Saúde, Pesquisa

Pesquisa revela que 69% das mulheres com 50 anos ou mais têm alterações intestinais detectadas pela colonoscopia no Vale do Taquari

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 17/06/2026, 12:30:00

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Uma em cada três mulheres acima dos 50 anos que se submeteu à colonoscopia em um serviço de gastroenterologia no interior do Rio Grande do Sul não apresentou qualquer alteração no exame. Mas as outras duas, a maioria, portanto, tiveram algum achado patológico. Esse é um dos dados centrais de um estudo publicado em maio de 2026 no Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, conduzido por pesquisadoras da Universidade do Vale do Taquari - Univates, em Lajeado/RS.

A pesquisa, de autoria da acadêmica de Medicina Ana Carolina Becker e da professora Adriane Pozzobon, analisou retrospectivamente os prontuários de 171 mulheres entre 50 e 79 anos atendidas no ambulatório de especialidades médicas da Instituição entre junho de 2023 e julho de 2024. O objetivo era mapear os achados colonoscópicos nessa faixa etária, correlacionando-os com os sintomas relatados e as indicações que motivaram a realização do exame.

Os resultados sugerem o que especialistas em oncologia e gastroenterologia já defendem há décadas: o fato de que a colonoscopia, realizada de forma regular após os 50 anos, é uma ferramenta decisiva na prevenção do câncer colorretal, a terceira neoplasia mais incidente no Brasil.

O exame e seu papel preventivo

A colonoscopia é um procedimento endoscópico que permite a visualização direta do intestino grosso, incluindo o reto, o cólon e o íleo terminal. Realizado sob sedação, o exame utiliza um equipamento flexível dotado de câmera e fonte de luz. Além do diagnóstico, ele permite intervenções terapêuticas imediatas, como a remoção de pólipos, procedimento chamado polipectomia, o controle de sangramentos e a descompressão de torções intestinais.

Reconhecida como o padrão-ouro na avaliação do trato colorretal, a colonoscopia é indicada tanto para rastreamento preventivo quanto para a investigação de sintomas como dor abdominal, sangramento retal, alterações no hábito intestinal e histórico familiar de câncer. Seu papel na detecção precoce do câncer colorretal é amplamente documentado na literatura científica mundial.

No Brasil, o câncer colorretal representa a segunda ou terceira neoplasia maligna mais frequente nas regiões Sul e Sudeste, que juntas concentram cerca de 70% dos casos nacionais. Segundo o Instituto Nacional de Câncer (INCA), a estimativa para o período de 2023 a 2025 é de 45.630 novos casos por ano, sendo 23.660 em mulheres, o que corresponde a um risco de 21,10 casos para cada 100 mil habitantes do sexo feminino.

O perfil das participantes

A amostra analisada pelo estudo realizado na Univates é composta por mulheres com média de idade de 63 anos e índice de massa corporal (IMC) indicando sobrepeso. A comorbidade mais prevalente entre as participantes foi a hipertensão arterial, presente em 59,1%. Em seguida aparecem: dislipidemia (26,3%), transtornos de humor (24%) e doenças da tireoide (15,2%). 

Com o envelhecimento, a prevalência de condições crônicas como hipertensão e dislipidemia aumenta progressivamente, o que é consistente com os dados do Vigitel Brasil 2021, o sistema de monitoramento de fatores de risco e proteção para doenças crônicas do Ministério da Saúde.

Há, ainda, um contexto hormonal relevante, pois a escolha de incluir apenas mulheres com 50 anos ou mais foi baseada em evidências que situam nesta faixa etária a média de ocorrência da menopausa natural entre brasileiras. A menopausa, com suas mudanças hormonais, está associada ao aumento do risco de câncer de mama e colorretal e também a alterações no funcionamento intestinal. Um estudo de referência na área mostrou que 38% das mulheres na pós-menopausa relatam sintomas intestinais, em comparação com apenas 14% das mulheres na pré-menopausa.

Por que as mulheres fizeram o exame?

A principal razão registrada para a realização da colonoscopia foi o rastreamento do câncer colorretal, correspondendo a 42,7% das indicações. Em segundo lugar, 15,8% dos casos tinham a indicação de “rastreio não especificado no prontuário”. A necessidade de acompanhamento após polipectomia prévia motivou 8,8% dos exames.

Outras indicações incluem: histórico familiar de câncer colorretal (5,3%), sangue oculto nas fezes (4,7%), alteração dos hábitos intestinais (3,5%), diarreia (3,5%), dor abdominal (2,3%), constipação (1,8%) e sangramento retal (1,8%).

A predominância do rastreamento como motivação principal dialoga diretamente com as recomendações das diretrizes nacionais e internacionais de saúde, que preconizam a realização periódica do exame a partir dos 50 anos ou antes, conforme fatores de risco individuais. O dado sugere que, ao menos entre as mulheres que chegaram ao serviço avaliado, há uma consciência crescente sobre a importância da detecção precoce do câncer.

O que o exame revelou: diverticulose, pólipos e mais

Ao analisar os laudos, as pesquisadoras identificaram alterações em 69% dos casos. Apenas 54 exames (30,9%) foram considerados normais. As patologias mais frequentes foram a diverticulose e os pólipos, isolados ou em associação. Juntas, essas condições corresponderam a 60,5% de todos os laudos analisados.

