
Livro reúne estudos e experiências sobre restauração de florestas ribeirinhas nas margens do rio Taquari
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 17/03/2026, 08:30:00
|Atualizado em: 17/03/2026, 15:30:04
Um novo livro voltado à compreensão e à recuperação de ecossistemas ribeirinhos foi lançado em 2026, reunindo resultados de pesquisas científicas e experiências de campo realizadas ao longo de quatro anos na Bacia Hidrográfica do rio Taquari, no Rio Grande do Sul, vinculadas à Universidade do Vale do Taquari - Univates.
A obra “Restauração ecológica de florestas ribeirinhas: experiências nas margens do rio Taquari e afluentes” foi organizada pela professora Elisete Maria de Freitas, Luana Lermen Becchi, Marcos Vinicius Vizioli Klaus e Fernanda Bruxel e reúne contribuições de diversos pesquisadores, incluindo professores e estudantes atuais e diplomados da Univates, dedicados ao estudo da biodiversidade e da recuperação ambiental.
A obra está disponibilizada em .pdf com acesso livre e estão sendo impressos 200 exemplares para distribuição gratuita para instituições de ensino e pesquisa, bibliotecas, bem como para secretarias ou departamentos de meio ambiente dos municípios.
O livro surge em um momento particularmente sensível para o debate ambiental no Estado. Eventos extremos recentes, incluindo grandes inundações ocorridas em 2023 e 2024, ressaltaram a fragilidade de muitas margens de rios e arroios e demonstraram a necessidade de ampliar ações de restauração ecológica e de planejamento ambiental. Nesse contexto, a publicação busca sistematizar conhecimentos científicos, apresentar resultados de estudos realizados na região e oferecer subsídios técnicos que possam orientar novas iniciativas de recuperação das chamadas florestas ribeirinhas, formações vegetais que acompanham cursos d’água e importantes na manutenção dos ecossistemas e na promoção da resiliência climática.
A obra, que inclui uma das metas de um projeto de pesquisa desenvolvido por meio da Política Pública de Reposição Florestal Obrigatória (RFO) da Secretaria Estadual do Meio Ambiente e Infraestrutura do Rio Grande do Sul (SEMA/RS), foi financiada com recursos da empresa CEEE-Equatorial. A execução do projeto ficou sob responsabilidade da Univates, com coordenação da professora e pesquisadora Elisete Maria de Freitas.
Ao longo de mais de duzentas páginas, o livro reúne capítulos que abordam desde aspectos conceituais e legais relacionados às áreas de preservação permanente até estudos específicos sobre espécies vegetais, fauna e processos ecológicos presentes nas margens do rio Taquari e de seus afluentes. A publicação também apresenta metodologias de restauração, experiências de pesquisa e dados que ajudam a compreender os desafios envolvidos na recuperação desses ambientes naturais.
O contexto da obra
O projeto (Estudo de metodologias de restauração da cobertura vegetal das margens de rios e arroios da Bacia Hidrográfica do rio Taquari) que deu origem ao livro foi desenvolvido entre fevereiro de 2021 e março de 2025. A partir desse trabalho coletivo, pesquisadores buscaram documentar técnicas, registrar observações de campo e reunir informações que possam contribuir para futuros projetos de restauração ecológica no Rio Grande do Sul.
Segundo os organizadores, a recuperação das matas ciliares tornou-se uma prioridade diante do cenário atual de degradação ambiental. Ao longo das últimas décadas, muitas dessas áreas foram ocupadas por atividades urbanas, industriais e agrícolas, o que levou à fragmentação das formações florestais e, em muitos casos, à sua eliminação completa.
Dados apresentados na obra indicam a dimensão desse processo na Bacia do rio Taquari. Informações do projeto MapBiomas apontam que, antes das grandes inundações registradas recentemente no Estado, apenas 31,64% da faixa de Área de Preservação Permanente ao longo de aproximadamente 140 quilômetros do rio era ocupada por floresta ribeirinha preservada. Após os eventos climáticos de 2023 e 2024, a situação tornou-se ainda mais crítica: no final de 2024 restavam apenas 14,53% de mata nativa nas margens do rio.
O cenário assinala, segundo os pesquisadores envolvidos no projeto, a urgência de ações voltadas à restauração ecológica das margens fluviais. A perda de vegetação nesses locais compromete uma série de funções ambientais importantes, como a estabilização do solo, a proteção contra erosão e o controle do assoreamento dos cursos d’água.
As florestas ribeirinhas também são importantes para a manutenção da biodiversidade, pois são ambientes que abrigam grande diversidade de espécies de plantas e animais e funcionam como áreas de abrigo, alimentação e reprodução para diferentes organismos. Além disso, atuam como corredores ecológicos que permitem o deslocamento de espécies e a manutenção do fluxo genético entre populações.
