Pesquisa, Saúde

Pesquisa identifica os principais preditores do burnout em líderes organizacionais no Brasil

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 26/05/2026, 09:00:00

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Líderes que sistematicamente precisam expressar emoções que não correspondem ao que realmente sentem enfrentam um risco significativamente maior de desenvolver a Síndrome de Burnout, quadro de esgotamento crônico relacionado ao trabalho que afeta não apenas sua saúde psicológica, mas também a dinâmica das equipes que gerenciam.

Essa é uma das principais conclusões de estudo publicado em 2025 na Revista Psicología de la Salud, conduzido pela pesquisadora Michelle Taube, do Curso de Psicologia da Universidade do Vale do Taquari - Univates, em parceria com a professora Mary Sandra Carlotto, do Programa de Pós-graduação em Psicologia Social, do Trabalho e Organizacional da Universidade de Brasília (UnB).

A pesquisa, financiada com bolsa de doutorado da Coordenação de Aperfeiçoamento de Pessoal de Nível Superior (CAPES), investigou uma amostra de 244 trabalhadores ocupantes de cargos de liderança, buscando identificar quais dimensões do trabalho emocional, da inteligência emocional e dos conflitos no trabalho possuem maior poder preditivo sobre as diferentes dimensões do burnout.
 

Professora Michelle Taube

Antonio Luiz Marini Marchi

Um fenômeno global com impactos que transcendem o indivíduo

A Síndrome de Burnout não é um problema recente. Sua conceituação remonta à década de 1970, mas sua persistência, e, nas últimas décadas, sua intensificação, reflete as transformações estruturais aceleradas do mundo do trabalho contemporâneo. A Organização Mundial da Saúde reconheceu formalmente essa urgência em 2019, ao incluir o burnout na 11ª Revisão da Classificação Internacional de Doenças (CID-11), caracterizando-o como fenômeno exclusivamente vinculado ao contexto ocupacional, decorrente de estressores psicossociais persistentes nas organizações.

O quadro, conforme consolidado pela literatura científica e pelo modelo teórico adotado no estudo, se manifesta em quatro dimensões distintas e progressivas: a ilusão pelo trabalho, que corresponde ao desejo do trabalhador de alcançar suas metas profissionais e percebê-las como fonte de satisfação pessoal; o desgaste psíquico, marcado pelo esgotamento emocional e físico associado ao contato direto com pessoas vistas como problemáticas; a indolência, caracterizada por atitudes de indiferença e distanciamento nas relações de trabalho; e a culpa, que emerge quando o profissional percebe que seus comportamentos negativos contradizem os padrões éticos e sociais esperados de sua função.

O impacto do burnout não se restringe ao sofrimento individual. Como evidencia o estudo, o fenômeno afeta o desempenho, a criatividade e a capacidade de inovação das organizações, amplia o absenteísmo e contribui para o aumento de acidentes e enfermidades físicas e mentais. Quando o profissional afetado ocupa uma posição de liderança, os efeitos se tornam ainda mais abrangentes: o esgotamento do líder tende a se propagar, por mecanismos de contágio emocional e deterioração do clima organizacional, às equipes que coordena, comprometendo o funcionamento coletivo e a saúde de seus subordinados.

Líderes sob pressão

A escolha por investigar trabalhadores em cargos de liderança não é arbitrária. A pesquisa parte do reconhecimento de que liderar implica exposição a demandas emocionais particularmente intensas e, muitas vezes, contraditórias. O líder é simultaneamente gestor de resultados, mediador de conflitos interpessoais, figura de referência simbólica para a equipe e responsável pela tomada de decisões em cenários frequentemente marcados pela incerteza.

Nos termos articulados pelo estudo, as emoções constituem uma dimensão central da experiência da liderança, na qual as tarefas e demandas interpessoais enfrentadas pelos líderes surgem, via de regra, em contextos carregados emocionalmente, nos quais a regulação e a expressão dos afetos não são apenas consequências, mas instrumentos do exercício do poder. Líderes gerenciam as emoções de outros, e frequentemente precisam exibir publicamente sentimentos de confiança e otimismo ainda que compartilhem, em sua vida interior, as mesmas ansiedades de seus liderados. Encobrir sentimentos negativos como estratégia de preservação do profissionalismo é, segundo a literatura revisada na pesquisa, uma prática comum entre gestores, com um preço alto.

