Pesquisa, PPGEnsino

Dissertação mostra como o ChatGPT pode formar, ou enfraquecer, o pensamento autônomo de estudantes de Filosofia

Por Lucas George Wendt

|

Postado em: 28/10/2026, 07:30:00

Compartilhe

Uma dissertação de mestrado defendida no Programa de Pós-Graduação em Ensino da Universidade do Vale do Taquari - Univates investigou como o ensino pela investigação, associado ao uso de Inteligência Artificial (IA), pode contribuir para a autonomia e a emancipação de estudantes do Ensino Médio nas aulas de Filosofia. 

O estudo, intitulado “Ensino de Filosofia pela Investigação no Ensino Médio: promovendo a autonomia e a emancipação com o uso de Inteligência Artificial”, foi conduzido pela professora Tatiana Brum da Silva, sob orientação do prof. Dr. Rogério José Schuck, e teve como campo de pesquisa uma turma de 19 alunos da Escola Estadual de Ensino Médio Gomes Freire de Andrade, no município de Teutônia, na região do Vale do Taquari/RS, entre maio e agosto de 2025. A dissertação foi defendida em fevereiro de 2026.

A pesquisa nasceu de uma pergunta que já não é exclusiva das universidades, mas atravessa hoje qualquer sala de aula do país: o que acontece quando adolescentes recorrem a ferramentas como o ChatGPT para fazer trabalhos escolares? A resposta, segundo o estudo, não é simples nem única. Os dados coletados mostram que a IA pode tanto ampliar a curiosidade e o protagonismo dos estudantes quanto reforçar a passividade intelectual e a dependência tecnológica, ressaltando que o fator decisivo entre um caminho e outro é a forma como a tecnologia é mediada pedagogicamente.

Dima Solomin (Unsplash)

O que motivou o estudo 

Professora de Filosofia há mais de duas décadas, Tatiana Brum da Silva partiu de uma inquietação recorrente entre docentes da área: como tornar acessível e relevante uma disciplina que trabalha com alto grau de abstração, num contexto em que a maioria dos estudantes brasileiros só entra em contato com a Filosofia no Ensino Médio, e de forma pouco aprofundada. A dissertação argumenta que a atitude filosófica – o exercício de questionar o que parece óbvio – tem afinidade natural com a fase da adolescência, marcada pela contestação e pela busca de autonomia. A proposta da pesquisadora foi aproximar essa disposição filosófica do que o educador Pedro Demo chamou de “ensino pela pesquisa”, adaptado, no contexto da Educação Básica, para a expressão “ensino pela investigação”.

A esse arcabouço, a autora somou um desafio contemporâneo: introduzir a Inteligência Artificial como recurso pedagógico nesse percurso investigativo, testando, na prática, se e como a ferramenta pode ser utilizada sem substituir o esforço reflexivo dos estudantes. O estudo foi realizado nas aulas do componente curricular Direitos Humanos e Cidadania, do Novo Ensino Médio, já que a disciplina de Filosofia não constava na grade curricular da turma pesquisada em 2025. A pesquisadora lecionava o próprio componente, o que permitiu observar os estudantes ao longo de todo o processo.

Os participantes do estudo 

A prática pedagógica e a coleta de dados envolveram 19 estudantes (dez meninas e nove meninos, com idade entre 16 e 17 anos), da turma 226, um segundo ano diurno do Novo Ensino Médio. A maioria estuda em escolas públicas desde o primeiro ano do Ensino Médio, sem defasagem escolar, e concilia os estudos com trabalho remunerado, muitos como jovens aprendizes em regime de meio turno. Todos os participantes têm smartphone e acesso à internet doméstica por wi-fi, mas nenhum tinha, à época, plano pago do ChatGPT ou de ferramenta semelhante, um dado relevante para entender o tipo de uso, predominantemente gratuito e superficial, que os jovens fazem dessas tecnologias. Em média, os estudantes relataram passar cerca de seis horas diárias em frente às telas.

A escola onde a pesquisa foi realizada é uma das maiores do Vale do Taquari, com mais de 800 alunos, atendendo majoritariamente famílias de baixa renda ligadas às indústrias calçadista, frigorífica e de laticínios da região, um contexto socioeconômico que a dissertação considera relevante para pensar as desigualdades de acesso às tecnologias digitais.

