
Vivências na natureza ganham evidência científica como aliadas no desenvolvimento de crianças com TDAH
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 26/02/2026, 14:15:00
No cenário atual em que transtornos do desenvolvimento infantojuvenil, como o Transtorno do Déficit de Atenção e Hiperatividade (TDAH), mobilizam famílias, escolas e profissionais de saúde, um estudo recente publicado na revista Educação & Realidade lança luz sobre uma abordagem complementar de tratamento que foge ao espaço tradicional da sala de aula e do consultório clínico.
A pesquisa “Crianças com TDAH em Contato com a Natureza: transformações possíveis”, conduzida pela Dra. Mônica Maria Siqueira Damasceno (Instituto Federal de Educação, Ciência e Tecnologia do Ceará – IFCE, campus Juazeiro do Norte), Dra. Jane Márcia Mazzarino (Universidade do Vale do Taquari – Univates) e Dra. Aida Figueiredo (Universidade de Aveiro, Portugal), explorou, de forma sistemática, o impacto de vivências em ambientes naturais sobre os sintomas do TDAH em crianças.
A investigação qualitativa, realizada em contexto educacional no Brasil, revela que interações com o meio natural podem reduzir a intensidade de sintomas como hiperatividade, impulsividade e desatenção em crianças diagnosticadas com TDAH, abrindo espaço para reflexões sobre práticas pedagógicas e terapêuticas complementares.
O TDAH, segundo a literatura científica, caracteriza-se como um transtorno do neurodesenvolvimento que envolve dificuldades em manter a atenção, controlar impulsos e apresentar níveis de hiperatividade incompatíveis com o nível de desenvolvimento do indivíduo.
Tais sintomas têm sido tradicionalmente abordados por meio de tratamento farmacológico e terapias comportamentais, embora haja consenso de que soluções exclusivas não atendem a todas as demandas dos indivíduos afetados. A pesquisa de Damasceno e colaboradores parte desse entendimento e questiona como o contato com a natureza, um ingrediente pouco explorado nas abordagens convencionais, pode atuar como um agente de transformação comportamental em crianças com TDAH.
O estudo teve como foco o município do Crato, no estado do Ceará, região Nordeste do Brasil, onde as vivências foram realizadas com crianças matriculadas em escolas públicas da rede municipal. O Crato é uma cidade marcada pela proximidade com a Chapada do Araripe, um ambiente natural de grande biodiversidade e pluralidade de ecossistemas, o que oferece um cenário ideal para experiências de contato direto com a natureza. O ambiente foi utilizado como espaço de intervenção para estimular a interação das crianças com a paisagem natural, suas formas de vida e atividades ao ar livre.
Método da pesquisa
A pesquisa adotou um delineamento qualitativo com enfoque exploratório. A população estudada foi composta por crianças de escolas públicas do Crato com indicação de TDAH documentada por laudos médicos, correspondendo à classificação CID10-F.90.0 (equivalente à CID11-6A05) utilizada no reconhecimento formal do transtorno. Os critérios de inclusão definiram que os participantes tinham entre sete e doze anos de idade, possuíam diagnóstico médico confirmado de TDAH e estavam regularmente matriculados em escolas públicas municipais. Ao final do processo de triagem, 11 crianças foram selecionadas para participação direta no estudo, que se desdobrou em dois grupos experimentais distintos: um Grupo de Intervenção, que participou das vivências em ambientes naturais, e um Grupo Controle, que não teve esse contato direcionado.
O procedimento de intervenção envolveu ciclos de atividades realizadas em ambientes naturais, explorando suas características para promover experiências sensoriais, motoras e cognitivas. Esses encontros com o meio ambiente incluíram caminhadas ecológicas, exploração da fauna e flora locais, atividades de observação e interação livre com elementos naturais, sempre com a supervisão de pesquisadores e com o consentimento dos responsáveis legais. Antes de iniciar qualquer procedimento, todos os responsáveis pelas crianças assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), garantindo a conformidade ética do estudo

Mônica Maria Siqueira Damasceno
Divulgação/Acervo pessoalPrincipais achados e evidências
Um dos achados da pesquisa foi a constatação de que, embora os subtipos de TDAH continuassem presentes após as vivências no ambiente natural, ou seja, o diagnóstico em si não desapareceu, os sintomas manifestaram-se com menor intensidade nos participantes expostos às atividades na natureza. Isso significa que comportamentos associados à impulsividade, desatenção e agitação, ainda perceptíveis, tornaram-se menos intrusivos, proporcionando indicadores de que a natureza pode atuar como um elemento restaurador e modulador de aspectos do comportamento infantil relacionados ao TDAH.