Outro aspecto destacado na obra é o conjunto de serviços ecossistêmicos oferecidos por essas formações vegetais. Entre eles estão a regulação térmica dos cursos d’água, a redução da evaporação, o sequestro de carbono e a retenção de sedimentos, fertilizantes e agrotóxicos que poderiam contaminar rios e arroios. Quando preservadas em faixas largas e contínuas, as florestas ribeirinhas também ajudam a reduzir a força das águas durante os períodos de inundação, diminuindo impactos sobre áreas agrícolas, infraestruturas e comunidades humanas.
Apesar dessa importância ecológica, a degradação desses ambientes tornou-se recorrente em diferentes regiões do país. Nas margens do rio Taquari e de seus afluentes, por exemplo, estudos mostram que o avanço de atividades agrícolas ao longo do tempo contribuiu para a retirada da vegetação nativa e para a exposição do solo, favorecendo processos erosivos e o assoreamento dos cursos d’água.
Os eventos climáticos recentes intensificaram esses problemas. As grandes cheias registradas no Rio Grande do Sul em 2023 e 2024 provocaram deterioração ainda mais acentuada das margens dos rios e agravaram a perda de vegetação ribeirinha. Em muitos pontos, as inundações deixaram taludes expostos e aceleraram processos erosivos, ampliando a vulnerabilidade dos cursos hídricos.
Técnicas sugeridas
Diante desse cenário, a obra apresenta diferentes estratégias que podem ser utilizadas em projetos de restauração ecológica. Entre as técnicas discutidas estão o plantio de mudas de espécies nativas e a semeadura direta que podem ser executadas em área total ou em núcleos, formando nucleações. Esta técnica consiste na criação de pequenos núcleos de vegetação com a associação de espécies de diferentes grupos ecológicos (pioneiras e secundárias). Desta forma, estimulam a regeneração natural.
A aplicação da técnicas, no entanto, envolve desafios, que o livro destaca, dentre os quais o controle de espécies exóticas invasoras, a escassez de mudas e de sementes de plantas nativas, a presença de animais domésticos em áreas em recuperação e os elevados custos operacionais de projetos de restauração. A limitação de recursos financeiros e humanos também aparece como um fator que dificulta a implementação de iniciativas em maior escala.
Outro ponto abordado pelos autores é a necessidade de ampliar a capacitação técnica e a integração entre instituições envolvidas com a gestão ambiental, já que a falta de formação especializada e a ausência de articulação entre diferentes setores podem comprometer a eficácia de programas de restauração ecológica.
Nesse sentido, o livro também enfatiza a importância da participação da sociedade nos processos de recuperação ambiental. A restauração de florestas ribeirinhas, segundo os organizadores, depende da atuação conjunta de diferentes atores, incluindo governos municipais, estaduais e federal, instituições de pesquisa, iniciativa privada e comunidades locais.
Interdisciplinaridade
A educação ambiental aparece com centralidade no processo de recuperação, uma vez que ampliar o conhecimento da população sobre o papel das matas ciliares e sobre a relação entre conservação ambiental e qualidade de vida é considerado um passo importante para promover mudanças de comportamento e fortalecer a proteção desses ecossistemas.
O livro também traz contribuições de diferentes áreas do conhecimento, refletindo o caráter interdisciplinar do tema. Os capítulos abordam aspectos botânicos, ecológicos, jurídicos e ambientais relacionados às florestas ribeirinhas, além de apresentar registros de espécies vegetais e animais associados a esses ambientes.
Entre os conteúdos apresentados estão a descrição de espécies arbóreas e arbustivas nativas das margens do rio Taquari, registros de fungos macroscópicos e estudos sobre aves e mamíferos presentes nesses ambientes com o intuito de ampliar o conhecimento sobre a biodiversidade das florestas ribeirinhas da Região. Também apresenta análises de processos ecológicos, como a chamada “chuva de sementes”, que influencia a regeneração natural da vegetação.
A obra também dedica capítulos específicos para divulgar espécies vegetais consideradas relevantes para uso em projetos de recuperação ambiental. Entre elas estão plantas pioneiras, importantes na regeneração de áreas degradadas, e espécies adaptadas a ambientes inundáveis, capazes de contribuir para a estabilização das margens dos rios.
Além de reunir informações científicas, a publicação pretende estimular reflexões sobre o futuro dos ecossistemas fluviais e sobre a relação entre sociedade e natureza. Para os organizadores, restaurar as florestas ribeirinhas não é apenas uma tarefa técnica, mas também um compromisso ético com a conservação da biodiversidade e com a proteção dos recursos naturais.
A expectativa dos organizadores é que o material sirva como referência para pesquisadores, gestores públicos, estudantes e profissionais envolvidos com a área ambiental.