A diverticulose é uma condição caracterizada pela presença de pequenas bolsas (divertículos) formadas por herniações da parede intestinal em pontos de fragilidade do músculo do cólon, identificada isoladamente em 31 casos (18,2%). Outros 30 laudos (17,6%) registraram a combinação de diverticulose com algum tipo de pólipo.

Em relação aos pólipos, os classificados como sésseis, aqueles sem pedículo, de base plana, foram encontrados em 26 pacientes (15,3%). Pólipos adenomatosos e/ou lesões de crescimento lateral foram registrados em 9 casos (5,3%). Quanto à localização das alterações, o cólon sigmoide foi o sítio mais afetado, concentrando 30,3% dos achados, o que é consistente com achados de outros estudos nacionais que também identificaram predominância de lesões nas regiões distais do intestino grosso.

Pólipos: tamanho, tipo e risco de câncer

Entre os 96 pólipos identificados na amostra, o tamanho médio foi de 9,71 mm com variação de 2 a 60 mm, mostras encaminhadas para análise histopatológica (biópsia), 62,2% apresentaram adenoma tubular, um tipo de displasia de baixo grau. Pólipos hiperplásicos foram encontrados em 22,2% dos casos. O adenoma túbulo-viloso e a lesão séssil serrilhada foram relatados em 2,2% dos casos, sendo que essas estruturas representam lesões com potencial de transformação em câncer. 

Esses achados têm implicações clínicas. Os adenomas colorretais são considerados lesões pré-malignas, com potencial de evolução para câncer por meio da chamada “sequência adenoma-carcinoma”, processo que, em geral, ocorre ao longo de 7 a 10 anos. O risco de malignização aumenta com o tamanho do pólipo, a presença de displasia de alto grau e o padrão histológico viloso. Adenomas pediculados com menos de 1 cm têm risco de câncer inferior a 1%, enquanto adenomas vilosos maiores que 2 cm podem apresentar risco de malignidade superior a 35%.

Embora apenas 5,3% dos pólipos da amostra tenham sido classificados como adenomatosos, valor inferior ao de outros estudos de referência, as pesquisadoras ressaltam que essa diferença pode estar relacionada a peculiaridades da amostra regional, critérios de encaminhamento e métodos de análise utilizados. Um estudo de 2023 com mais de 53 mil colonoscopias, por exemplo, identificou taxa de detecção de adenomas de 13,85% especificamente nas mulheres. De todo modo, a remoção endoscópica desses pólipos durante o próprio exame é reconhecida como uma das estratégias mais eficazes de prevenção do câncer colorretal, contribuindo para a redução de sua incidência e mortalidade.

A diverticulose no contexto do envelhecimento e da obesidade

A diverticulose merece atenção especial neste estudo, pois foi o achado mais prevalente, muitas vezes associado a outros. Trata-se de uma condição que tende a ser assintomática em seus estágios iniciais, o que assinala o valor do diagnóstico incidental durante a colonoscopia.

Estudos nos Estados Unidos mostram que a prevalência de diverticulose sobe de menos de 20% entre os 40 anos para cerca de 60% entre os 60 anos, um padrão progressivo, diretamente ligado ao envelhecimento. No Brasil, uma pesquisa com 986 pacientes submetidos à colonoscopia identificou prevalência de diverticulose colônica de 22,1%, com média de idade de 68,3 anos e maioria feminina (51,4%) entre os afetados.

Um dado relevante trazido pela literatura analisada na pesquisa desenvolvida na Univates é a associação entre obesidade e diverticulose em mulheres, especialmente após a menopausa. O IMC médio da amostra deste estudo (28,78 kg/m²), que indica sobrepeso, é um fator que merece ser observado nesse contexto, já que o acúmulo de gordura abdominal e as mudanças hormonais do climatério podem contribuir para o desenvolvimento da condição.

Quando não tratada adequadamente, a diverticulose pode evoluir para diverticulite aguda, com inflamação dos divertículos, dor abdominal, febre e complicações graves como perfuração intestinal, abscesso, peritonite e sepse. A detecção precoce e o monitoramento regular são, assim, importantes para evitar o agravamento.

Uma teia de riscos

O estudo também toca em uma dimensão muitas vezes negligenciada, sendo essa a coexistência entre o risco de câncer colorretal e o de câncer de mama em mulheres após a menopausa. Após a cessação da função ovariana, o aumento dos níveis de estrogênio em mulheres obesas eleva o risco de câncer de mama. No caso do câncer colorretal, dietas ricas em gordura contribuem para a elevação dos ácidos biliares, favorecendo inflamações, proliferação bacteriana e a formação de compostos carcinogênicos, um caminho que pode levar à formação de adenomas e, posteriormente, ao câncer.

Ficha do estudo


Título: Achados colonoscópicos em mulheres a partir de 50 anos de idade no Vale do Taquari, RS

Autoras: Ana Carolina Becker (acadêmica de Medicina, Univates) e Profa. Dra. Adriane Pozzobon (doutora em Fisiologia; biomédica; bióloga e professora titular da Univates)

Instituição: Universidade do Vale do Taquari - Univates, Lajeado/RS

Publicação: Brazilian Journal of Implantology and Health Sciences, Volume 8, Issue 5 (2026), páginas 1687-1703

DOI: https://doi.org/10.36557/2674-8169.2026v8n5p1687-1703  

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