional.
O excesso de peso, mesmo quando parcialmente explicado por massa muscular, representa um fator de risco cardiovascular relevante para os bombeiros. A literatura científica é clara neste ponto ao indicar que profissionais com composição corporal inadequada enfrentam maior sobrecarga cardiovascular durante operações de alto esforço, o que pode levar a complicações graves como morte súbita cardíaca, uma das principais causas de óbito na categoria no Brasil e no mundo.
O que os pesquisadores recomendam
As conclusões do estudo apontam para a necessidade urgente de orientações nutricionais específicas para bombeiros militares do Rio Grande do Sul e, por extensão, de outros estados. Os autores defendem que intervenções nessa área devem considerar não apenas o IMC, mas também a composição corporal, o nível de atividade física e o padrão de consumo alimentar, de forma integrada.
A pesquisa também recomenda que novos estudos sejam realizados com essa população em outros estados brasileiros, para identificar quais fatores exercem maior influência sobre os hábitos alimentares em escala nacional. Estudos com amostras maiores e com recordatórios alimentares de múltiplos dias, não apenas um, como neste trabalho, poderiam fornecer dados ainda mais robustos.
Relevância científica e lacuna preenchida
Há pouquíssimas publicações que abordam especificamente o consumo alimentar e o estado nutricional de bombeiros militares brasileiros, especialmente no Rio Grande do Sul, de forma que a pesquisa preenche uma lacuna importante na área da pesquisa. O estudo foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa com Seres Humanos da Univates (Parecer n. 6.301.296).
A pesquisa foi desenvolvida no curso de Nutrição da Univates, com participação multidisciplinar que incluiu também docentes dos cursos de Enfermagem e Medicina da mesma instituição. O principal autor, Guilherme Borges, é nutricionista e educador físico com especialização em Fisiologia do Exercício e Nutrição Esportiva.
Números em destaque
78,6% dos bombeiros analisados estavam com sobrepeso pelo IMC
45,6% das calorias diárias vinham de alimentos processados e ultraprocessados (média do grupo)
61,8% era o consumo médio de ultraprocessados entre os bombeiros pouco ativos
9,3% era o consumo de ultraprocessados do único bombeiro muito ativo
42,9% dos participantes tinham percentual de gordura abaixo da média
42,9% tinham percentual de gordura acima da média
14 bombeiros compuseram a amostra, todos do sexo masculino, com média de 35 anos
Referência do estudo
Borges, G., Scherer Adami, F., Scherer, A. L., Lohmann, P. M., & Rufatto Conde, S. (2024). Relação do consumo alimentar de processados e ultraprocessados com o estado nutricional de bombeiros/ Relationship of processed and ultra-processed food consumption with the nutritional status of firefighters/ Relación entre el consumo de alimentos procesados y ultraprocesados y el estado nutricional de los bomberos. Journal Health NPEPS, 9(1). https://doi.org/10.30681/2526101012120


