
Equoterapia no semiárido baiano mostra impactos positivos no aprendizado de estudantes com autismo
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 24/02/2026, 10:00:00
Uma pesquisa publicada na revista Revista Criar Educação apresenta os resultados de uma experiência educacional baseada na equoterapia com estudantes diagnosticados com Transtorno do Espectro Autista (TEA) no município de Cícero Dantas. O estudo foi desenvolvido pelo pesquisador Felipe Carvalho Castro, com participação do professor da Universidade do Vale do Taquari - Univates José Claudio Del Pino, e discute como o uso do cavalo como recurso terapêutico e pedagógico pode contribuir para o processo de ensino-aprendizagem. O trabalho está vinculado à área de Ensino e resulta de uma experiência realizada na rede municipal de educação local, especialmente no Centro de Equitação e Equoterapia Cicerodantense, estrutura mantida pelo poder público municipal e voltada ao atendimento de estudantes com necessidades educacionais especializadas.
O artigo parte da seguinte pergunta: de que forma a equoterapia pode contribuir para o aprendizado e o desenvolvimento de crianças com TEA? A investigação foi conduzida com base na observação direta das atividades e na análise do funcionamento do centro especializado, localizado na região do semiárido baiano, a cerca de 320 quilômetros de Salvador. Ao longo do estudo, os autores buscam demonstrar que a equoterapia pode atuar como facilitadora da prática educativa, reduzindo níveis de ansiedade e favorecendo maior concentração e foco dos estudantes durante as atividades pedagógicas.

Felipe Carvalho de Castro
Divulgação/Acervo pessoalA equoterapia
A pesquisa destaca que a relação terapêutica entre seres humanos e cavalos possui raízes históricas antigas. Segundo o texto, práticas semelhantes já eram recomendadas desde a Antiguidade por pensadores e médicos, como Hipócrates e Galeno, que observavam benefícios físicos associados à equitação. No contexto contemporâneo, tais processos foram sistematizados e passaram a ser conhecidos como equoterapia, definida no artigo como um método terapêutico e educacional que utiliza o cavalo dentro de uma abordagem interdisciplinar para promover o desenvolvimento biopsicossocial de pessoas com deficiência ou necessidades especiais.
No Brasil, a prática ganhou reconhecimento institucional ao longo das últimas décadas. O estudo lembra que a equoterapia foi reconhecida como método terapêutico pelo Conselho Federal de Medicina em 1997 e passou a integrar iniciativas de reabilitação e inclusão em diferentes regiões do país. Atualmente, existem centenas de centros especializados que oferecem esse tipo de atendimento, reunindo equipes multidisciplinares formadas por profissionais da educação, saúde e equitação.
A realidade de Cícero Dantas (BA)
No caso específico de Cícero Dantas, a implantação da equoterapia na rede municipal de ensino surgiu a partir de debates e estudos realizados por gestores e profissionais da educação preocupados com o atendimento adequado a estudantes com TEA. A iniciativa também contou com a atuação do Centro de Atendimento Educacional Especializado Carmelita Joana dos Santos Menezes, estrutura responsável por organizar e acompanhar as ações de educação inclusiva no município. A partir desse contexto, a equoterapia passou a ser utilizada como estratégia pedagógica complementar, associada ao acompanhamento educacional especializado.
Como o estudo foi feito
O método adotado no estudo baseia-se em um relato de experiência. Os autores realizaram levantamento bibliográfico e documental, além de observações das práticas desenvolvidas no centro de equoterapia. O desenho metodológico inclui a análise de atividades pedagógicas e terapêuticas realizadas com estudantes atendidos pelo programa municipal, bem como o acompanhamento das intervenções realizadas pela equipe multidisciplinar.
O relato de experiência busca compreender como as atividades com cavalos podem contribuir para o desenvolvimento dos estudantes em diferentes dimensões, incluindo aspectos cognitivos, emocionais, motores e sociais. O artigo também discute a importância de políticas públicas voltadas à educação inclusiva e à ampliação do acesso a práticas terapêuticas que favoreçam o aprendizado de estudantes com necessidades específicas.
Os resultados
De acordo com a pesquisa, o cavalo atua como agente cinesioterapêutico. Seu movimento tridimensional, que envolve deslocamentos para frente, para trás, para os lados e também variações verticais, gera estímulos sensoriais capazes de promover integração multissensorial no praticante. Os estímulos, segundo o estudo, contribuem para o desenvolvimento motor e para a ampliação da percepção corporal dos estudantes.
Os autores citam estudos e referências teóricas que sustentam a prática. Outro aspecto analisado na pesquisa envolve as bases teóricas da educação inclusiva e do processo de aprendizagem. O estudo dialoga com autores da área educacional ao destacar que o aprendizado não ocorre apenas por meio de conteúdos escolares tradicionais, mas também através das relações estabelecidas entre o sujeito e os objetos de conhecimento. Nesse contexto, a equoterapia aparece como um ambiente pedagógico alternativo que amplia as possibilidades de aprendizagem.
O artigo também destaca contribuições teóricas relacionadas à psicologia do desenvolvimento e à educação, apontando que diferentes estudantes aprendem de maneiras distintas, o que assinala a importância de práticas pedagógicas que considerem as singularidades dos alunos, especialmente no caso de estudantes com TEA. Nesse sentido, a equoterapia é apresentada como estratégia capaz de favorecer processos educativos mais individualizados.
