
Cooperação internacional mobiliza especialistas europeus no Vale do Taquari para enfrentar desafios urbanos e ambientais após enchente histórica
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 06/05/2026, 09:30:00
Em um movimento que articula cooperação acadêmico-científica, gestão pública e planejamento territorial, municípios do Vale do Taquari receberam, entre 22 e 24 de abril, uma comitiva internacional vinculada à Universidade do Vale do Taquari - Univates. A visita integra um projeto de pesquisa transnacional que busca compreender, sob uma perspectiva técnico-científica e comparativa, os impactos da enchente de 2024 e, sobretudo, desenvolver diretrizes aplicadas para requalificação urbana, adaptação climática e mitigação de riscos hidrológicos em territórios vulneráveis.
A iniciativa, com apoio financeiro da Fundação Ramboll, da Dinamarca, é conduzida por arquitetos da BAU EN (França), pela Univates, por meio do Escritório Modelo de Arquitetura e Urbanismo (EMAU - Semeia), e por engenheiros especializados em hidrologia e planejamento paisagístico da Henning Larsen (Alemanha). A proposta integra, assim, conhecimento científico, experiência territorial local e inovação arquitetônica, urbanística e paisagística.
Na Univates, o grupo foi recepcionado no dia 22 de abril pelo pró-reitor de Pós-Graduação e Pesquisa, Luis Fernando Saraiva Macedo Timmers, e pela coordenadora de Pesquisa da instituição, professora Luciana Turatti. Os trabalhos são conduzidos pela professora Jamile Weizenmann, coordenadora do EMAU – Semeia e integrante do Grupo de Pesquisa sobre Justiça Ambiental ASAS (Univates/CNPq), vinculado ao Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento (PPGAD). Integram a comitiva internacional a arquiteta Esther de Moraes, radicada em Paris; o urbanista alemão Gerhard Hauber; e o hidrólogo Tassilo Thebe, também da Alemanha.
Durante a agenda, o grupo realizou uma série de visitas técnicas a áreas diretamente afetadas pela enchente de 2024, evento que provocou perdas materiais em grande escala, deslocamento populacional e reconfigurações no uso do solo urbano e periurbano. Foram visitados os municípios de Arroio do Meio, Muçum, Roca Sales, Cruzeiro do Sul, Marques de Souza e Lajeado. Entre os pontos analisados, destacou-se a área do Novo Passo, em Cruzeiro do Sul, destinada à realocação de famílias que tiveram suas moradias destruídas ou comprometidas pela catástrofe. As visitas evidenciaram uma diversidade de situações, desde áreas ainda fortemente impactadas até contextos em processo de reestruturação, com projetos habitacionais em andamento e planejamento de parques urbanos para as regiões.
Em Cruzeiro do Sul, por exemplo, a agenda institucional iniciou no gabinete do Poder Executivo municipal, configurando-se como espaço de interlocução entre gestores públicos e especialistas de diferentes áreas. Participaram o vice-prefeito Carlos Spiekermann e equipes técnicas das áreas de habitação, engenharia e meio ambiente. Em Arroio do Meio, a comitiva foi recebida pelo prefeito Sidnei Eckert, também com a presença de equipes técnicas municipais.
De acordo com Jamile Weizenmann, a iniciativa integra um projeto de pesquisa internacional com duração prevista até dezembro de 2026, estruturado em etapas que incluem diagnóstico, definição de recortes territoriais prioritários e proposição de estratégias aplicadas. “Trata-se de um esforço colaborativo que começa com a escuta e a leitura do território. O diagnóstico das áreas afetadas é fundamental para que possamos desenvolver estratégias para habitação e áreas abertas, como parques, que integrem o desenvolvimento urbano ao convívio com as águas, sempre em diálogo com iniciativas já em curso”, afirma.
A professora Elisete Maria de Freitas, docente da Univates que acompanhou a iniciativa, destaca a relevância da troca internacional: “Estar com a equipe da Ramboll foi uma oportunidade de compartilhar conhecimentos, experiências e também nossos desafios, especialmente os financeiros e de credibilidade. O encontro reforçou a percepção de que estamos no caminho certo e ampliou as possibilidades de avanço na restauração das margens de rios e arroios”, destaca a docente, que desenvolve projetos de restauração das margens na região.
A seleção de um caso piloto, representado por Cruzeiro do Sul, segue protocolos recorrentes em pesquisas aplicadas em planejamento urbano, nos quais a delimitação de um recorte espacial permite maior densidade analítica e a testagem de soluções potencialmente replicáveis. A ênfase em tipologias como habitação e parques urbanos indica uma compreensão ampliada de resiliência, que ultrapassa a infraestrutura convencional e incorpora soluções baseadas na natureza e estratégias de desenho urbano sensível à água.
Outro eixo do projeto é a circulação de conhecimento entre diferentes contextos geográficos e institucionais. Segundo Jamile Weizenmann, a presença de especialistas europeus qualifica a troca de experiências, considerando que países como França e Alemanha possuem trajetória consolidada em gestão de recursos hídricos, planejamento de bacias hidrográficas e adaptação a eventos climáticos extremos. “Essa interlocução amplia o repertório técnico e conceitual, contribuindo tanto para o planejamento de projetos futuros quanto para a formação dos estudantes que atuarão na região”, observa.
Docentes da Univates que integram a equipe de apoio do EMAU participaram das atividades, entre eles Andriele Panosso (Arquitetura e Urbanismo), Gisele Dhein (Psicologia), Sofia Royer Moraes (Engenharias), Elisete Freitas (PPGBiotec) e André Jasper (PPGAD). Também contribuíram a arquiteta e urbanista Izabele Colusso e Larissa Miki Makiyama, com atuação nos projetos dos Planos Diretores municipais, iniciativa para a qual a Universidade presta serviço técnico especializado ao Governo do Estado.
Entre os estudantes, participaram a diplomada do curso de Arquitetura e Urbanismo Ângela Degasperi, atualmente mestranda do PPGAD, e os acadêmicos de Arquitetura e Urbanismo Kauê Pastorio Borges e Carlos Augusto Seibel, além de outros integrantes do EMAU envolvidos desde a concepção do projeto e no diálogo com parceiros institucionais.
Para Ângela Degasperi, a experiência evidenciou o potencial da cooperação internacional na qualificação da pesquisa aplicada: “A troca com especialistas da Alemanha e França amplia nosso repertório técnico e crítico sobre estratégias de adaptação e resiliência frente a eventos extremos. Trata-se de um acesso a abordagens inovadoras e referências internacionais, mas sempre com um olhar integrado sobre o território local, o que fortalece a construção de soluções mais eficazes e contextualizadas”.