Como a pesquisa foi conduzida

Metodologicamente, o estudo se define como uma pesquisa qualitativa, de natureza aplicada e caráter exploratório, desenvolvida por meio de uma intervenção pedagógica. Os procedimentos incluíram observação participante e pesquisa bibliográfica e documental, enquanto os instrumentos de coleta foram grupos focais e produções textuais dos próprios estudantes. Para interpretar esse material, a autora empregou a Análise Textual Discursiva (ATD), método proposto pelos pesquisadores brasileiros Roque Moraes e Maria do Carmo Galiazzi, que organiza os dados em categorias emergentes a partir da leitura repetida e da desconstrução dos textos analisados.

A intervenção pedagógica em si, batizada de “Inteligência Artificial, Protagonismo e Autonomia: desafios e possibilidades na construção do conhecimento”, teve dez semanas de duração, entre maio e agosto de 2025, com três aulas semanais de 50 minutos. A estrutura combinou etapas sucessivas: uma contextualização inicial sobre os conceitos de autonomia e protagonismo; uma dinâmica de conversação em pequenos grupos conhecida como World Café, técnica criada por Juanita Brown e David Isaacs em 1995 para estimular o diálogo coletivo; uma demonstração do funcionamento do ChatGPT; e uma atividade com a plataforma “Moral Machine” (A Máquina Moral), ferramenta interativa lançada em 2016 pelo Massachusetts Institute of Technology (MIT) que expõe usuários a dilemas éticos enfrentados por veículos autônomos.

Na sequência, os estudantes passaram por duas etapas de produção textual. Na primeira, usaram um prompt padrão para pedir ao ChatGPT um texto definindo conceitos como emancipação, alienação, autonomia, algoritmos, alucinação de IA, Big Data e Lei Geral de Proteção de Dados (LGPD). Na segunda etapa, após lerem referenciais teóricos sobre o tema, produziram textos autorais próprios, agora fundamentados em leitura crítica, não somente na resposta automatizada da ferramenta. Essa comparação entre as duas produções, uma gerada pela IA e outra elaborada com apoio crítico dos próprios estudantes, tornou-se um dos eixos de análise da dissertação.

O que os dados revelam 

Um dos achados mais expressivos do estudo é justamente essa comparação entre os dois tipos de texto. Segundo a pesquisa, os textos “menos perfeitos” do ponto de vista técnico, aqueles elaborados com mais esforço autoral pelos próprios estudantes, mostraram-se mais densos do ponto de vista reflexivo e crítico do que as respostas prontas fornecidas pela IA. A conclusão da autora é que a qualidade formativa de uma atividade não está na sofisticação do texto final, mas antes no lugar que o estudante ocupa no processo de construção do conhecimento.

Os próprios adolescentes, ao longo dos grupos focais e das produções textuais, demonstraram consciência tanto das potencialidades quanto dos riscos da ferramenta. Entre os desafios listados pelos estudantes estão a dependência excessiva, a chamada “alucinação da IA”, quando o sistema gera respostas incorretas por falhas nos dados ou na programação, o aprofundamento de desigualdades de acesso e o risco de terceirização do pensamento. Um estudante resumiu o problema em linguagem direta:

“A dependência no uso da IA não só causa vício, mas também acaba com o raciocínio lógico da pessoa [...] a dificuldade é que só é utilizada para pegar as respostas prontas, nem sequer leem o que a IA responde, dão o famoso ‘copia e cola’.”

Entre as potencialidades, os estudantes destacaram a personalização do ensino, a possibilidade de identificar lacunas individuais de aprendizagem, a inclusão de alunos com dificuldades específicas e a automatização de tarefas burocráticas dos professores, o que liberaria tempo docente para o acompanhamento mais próximo de cada turma.

Um dos relatos mais marcantes do estudo veio de um estudante que comparou o uso acrítico da IA a uma “esteira de fábrica”:

“Isso também vira que nem uma esteira de fábrica, tipo tá, joguei lá no ChatGPT, fez o trabalho, pronto, vai pro próximo [...] e assim vai indo os trabalhos e deixa muito mais automatizado, que nem se importa mais, só faz.”