O contexto pandêmico, que coincidiu com o período de coleta de dados da pesquisa (julho a novembro de 2021), funcionou como amplificador dessas vulnerabilidades. Durante a crise sanitária, os líderes estiveram sob pressão para tomar decisões em cenários instáveis e incertos, muitas vezes conduzindo suas equipes remotamente, enquanto gerenciavam suas próprias inseguranças pessoais e as demandas crescentes de seus subordinados. A maioria dos participantes da pesquisa, vale destacar, trabalhou de forma presencial durante a pandemia, contexto que, segundo as autoras, intensificou a interação relacional e a necessidade de negociação e decisões emergenciais.

Como o estudo foi conduzido

A pesquisa adotou delineamento quantitativo, transversal, observacional e analítico, com uma amostra constituída por 244 trabalhadores em cargos de liderança, recrutados por meio de organizações diversas, sindicatos, universidades, associações e instituições, e redes sociais, com emprego da técnica de bola de neve. O questionário foi disponibilizado na plataforma Survey Monkey, e a participação foi formalizada mediante consentimento livre e esclarecido.

O perfil da amostra é revelador das dinâmicas do universo corporativo brasileiro: a maioria dos participantes era do sexo masculino (55,7%), com companheiro ou companheira (90,5%) e com filhos (71,9%), com idade média de 41 anos e alta escolaridade, 93,7% possuíam formação em nível de graduação ou pós-graduação. A carga horária semanal média de trabalho alcançou 44,52 horas, com valores máximos de até 98 horas semanais. A maior parte atuava em empresas privadas (85,8%) e mantinha vínculo empregatício efetivo (68,8%). A composição hierárquica da amostra abrangeu três perfis: lideranças estratégicas, como diretores, CEOs e presidentes (23,7%); lideranças intermediárias, como gerentes de área e regionais (47,4%); e lideranças técnico-operacionais, como coordenadores e supervisores (28,9%).

Para mensurar as variáveis de interesse, o estudo utilizou um conjunto de instrumentos validados internacionalmente. A Síndrome de Burnout foi avaliada por meio do Cuestionario para la Evaluación del Síndrome de Quemarse por el Trabajo (CESQT), de Gil-Monte (2005), em sua versão adaptada para o Brasil. O trabalho emocional foi operacionalizado por duas subescalas: uma dedicada às Demandas Emocionais e outra à Dissonância Emocional. A inteligência emocional foi mensurada por instrumento construído por pesquisadores (1999), contemplando cinco dimensões: autoconsciência, automotivação, autocontrole, empatia e sociabilidade. Os conflitos no trabalho foram investigados por meio da Escala de Conflito Triplo (3IC), que diferencia o conflito emocional com foco na tarefa e o conflito emocional com foco no relacionamento.

A análise estatística baseou-se em Regressão Linear Múltipla, pelo método Stepwise, com nível de confiança de 95%.

O que os dados revelam

O achado mais expressivo da pesquisa diz respeito ao papel da dissonância emocional como preditor consistente das quatro dimensões do burnout. A dissonância emocional, definida como o conflito entre as emoções genuinamente vivenciadas pelo trabalhador e as emoções que ele se vê obrigado a expressar em função de normas e expectativas organizacionais, aparece como variável preditora tanto do desgaste psíquico quanto da indolência, da culpa e, inversamente, da ilusão pelo trabalho. Trata-se, portanto, de um mecanismo central no processo de adoecimento psicológico dos líderes, conforme apontam as pesquisadoras.

Os resultados quantitativos sustentam a leitura com precisão, pois o conjunto de variáveis preditoras explicou 36% da variabilidade do desgaste psíquico, o maior índice de poder explicativo entre as quatro dimensões, sendo que tanto a dissonância emocional quanto as demandas emocionais atuaram como preditores positivos desse desgaste, enquanto a automotivação funcionou como fator de proteção. Para a dimensão de culpa, o modelo explicou 19% da variância, com a dissonância emocional como preditor positivo e a automotivação e o autocontrole como variáveis protetoras. A dimensão de indolência, com 29% de variância explicada, revelou que o afastamento emocional e comportamental se eleva com a dissonância e com o conflito de relacionamento, sendo atenuado por níveis mais elevados de autocontrole e sociabilidade.

Na dimensão de ilusão pelo trabalho que, ao contrário das demais, é inversamente associada ao burnout, ou seja, sua redução sinaliza o aprofundamento do quadro, o modelo com 26% de variância explicada identificou a automotivação, a sociabilidade e o conflito emocional com foco na tarefa como fatores que elevam esse sentimento de realização profissional, enquanto a dissonância emocional contribui para sua erosão.

Inteligência emocional como ferramenta

Se a dissonância emocional aparece como o principal vetor de risco, as dimensões da inteligência emocional emergem, com nuances importantes, como recursos protetivos. Não, porém, de modo indiferenciado, uma vez que cada dimensão do burnout responde a competências emocionais distintas, o que revela a complexidade da relação entre regulação emocional e saúde ocupacional.

