Pesquisa

Ciência climática e políticas públicas são tema de estudo que aponta que eventos extremos podem transformar decisões governamentais

Por Laura Alexandre Correa

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Postado em: 29/04/2026, 08:59:39

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Atualizado em: 29/04/2026, 09:03:32

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As mudanças climáticas, cujos efeitos causam secas prolongadas, enchentes intensas e ondas de calor que estão cada vez mais frequentes, impactam diretamente as populações ao redor do mundo. Diante desse cenário, um novo campo científico ganha destaque: a ciência da atribuição de eventos climáticos extremos às mudanças climáticas. A área busca identificar até que ponto esses eventos estão ligados às ações humanas e como esse conhecimento pode orientar políticas públicas mais eficazes.

Um estudo realizado na Universidade do Vale do Taquari - Univates pelo mestre em Ambiente e Desenvolvimento Pedro Minassa e orientado pela professora Luciana Turatti, intitulado “A integração da ciência da atribuição de eventos climáticos extremos às políticas públicas”, aborda essa relação ainda pouco explorada na literatura científica. A pesquisa aponta caminhos promissores, mas também apresenta desafios que precisam ser enfrentados para que o conhecimento científico seja efetivamente incorporado às decisões governamentais. O estudo foi publicado na revista e-Publica, publicação especializada na área do Direito. 

Ciência da atribuição

A ciência da atribuição se divide em três frentes: a atribuição de eventos, que analisa fenômenos específicos; a atribuição de impactos, que avalia consequências sociais e ambientais; e a atribuição de fontes, que identifica os responsáveis pelas emissões.

A relação entre a ciência da atribuição e a pesquisa se justifica justamente pelo foco do estudo, que é compreender como o conhecimento científico sobre eventos climáticos extremos pode orientar a formulação de políticas públicas. Ao identificar, com base em evidências, o grau de influência das mudanças climáticas sobre eventos como enchentes, secas e ondas de calor, a ciência da atribuição fornece subsídios para a tomada de decisão governamental. Nesse sentido, ela deixa de ser apenas um campo teórico da climatologia e passa a atuar como ferramenta dentro do ciclo de políticas públicas, contribuindo para o planejamento, a prevenção e a adaptação diante dos riscos climáticos. É essa relação entre produção científica e ação política que a pesquisa busca explorar e aprofundar.

Como o estudo foi feito

A pesquisa foi desenvolvida a partir de uma abordagem predominantemente qualitativa, com caráter exploratório e apoio em revisão bibliográfica. Ela integra um percurso mais amplo de investigação: é o segundo de uma série de três artigos resultantes da dissertação “Ciência da atribuição como vetor sociojurídico: produção bibliográfica em ciências sociais e humanas, integração às políticas públicas e repercussões na litigância climática”, construída em um arco dedutivo.

No desenvolvimento do artigo, um dos principais desafios foi a escassez de literatura específica sobre a integração da ciência da atribuição às políticas públicas, sobretudo em língua portuguesa. Por isso, o diálogo foi fundamental, tanto para compreender o estado da arte do debate quanto para construir um enquadramento teórico consistente.

A partir disso, o estudo buscou delimitar e organizar três categorias centrais de análise: os eventos climáticos extremos, a ciência da atribuição e as políticas públicas climáticas, para então examinar de que modo elas se cruzam. O resultado da pesquisa foi a constatação de que a ciência da atribuição já oferece subsídios relevantes para a ação pública, especialmente por qualificar a compreensão dos nexos entre mudanças climáticas, eventos extremos e impactos concretos na vida de indivíduos e da comunidade. Ao mesmo tempo, o estudo mostrou que essa integração ainda não ocorre de forma automática nem linear, dependendo da superação de barreiras institucionais, cognitivas e comunicacionais.

Para o pesquisador Pedro Minassa, a pesquisa é relevante justamente por aproximar campos que, embora intimamente relacionados, ainda dialogam pouco entre si. “Em um contexto em que secas, inundações, ondas de calor e outros eventos extremos vêm se tornando mais frequentes e intensos, a ciência da atribuição oferece uma contribuição importante ao permitir demonstrar, em termos probabilísticos, os vínculos entre esses eventos e as mudanças climáticas induzidas pelo homem, além de ajudar a rastrear os possíveis fatores, atores e impactos”, afirma. 