A equoterapia em Cícero Dantas (BA)
No funcionamento do Centro de Equoterapia de Cícero Dantas, cada estudante passa inicialmente por uma avaliação diagnóstica realizada pela equipe multidisciplinar, processo que busca identificar características individuais, necessidades específicas e potencialidades dos praticantes. Após essa etapa, são definidas as atividades e intervenções adequadas para cada caso.
O acompanhamento ocorre ao longo das sessões, com observação do desempenho dos estudantes nas atividades com os cavalos. A equipe responsável inclui profissionais de diferentes áreas, como educação, fisioterapia, psicologia e fonoaudiologia. Cada especialista atua de acordo com sua área de formação, contribuindo para uma abordagem integrada do desenvolvimento do aluno.
Segundo o estudo, o educador é importantte nesse processo ao acompanhar o desenvolvimento cognitivo e a interação social dos estudantes. O pedagogo participa do planejamento das atividades e auxilia na criação de estratégias que favoreçam o aprendizado durante as sessões de equoterapia. Entre as ações realizadas estão atividades de aproximação entre estudante e cavalo antes da montaria, como cuidados com o animal, escovação e alimentação, que ajudam a construir vínculo e confiança.
O trabalho do fisioterapeuta, por sua vez, envolve a avaliação das condições físicas do estudante, incluindo força muscular, postura e movimentação. Com base nessas observações, são definidas intervenções voltadas ao desenvolvimento motor e à melhora do equilíbrio e da coordenação. Já o psicólogo atua no acompanhamento dos aspectos emocionais e comportamentais, analisando reações e processos cognitivos envolvidos nas atividades terapêuticas.
A atuação conjunta desses profissionais é considerada fundamental pelos autores para o sucesso da prática. O estudo destaca que a avaliação integrada permite compreender de forma mais ampla o desenvolvimento dos estudantes e adaptar as atividades às necessidades individuais de cada um.
Outro ponto abordado no artigo é o uso de instrumentos de acompanhamento e registro das atividades. A equipe multidisciplinar utiliza entrevistas, filmagens, fotografias e fichas de registro das sessões para monitorar o progresso dos estudantes, materiais que permitem avaliar mudanças ao longo do tempo e orientar ajustes nas estratégias de intervenção.
Os registros incluem informações como nome do estudante, data da sessão, nome do cavalo, profissionais envolvidos e local da atividade. O acompanhamento sistemático contribui para a análise do impacto da equoterapia no desenvolvimento dos participantes e para a organização do trabalho pedagógico e terapêutico.
Benefícios da equoterapia
O estudo também apresenta uma série de benefícios associados à prática da equoterapia. Entre eles estão a melhora do equilíbrio e da postura, o desenvolvimento da coordenação motora, o aumento da autoconfiança e da autoestima, além de avanços em aspectos cognitivos como atenção, memória e raciocínio lógico. Segundo o artigo, a prática também pode estimular a linguagem e a comunicação, bem como promover maior integração sensorial.
Além disso, a equoterapia pode ajudar os estudantes a enfrentar medos e desenvolver maior autonomia. As atividades realizadas no ambiente natural do centro de equitação criam um contexto diferente da sala de aula tradicional, permitindo experiências que estimulam a participação ativa dos estudantes.
Os autores ressaltam que a aprendizagem ocorre em múltiplas interações: entre estudante e cavalo, entre os próprios alunos, com profissionais da equipe, com familiares e com o ambiente em que as atividades são realizadas. Esse conjunto de relações amplia o processo educativo e fortalece a construção do conhecimento.
A pesquisa também discute a importância de compreender a educação para além dos espaços formais da escola. O estudo aponta que diferentes ambientes de aprendizagem podem contribuir para o desenvolvimento dos estudantes, especialmente quando há articulação entre práticas pedagógicas e intervenções terapêuticas.
No caso analisado, a criação do Centro de Equoterapia representou uma ampliação das possibilidades de atendimento educacional na rede municipal de ensino. A iniciativa buscou integrar ações pedagógicas, terapêuticas e sociais, oferecendo novas estratégias para o atendimento de estudantes com TEA.
Nas considerações finais, os autores afirmam que a equoterapia se mostrou uma prática capaz de gerar ganhos significativos para os estudantes atendidos no município. O estudo destaca que o ambiente criado no centro contribuiu para a reconstrução do conhecimento e para o desenvolvimento de habilidades por meio de atividades lúdicas e esportivas relacionadas à equitação.
De acordo com o artigo, a proposta pedagógica associada à equoterapia vai além da simples realização de atividades físicas, envolvendo uma abordagem acolhedora e integrada que valoriza as potencialidades individuais dos estudantes. Nesse contexto, a prática contribui para fortalecer a autoestima e ampliar as oportunidades de participação social.
Os autores também observam que a implantação do centro colocou o município em posição de destaque na adoção de práticas pedagógicas inovadoras voltadas à educação inclusiva. Ao mesmo tempo, apontam a necessidade de formação contínua dos profissionais envolvidos e do fortalecimento das políticas públicas voltadas ao atendimento de estudantes com deficiência.
Referência do estudo
CASTRO, Felipe Carvalho; DEL PINO, Jose Claudio. Equoterapia e estudantes com Transtorno do Espectro Autista: uma experiência educativa no semiárido baiano. Criar Educação, v. 13, n. 2, p. 193-207, 2024. DOI: https://doi.org/10.18616/ce.v13i2.8213