A automotivação, capacidade de construir metas próprias de forma persistente, resistente e entusiasta, mostrou-se protetiva contra o desgaste psíquico, a culpa e, positivamente, associada à manutenção da ilusão pelo trabalho. Esse resultado faz sentido, segundo as pesquisadoras, pois a capacidade de permanecer orientado por objetivos próprios, mesmo diante de adversidades, parece oferecer aos líderes um amortecimento psicológico frente às pressões do ambiente organizacional.

A sociabilidade, entendida como a capacidade de iniciar e manter relações sociais positivas, adaptar-se a situações novas e disseminar afetos construtivos, revelou-se protetiva contra a indolência e associada ao incremento da ilusão pelo trabalho. Líderes com maior sociabilidade, segundo as pesquisadoras, estariam mais capacitados para manejar os estressores interpessoais inerentes à função, transformando o contato com outros em fonte de realização e não de distanciamento.

O autocontrole, por sua vez, funcionou como fator de proteção tanto contra a indolência quanto contra a culpa, sugerindo que a capacidade de regular impulsos, reinterpretar situações adversas e adiar reações impulsivas em prol de objetivos de longo prazo confere aos líderes maior resiliência frente às cobranças sociais que incidem sobre seu papel profissional.

A pandemia

Embora o desenho transversal do estudo não permita estabelecer relações de causalidade, as autoras sublinham que os dados foram coletados durante um dos períodos de maior pressão sobre os trabalhadores em posição de liderança no Brasil recente. Os percentuais de líderes com níveis críticos de burnout encontrados na pesquisa foram superiores aos registrados em estudos anteriores com professores, psicólogos e bombeiros, categorias profissionais historicamente identificadas com alto risco de esgotamento.

O dado, assim, estabelecem as pesquisadoras, pode não ser dissociado do contexto pandêmico, pois a emergência sanitária, econômica e social impôs a praticamente todas as categorias profissionais brasileiras um incremento dos estressores ocupacionais, Nela, os líderes ocuparam uma posição particularmente vulnerável, pressionados a tomar decisões em cenários de incerteza radical, a gerenciar as inseguranças de suas equipes e a manter, ao mesmo tempo, uma postura pública de confiança e controle. A pesquisa registra, a propósito, que 68,4% dos participantes trabalharam presencialmente durante a pandemia, circunstância que, ao intensificar a exposição relacional, provavelmente potencializou tanto as demandas emocionais quanto os conflitos interpessoais.

Implicações e perspectivas

Os resultados da pesquisa não se esgotam em sua contribuição ao debate científico. Eles interpelam diretamente gestores, profissionais de Recursos Humanos e organizações, sugerindo que o enfrentamento eficaz do burnout em contextos de liderança exige atenção às dimensões emocionais do trabalho, e não apenas a reformas estruturais nos processos e cargas de trabalho.

As autoras recomendam capacitações voltadas para a gestão de emoções, o manejo construtivo de conflitos e o desenvolvimento de habilidades sociais como estratégias de prevenção do burnout. Subjacente a essa recomendação está uma leitura que merece ser explicitada: organizações que constrangem sistematicamente seus líderes a suprimir emoções genuínas, seja por cultura corporativa, seja por pressões hierárquicas implícitas, estão, na prática, produzindo as condições para o adoecimento daqueles a quem delegam a responsabilidade de conduzir pessoas e processos.

Do ponto de vista da agenda científica, as pesquisadoras apontam para a necessidade de estudos longitudinais mistos, com múltiplas fontes de dados, capazes de capturar a dimensão processual e temporal do desenvolvimento do burnout em líderes, superando as limitações inerentes ao delineamento transversal adotado nesta investigação. Indicam também a pertinência de pesquisas com amostras estratificadas por setor de atividade, nível hierárquico e região do país, de modo a contemplar as especificidades culturais e estruturais que modulam a experiência emocional do trabalho de liderança no Brasil. Ainda, o estudo obteve validade estatística que prevê que o descrito acima não se refere somente aos pesquisados, mas que os dados podem ser observados em qualquer trabalhador que ocupe uma função de liderança.

Referência da pesquisa

TAUBE, Michelle Engers; CARLOTTO, Mary Sandra. Predictors of Burnout Syndrome in leaders in an organizational context. Revista de Psicología de la Salud, v. 13, n. 1, 2025. DOI: https://doi.org/10.21134/pssa.v13i1.12. Acesso em: 20 maio 2026.

 

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