
Falta de água modifica as defesas do tomateiro contra pragas, aponta pesquisa desenvolvida em parceria com a Univates
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 28/10/2026, 07:30:00
Esta pesquisa contém um glossário, ao fim, que explica os termos técnicos empregados no texto, mantidos para fortalecer a precisão conceitual da notícia
A disponibilidade de água influencia a maneira como as plantas respondem ao ataque de pragas. No tomateiro, a relação envolve alterações hormonais e bioquímicas que variam conforme as condições de irrigação e as espécies de herbívoros presentes. Compreender essas respostas pode contribuir para o desenvolvimento de estratégias de manejo agrícola que considerem, simultaneamente, o estresse hídrico e a ocorrência de organismos que se alimentam das plantas.
Um estudo publicado em outubro de 2026 na revista científica Agronomy investigou como a restrição de água interfere nas defesas do tomateiro quando a planta é atacada por diferentes espécies de ácaros e insetos, individualmente ou em combinações. A pesquisa contou com a participação de Wesley Borges Wurlitzer e Noeli Juarez Ferla, vinculados ao Laboratório de Acarologia da Universidade do Vale do Taquari - Univates.
O experimento foi realizado em condições de campo na Universidade Federal de Viçosa (UFV), em Minas Gerais. Os pesquisadores compararam plantas submetidas à irrigação correspondente a 100% da necessidade hídrica estimada da cultura com plantas que receberam 50% dessa quantidade. A umidade gravimétrica do solo foi de 29% no ambiente com maior disponibilidade de água e de 21,1% no ambiente com irrigação reduzida.
Durante sete dias, os tomateiros foram expostos a três herbívoros: os ácaros Tetranychus evansi e Tetranychus urticae e a traça-do-tomateiro (Tuta absoluta). Além dos tratamentos com cada espécie isoladamente, foram avaliadas combinações de duas e três espécies, permitindo observar como a composição da comunidade de herbívoros se relacionava com as respostas da planta.
Os resultados
Os resultados mostraram que a redução da disponibilidade de água esteve associada a maiores concentrações de ácido abscísico, hormônio relacionado à resposta vegetal ao estresse hídrico, e prolina, composto associado ao ajuste osmótico e à proteção celular. Já o ácido jasmônico, envolvido em mecanismos de defesa contra herbívoros, apresentou concentrações geralmente mais elevadas no ambiente com maior disponibilidade de água.
As respostas, entretanto, não seguiram um padrão único. Plantas atacadas pelo ácaro T. urticae sob restrição hídrica apresentaram respostas específicas em diferentes hormônios, incluindo o ácido jasmônico, o ácido salicílico e compostos associados ao crescimento vegetal. A presença simultânea de diferentes herbívoros também esteve relacionada a alterações na atividade de enzimas envolvidas nas defesas bioquímicas.
Entre essas enzimas estão a lipoxigenase, associada ao metabolismo de compostos envolvidos na sinalização de defesa; a polifenol oxidase, que participa de reações capazes de alterar a qualidade nutricional dos tecidos vegetais para os herbívoros; e a atividade inibitória da tripsina, relacionada à capacidade da planta de interferir na digestão de proteínas por determinados organismos.
Em condições de menor disponibilidade de água, a atividade inibitória da tripsina foi geralmente menor nas plantas atacadas simultaneamente pelas três espécies de herbívoros. A polifenol oxidase também apresentou redução em diferentes tratamentos sob restrição hídrica. Os resultados, segundo os pesquisadores, indicam que a resposta defensiva depende da interação entre o ambiente e a composição dos organismos que atacam a planta, e não somente da presença de uma praga específica.
A pesquisa também identificou diferenças nas características dos frutos. As plantas do ambiente com irrigação reduzida produziram, em média, 21,74 frutos por planta, ante 15,14 no ambiente com maior disponibilidade de água. Em contrapartida, os frutos das plantas submetidas à restrição hídrica apresentaram menor diâmetro médio e menor peso: aproximadamente 7,42 cm e 152,5 gramas, respectivamente, comparados a 8,16 cm e 206,1 gramas nas plantas com maior disponibilidade de água.
A proporção de frutos danificados pela broca-do-tomateiro (Neoleucinodes elegantalis) foi semelhante nos dois ambientes: 30,8% nas plantas sob restrição hídrica e 29,3% nas com maior disponibilidade de água. Portanto, apesar das diferenças no número e no tamanho dos frutos, os dados não sustentam a conclusão de que a restrição hídrica tenha aumentado a suscetibilidade proporcional da planta a essa praga.
Os autores observam que os resultados precisam ser interpretados considerando as limitações do experimento. Cada regime de irrigação foi aplicado em apenas um setor de campo, sem repetição independente dos ambientes hídricos. Por isso, as diferenças identificadas devem ser entendidas como contrastes entre os ambientes avaliados, e não como demonstração definitiva de efeitos causais generalizáveis.
Dados da publicação
Título original: Biochemical Defenses of Tomato in Response to Multiple Herbivory Damage Under Contrasting Irrigation Environments.
Autores: Daniel Guimarães Silva Paulo, Julia Renata Schneider, Wesley Borges Wurlitzer, Manuel Antônio Solís Vargas, Fabrício Rainha Ribeiro, Carlos Nick Gomes, Gláucia Cordeiro, Ângelo Pallini Filho, Marcelo Coutinho Picanço, Humberto Josué Oliveira Ramos, Noeli Juarez Ferla e Maria Goreti de Almeida Oliveira.
Vínculo com a Univates: Wesley Borges Wurlitzer e Noeli Juarez Ferla, Laboratório de Acarologia, Tecnovates.
Periódico: Agronomy, volume 16, artigo 2028, 2026.
Publicação: 13 de outubro de 2026.
DOI: 10.3390/agronomy16202028.
Glossário
Ácido abscísico: hormônio vegetal cuja concentração aumenta em resposta ao estresse hídrico, atuando na regulação da planta em condições de falta de água.
Ácido jasmônico: hormônio vegetal envolvido principalmente nos mecanismos de defesa contra o ataque de herbívoros (como insetos e ácaros).
Ácido salicílico: hormônio vegetal que atua em vias de sinalização relacionadas a respostas de defesa da planta contra patógenos e estresses.
Atividade inibitória da tripsina: mecanismo defensivo relacionado à capacidade da planta de interferir na digestão de proteínas por parte de determinados organismos herbívoros.
Lipoxigenase: enzima associada ao metabolismo de compostos envolvidos na sinalização de defesa da planta.
Polifenol oxidase: enzima que participa de reações bioquímicas capazes de alterar a qualidade nutricional dos tecidos vegetais para os herbívoros.
Prolina: composto orgânico (aminoácido) associado ao ajuste osmótico e à proteção celular das plantas sob estresse hídrico.
Tetranychus evansi e Tetranychus urticae: espécies de ácaros fitófagos (pragas) avaliadas no estudo quanto ao ataque ao tomateiro.
Tuta absoluta: espécie de inseto conhecida como a traça-do-tomateiro, cujos danos foram analisados na pesquisa.
Umidade gravimétrica do solo: medida da quantidade de água presente no solo, expressa pela proporção entre o peso da água e o peso da matéria seca do solo.