A ciência como base para decisões públicas

Um dos principais argumentos do estudo é que a ciência da atribuição pode contribuir para a formulação de políticas públicas baseadas em evidências. Ao oferecer dados mais robustos sobre a relação entre mudanças climáticas e eventos extremos, ela permite que gestores públicos tomem decisões mais assertivas.

Isso pode ocorrer em diferentes etapas do ciclo de políticas públicas, desde a identificação de problemas até a implementação e avaliação de ações. Por exemplo, ao demonstrar que uma determinada região está mais propensa a enchentes intensas, como é o que acontece na região do Vale do Taquari, os estudos de atribuição podem orientar investimentos em infraestrutura, planejamento urbano e sistemas de alerta.

Além disso, esses estudos podem ajudar a redefinir prioridades. Diante de recursos limitados, saber quais riscos são mais urgentes ou mais intensos pode fazer a diferença na destinação de verbas públicas.

Outro aspecto relevante é a redução da chamada “inércia institucional”. Uma vez que existem evidências científicas claras sobre determinados riscos, torna-se mais difícil justificar a ausência de ação por parte dos governos.

Aplicações práticas

As possibilidades de aplicação da ciência da atribuição vão além da formulação de políticas gerais. O estudo realizado por Pedro e Luciana destaca seu potencial em áreas específicas, como o planejamento urbano, a gestão de riscos e o desenvolvimento de instrumentos financeiros.

No planejamento urbano, por exemplo, a integração de dados de atribuição pode resultar em cidades mais preparadas para enfrentar eventos extremos, indo da construção de sistemas de drenagem mais eficientes à definição de áreas de risco.

Na área financeira, a atribuição pode contribuir para o desenvolvimento de seguros climáticos mais precisos. Ao estimar probabilidades e impactos, os dados científicos ajudam a definir valores de cobertura e estratégias de prevenção.

Esses instrumentos são especialmente relevantes em contextos de vulnerabilidade, nos quais os impactos dos eventos extremos tendem a ser mais severos.

Limitações e incertezas

Apesar de seu potencial para a compreensão dos impactos das ações humanas no clima, a ciência da atribuição ainda enfrenta limitações. Uma delas é a própria complexidade do sistema climático, que envolve múltiplas variáveis e interações difíceis de isolar, apontam os pesquisadores. Além disso, a disponibilidade de dados varia significativamente entre regiões. 

Há também desafios metodológicos. Nem todos os eventos extremos são igualmente fáceis de modelar, e alguns apresentam maior grau de incerteza. Isso exige cautela na interpretação dos resultados. Outro ponto crítico é a comunicação. A linguagem técnica utilizada nos estudos pode dificultar a compreensão por parte de gestores públicos e da sociedade, limitando seu impacto prático, complementam os autores do estudo.

Desafios políticos e institucionais

A integração entre ciência e políticas públicas não depende apenas de avanços técnicos. Há também barreiras políticas e institucionais que dificultam esse processo. Entre elas, destacam-se a fragmentação das políticas públicas, a falta de coordenação entre diferentes setores e a ausência de planejamento de longo prazo. Em muitos casos, decisões são influenciadas por interesses imediatos, em detrimento de evidências científicas.

Outro desafio é a necessidade de mais participação social. A compreensão pública sobre mudanças climáticas e eventos extremos ainda é limitada, o que reduz a pressão sobre governos para a adoção de medidas mais efetivas.

Caminhos para o futuro

Apesar dos desafios, o estudo aponta que a integração entre ciência da atribuição e políticas públicas é não apenas possível, mas necessária. Para isso, é fundamental fortalecer o diálogo entre cientistas, gestores públicos e sociedade.

Investimentos em pesquisa, melhoria na coleta de dados e desenvolvimento de estratégias de comunicação mais acessíveis são passos importantes nesse processo. Além disso, é preciso avançar na construção de instituições mais preparadas para lidar com a complexidade das mudanças climáticas.

A ciência da atribuição não oferece respostas definitivas, mas fornece ferramentas valiosas para compreender riscos e orientar ações. Em um cenário de crescente instabilidade climática, ignorar esse conhecimento pode significar ampliar vulnerabilidades e custos no futuro.

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