Pesquisa, PPGAD, Vale do Taquari

Agricultura e ocupação territorial transformaram os entornos do Rio Taquari entre 1750 e 1850

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 20/08/2026, 08:45:00

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Atualizado em: 20/08/2026, 12:32:17

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Entre a segunda metade do século XVIII e a primeira metade do século XIX, a ocupação dos entornos do Rio Taquari esteve associada à implantação de sesmarias, fazendas e atividades agrícolas que modificaram as relações econômicas, sociais e ambientais estabelecidas no território. É o que demonstra o estudo “Sesmarias e fazendas: atividades econômicas e os desdobramentos socioambientais nos entornos do Rio Taquari, Rio Grande do Sul (1750-1850)”, desenvolvido por Moisés Ilair Blum Vedoy, mestre em Ambiente e Desenvolvimento pela Universidade do Vale do Taquari - Univates, sob orientação de Luís Fernando da Silva Laroque, professor e pesquisador do Programa de Pós-Graduação em Ambiente e Desenvolvimento e do curso de História da Instituição. O trabalho integra o projeto de pesquisa “Identidades étnicas em espaços territoriais da Bacia Hidrográfica do Taquari-Antas/RS”.

Publicado na revista História: Questões & Debates, da Universidade Federal do Paraná, o artigo investiga de que maneira a implantação de propriedades rurais e o desenvolvimento da agricultura alteraram a dinâmica do território. A pesquisa identifica a agricultura como principal atividade econômica nas áreas estudadas, acompanhada da extração de recursos naturais, especialmente madeira e erva-mate, modelo que se distinguia da pecuária predominante em outras áreas do Sul do Brasil Meridional e que produziu efeitos sobre uma paisagem marcada pela Mata Atlântica, pela presença de rios e arroios e por uma expressiva diversidade de fauna e flora.

Reprodução/Biblioteca Nacional

Mappa corográphico da capitania de S. Pedro em 1801

Uma região estratégica para a ocupação portuguesa

O estudo parte da compreensão de que a Bacia Hidrográfica do Rio Taquari não era um território vazio antes da expansão colonial. Diferentes grupos indígenas ocupavam e utilizavam a região, entre eles Guarani e Kaingang. A partir do século XVII, jesuítas e bandeirantes também passaram pelo território. Na segunda metade do século XVIII, entretanto, a região passou a integrar de maneira mais sistemática os projetos de ocupação territorial da Coroa Portuguesa, em um contexto marcado pelas disputas entre as coroas ibéricas pelo controle das áreas meridionais da América.

Nesse processo, foram estabelecidas sesmarias e fazendas, ao mesmo tempo que famílias açorianas eram incentivadas a se instalar na região. São José de Taquari, fundada em 1764 inicialmente como povoamento e posteriormente como freguesia, aparece no estudo como um marco desse processo colonizador. Os primeiros núcleos de povoamento também estiveram relacionados a localidades como Encruzilhada e Triunfo.

A concessão de terras, portanto, cumpria simultaneamente funções econômicas e geopolíticas, visto que o estabelecimento de propriedades contribuía para consolidar a presença portuguesa em uma área considerada estratégica, enquanto a exploração agrícola permitia estruturar economicamente os novos núcleos populacionais.

Os registros analisados pelos pesquisadores apresentam a expansão do processo. Uma das primeiras concessões identificadas é a sesmaria concedida a Francisco Machado Fagundes da Silveira, em 1762, nas proximidades da foz do Rio Taquari com o Rio Jacuí. Posteriormente, aparecem registros de concessões realizadas ao longo das décadas de 1780, 1790, 1800 e 1810, incluindo áreas que atualmente correspondem a municípios do Vale do Taquari, como Estrela, Lajeado, Bom Retiro do Sul, Taquari, Colinas e Arroio do Meio.

Biblioteca Nacional

Fragmento de mapa de 1772, onde aparece as guarnições militares de Rio Pardo e Santo Amaro, às margens do Rio Jacuí

Agricultura, madeira e erva-mate

Quando reconstrói as atividades econômicas desenvolvidas nessas propriedades, a pesquisa encontra uma produção agrícola diversificada. Entre os cultivos mencionados nos documentos estão trigo, milho, feijão, batata, cana-de-açúcar, café, fumo, algodão, chá, lentilhas, ervilhas e bananas. Os produtos provavelmente abasteciam as primeiras vilas estabelecidas na região e eram transportados pelos cursos d’água, alcançando áreas como Taquari, Triunfo e, possivelmente, Porto Alegre.