O resultado ecoa achados de outras pesquisas internacionais, que sugerem que exposição a ambientes naturais pode influenciar positivamente aspectos cognitivos e emocionais em crianças de forma geral. Estudos anteriores indicam que espaços ao ar livre e em contato com o verde estão associados a melhoria na atenção, na memória e no bem-estar psicológico, além de facilitação de interações sociais e desenvolvimento motor.Esses efeitos, ainda que não se apresentem como soluções únicas ou definitivas para o TDAH, apontam para uma direção promissora de complementaridade entre educação, saúde e ambiente.
A análise qualitativa feita pela equipe de pesquisadores também observou que crianças que participaram das atividades naturais demonstraram, ao longo do tempo, sinais de maior calma em contextos menos estruturados, assim como maior capacidade de relacionar-se com o grupo e com o ambiente imediato. Relatos de responsáveis e educadores envolvendo observações pós-intervenção, por exemplo, mencionaram uma postura mais colaborativa e uma redução perceptível de comportamentos disruptivos nos momentos de interações sociais. Relatos de responsáveis e educadores envolvendo observações pós-intervenção mencionaram uma postura mais colaborativa e uma redução perceptível de comportamentos disruptivos nos momentos de interação social. A convergência dessas narrativas qualitativas indica uma tendência consistente, que pode ser aprofundada em investigações futuras com diferentes delineamentos metodológicos.
Relevância científica e social
A importância científica do trabalho reside em sua contribuição para a compreensão de que o ambiente pode ter um papel ativo nos processos de desenvolvimento comportamental e cognitivo de crianças com TDAH. Ao deslocar o foco exclusivo de intervenções convencionais para incluir contato com a natureza, o estudo reflete uma tendência interdisciplinar que articula educação, psicologia, saúde pública e educação ambiental movimento que, por sua vez, dialoga com vertentes teóricas que ressaltam a importância do meio ambiente como elemento constitutivo nas dinâmicas de aprendizagem e no desenvolvimento biopsicossocial de crianças.
No plano social, a pesquisa apresenta implicações. Se atividades estruturadas em ambientes naturais podem, de fato, auxiliar na redução da intensidade de sintomas do TDAH, a perspectiva aponta para a necessidade de repensar o currículo escolar e práticas pedagógicas, sobretudo no que tange à criação de espaços verdes nos ambientes educacionais e à incorporação de atividades externas como parte integrante do processo de ensino-aprendizagem.
Além disso, resultados dessa natureza podem embasar ações de educação inclusiva que valorizem alternativas contextuais ao tratamento clínico tradicional, oferecendo às famílias e às redes de apoio um repertório ampliado de possibilidades. Considerando que o TDAH é um transtorno com prevalência comum em contextos escolares e que pode impactar o desempenho acadêmico e a convivência social das crianças, abordagens complementares que promovam saúde, bem-estar e conectividade com o ambiente natural podem representar um avanço na construção de práticas educativas e terapêuticas mais integradas e humanizadas.
Contextualização do tema
A discussão sobre contato com a natureza e desenvolvimento infantil não se restringe ao universo do TDAH. Pesquisas em psicologia ambiental têm explorado amplamente como a interação com ambientes naturais favorece processos de restauração cognitiva, redução do estresse e estímulo a comportamentos pró-sociais. Alguns autores defendem que a experiência estética e sensorial proporcionada por ambientes verdes pode ser importante no estabelecimento de vínculos afetivos e cognitivos que ultrapassam a simples observação do meio ambiente.
Dentro desse contexto mais amplo, o foco específico em crianças com TDAH surge como um campo emergente de investigação que busca compreender não apenas as propriedades do ambiente natural, mas como essas propriedades podem interagir com características neuropsicológicas particulares. Embora o TDAH seja um transtorno neurobiológico com causas multifatoriais, o que inclui genética e fatores ambientais internos e externos, evidências crescentes apontam para a necessidade de olhar para além dos modelos estritamente medicinais, incorporando práticas que envolvem experiências físicas, sensoriais e de socialização em contextos naturais.
Referência
DAMASCENO, Monica Maria Siqueira; MAZZARINO, Jane Márcia; FIGUEIREDO, Aida. Crianças com TDAH em Contato com a Natureza: transformações possíveis. Educação & Realidade, v. 50, p. e136168, 2025. DOI: https://doi.org/10.1590/2175-6236136168vs01.