A dissertação usa essa metáfora para ilustrar o risco de a produção do conhecimento escolar se transformar em um processo mecânico, esvaziado de sentido formativo, sobretudo diante da sobrecarga de atividades. A grade curricular do 2º ano do Novo Ensino Médio no Rio Grande do Sul soma 14 componentes curriculares simultâneos.

Outros estudantes reconheceram recorrer à ferramenta por “preguiça” ou para “folgar a cabeça”, termos que, segundo a análise da pesquisadora, revelam uma relação instrumental e pragmática com o próprio ato de aprender, motivada em boa parte pelo excesso de tarefas escolares.

O professor como mediador 

Tatiane também discute no trabalho o papel do professor diante da IA. A pesquisa mostra que, longe de tornar a figura docente dispensável, a presença da Inteligência Artificial em sala de aula exige uma reconfiguração dessa função: o professor deixa de ser a principal fonte de informação e passa a atuar como mediador crítico entre o estudante, o conhecimento e a tecnologia. Essa percepção apareceu nas falas dos próprios alunos. Um deles afirmou:

“Os educadores precisam ser capacitados para fazer um consciente uso da IA [...] o professor deve ser o mediador da utilização da IA, podendo criar situações-problema e instigar os alunos a utilizar a Inteligência Artificial como ferramenta.”

Outro estudante observou que o papel docente “também se transforma. Em vez de apenas transmitir conhecimento, eles se tornam guias, usando ferramentas de IA para apoiar os alunos de forma mais individualizada”.

A dissertação sustenta essa leitura com autores como Paulo Freire, para quem o ensino é uma prática dialógica e emancipatória, e Theodor Adorno, cujas reflexões sobre os riscos da “fetichização da técnica” ajudam a interpretar os casos em que a tecnologia é usada de forma acrítica. O pensamento da pesquisadora Lucia Santaella também é mobilizado como recurso para pensar as transformações na produção e circulação da informação provocadas pela cultura digital. A autora descreve o ChatGPT como um “tarefeiro multiperformances”, capaz de produzir respostas discursivas sempre variadas mesmo diante de um mesmo comando, o que alimenta tanto entusiasmo quanto discursos pessimistas sobre a perda do pensamento crítico entre estudantes.

Contexto mais amplo 

A dissertação também situa seus resultados em relação a pesquisas nacionais recentes sobre o uso de IA por estudantes brasileiros. Segundo dados citados no trabalho, provenientes da 15ª edição da pesquisa TIC Educação, do Centro Regional de Estudos para o Desenvolvimento da Sociedade da Informação (Cetic.br), sete em cada dez estudantes do Ensino Médio brasileiro com acesso à internet já utilizam ferramentas de IA generativa, como ChatGPT, Copilot e Gemini, para pesquisas escolares. Apesar dessa disseminação, apenas 32% desses estudantes afirmam ter recebido alguma orientação da escola sobre o uso responsável dessas ferramentas, um dado que assinala, segundo a dissertação, a urgência de práticas pedagógicas como a desenvolvida na pesquisa.

A banca 

A dissertação foi aprovada por banca examinadora composta pelo orientador, prof. Dr. Rogério José Schuck (Universidade do Vale do Taquari - Univates), e pelos avaliadores prof. Dr. Ângelo Samuel Nunes Milhano (Universidade de Évora, Portugal), prof. Dr. Derli Juliano Neuenfeldt (Univates) e profa. Dra. Maria Madalena Dullius (Univates). A defesa ocorreu em 27 de fevereiro de 2026, em Lajeado/RS.

O trabalho integra a linha de pesquisa Ciência, Sociedade e Ensino do Programa de Pós-Graduação em Ensino (PPGEnsino) da Univates, e contou com apoio de bolsa de estudo do Programa de Suporte à Pós-Graduação de Instituições Comunitárias de Educação Superior (Prosuc), vinculado à Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (Capes).

Aaron Burden (Unsplash)

Fique por dentro de tudo o que acontece na Univates. Escolha um dos canais para receber as novidades:

Compartilhe

topo
voltar