O trigo tem particular relevância na análise desenvolvida pelos pesquisadores. A documentação indica que a produção agrícola da região apresentava características próprias, relacionadas tanto às condições naturais quanto à posição geográfica do território. A pesquisa mostra, ainda, que a agricultura não constituía uma atividade isolada, estando conectada à exploração de madeira, à extração da erva-mate e à possibilidade de transporte fluvial.

Uma correspondência da Subdelegacia de Polícia de Taquari de 1847, por exemplo, descreve áreas consideradas propícias ao cultivo e registra a existência de diferentes espécies de árvores, ervais e pinhais. A documentação também indica a navegabilidade do Rio Taquari durante grande parte do ano, fator que favorecia a circulação de produtos e recursos.

As madeiras de lei identificadas nos registros incluíam espécies como ipê, guajuvira, louro, cabriúva, figueira, angico e araucária. Segundo a pesquisa, a madeira era transformada em tábuas e utilizada na fabricação de móveis, barcos e na construção civil.

Economia e ambiente como dimensões inseparáveis

Uma das principais contribuições do estudo está em relacionar o desenvolvimento econômico às condições ambientais que o tornaram possível. A Bacia Hidrográfica do Rio Taquari está inserida no bioma Mata Atlântica e compreende formações de Floresta Decidual e Floresta Ombrófila Mista, esta última marcada pela presença da araucária. O território apresentava solos, recursos hídricos, fauna, flora e condições de navegabilidade que favoreciam a implantação das atividades agrícolas.

Os pesquisadores observam que a economia agrícola dependia diretamente dessa estrutura ambiental. Em outras palavras, os recursos naturais são eles próprios elementos constitutivos do sistema econômico.

A documentação também permite perceber que a exploração dos recursos assumiu características distintas daquelas observadas nas formas indígenas de manejo do território. A pesquisa aponta que os povos Kaingang já utilizavam os espaços da bacia para obtenção de recursos e subsistência antes da expansão das fazendas. A chegada das propriedades privadas introduziu uma lógica diferente, baseada na apropriação territorial, no cultivo e na extração de recursos com finalidade econômica.

Nas considerações finais, os autores sintetizam essa mudança como “um ponto de ruptura e inicial de um novo modelo econômico de posse privada da terra e do plantio e da extração transformadas em lucro, já no final do século XVIII”.

Herrmann Wendroth/Wikimedia Commons

Típica propriedade rural da zona central da Província de São Pedro, 1852

Disputas territoriais e trabalho escravizado

A transformação econômica também teve consequências sociais. O cercamento e o mapeamento das propriedades contribuíram para conflitos com grupos indígenas, especialmente os Kaingang. Uma correspondência policial de 1836 analisada no artigo registra um episódio envolvendo um homem pardo escravizado, atingido por flechas em área próxima à Fazenda da Estrella.

Para os pesquisadores, os conflitos precisam ser compreendidos a partir de diferentes concepções de território. Enquanto a expansão das fazendas estava associada à propriedade privada e à delimitação das terras, os Kaingang mantinham uma relação distinta com os espaços da bacia, vinculada à obtenção de recursos naturais e a formas de uso que não correspondiam à lógica de privatização da terra.

A pesquisa também mostra a presença de trabalhadores escravizados nas atividades das fazendas. A documentação analisada aponta para uma economia agrícola apoiada em mão de obra escravizada e caracterizada por reduzida mobilidade social. No caso da Fazenda da Estrella, os registros indicam a presença de escravizados vinculados ao proprietário e permitem relacionar o funcionamento da propriedade à produção agrícola.

Assim, a paisagem econômica do período na região não pode ser dissociada das relações de poder que estruturavam a sociedade. A expansão das propriedades, a exploração dos recursos naturais e a utilização do trabalho escravizado faziam parte de um mesmo processo de transformação territorial.

Dados do estudo  

VEDOY, Moisés Ilair Blum; DA SILVA LAROQUE, Luís Fernando. Sesmarias e fazendas: atividades econômicas e os desdobramentos socioambientais nos entornos do Rio Taquari, Rio Grande do Sul (1750-1850). História: Questões & Debates, v. 73, n. 2, 2025. DOI: https://doi.org/10.5380/his.v73i2.74493

Reprodução/Biblioteca Nacional

Recorte do Mappa corográphico da capitania de S. Pedro em 1801

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