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Encontrar Ítaca também é uma escolha de gestão

Por Bernardete B. Cerutti e Luciane Franke

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Postado em: 26/08/2026, 08:48:49

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Na Odisseia, poema épico atribuído a Homero, Ulisses era rei de Ítaca, onde vivia com sua esposa, Penélope, e seu filho. Convocado para lutar na Guerra de Troia, permaneceu dez anos distante de casa. Encerrada a guerra, iniciou uma longa e difícil viagem de retorno, enfrentando tempestades, perigos, perdas e incontáveis obstáculos.

Em um desses momentos, Ulisses chegou à ilha da deusa Calipso. Ali permaneceu durante anos, cercado de beleza, conforto e segurança. Calipso chegou a lhe oferecer algo extraordinário: a juventude eterna e a imortalidade, desde que ele permanecesse ao seu lado. Ainda assim, Ulisses escolheu partir. Preferiu continuar sendo humano, enfrentar novamente o mar e retornar a Ítaca, sua terra, sua casa e seu lugar, em vez de viver eternamente em um espaço que não reconhecia como seu.

Essa história nos convida a refletir sobre o significado de uma vida boa. Talvez a felicidade não esteja apenas no conforto, no reconhecimento ou nas oportunidades que aparecem diante de nós. Talvez ela esteja principalmente em encontrar o lugar em que nossa existência faz sentido, reconhecer o que consideramos importante e orientar nossas escolhas a partir disso.

Ítaca não precisa ser somente um lugar geográfico. Pode ser uma profissão, uma causa, um projeto, uma sala de aula, uma empresa, uma comunidade ou uma forma particular de contribuir. Encontrar Ítaca, porém, não significa encontrar uma vida sem dificuldades. Muitas vezes, o lugar com o qual mais nos identificamos é também aquele que mais nos desafia, porque exige preparo, expõe limitações e nos obriga a rever certezas.

Essa mesma lógica está presente na gestão. Gerir é, essencialmente, fazer escolhas: decidir no que investir tempo e recursos, definir prioridades, assumir riscos, organizar pessoas, avaliar resultados e reconhecer o que deve continuar, o que precisa mudar e o que já não faz mais sentido. Como os recursos são limitados, toda decisão envolve alguma forma de renúncia.

Por isso, uma das competências mais importantes de um gestor não está apenas em identificar oportunidades, mas em reconhecer quais delas estão alinhadas aos objetivos da organização e às responsabilidades assumidas por quem a conduz. Nem toda proposta aparentemente vantajosa representa o melhor caminho. Nem todo crescimento significa desenvolvimento, assim como nem toda posição valorizada pelos outros corresponde ao lugar em que uma pessoa poderá oferecer sua melhor contribuição.

Ulisses recebeu uma proposta que, sob muitos critérios, parecia irrecusável: segurança, conforto, juventude e imortalidade. Ainda assim, percebeu que permanecer significaria desistir daquilo que dava sentido à sua trajetória. Sua decisão mostra que avaliar uma oportunidade não significa considerar apenas o que ela oferece, mas também aquilo de que teremos de abrir mão para aceitá-la.

Nas organizações, decisões semelhantes acontecem todos os dias, ainda que de maneira menos grandiosa. Uma empresa pode escolher resultados imediatos e comprometer sua sustentabilidade no longo prazo. Um profissional pode aceitar uma posição de destaque e perceber que ela o afasta do trabalho que deseja realizar. Um gestor pode preservar processos conhecidos, mesmo quando eles já não respondem às necessidades da equipe. Uma liderança pode evitar conversas difíceis para manter uma tranquilidade momentânea, enquanto os problemas continuam se acumulando.

Gestão exige, portanto, a capacidade de olhar além da vantagem imediata. Exige compreender aonde se pretende chegar, quais critérios orientam as decisões e quais princípios não devem ser abandonados. Sem essa clareza, pessoas e organizações passam a reagir continuamente às circunstâncias, acumulando metas, projetos e compromissos que nem sempre conduzem a uma direção comum.

Ter clareza sobre uma direção, contudo, não significa permanecer preso a ela. Algumas decisões profissionais somente se tornam mais claras depois da experiência, quando aquilo que parecia interessante se mostra inadequado ou quando uma atividade inesperada revela novas possibilidades. Rever escolhas não representa necessariamente falta de convicção. Em muitos casos, demonstra que aprendemos o suficiente para reconhecer que uma direção precisa ser ajustada.

Também não existe uma única Ítaca para todos. Algumas pessoas encontrarão mais identificação com a liderança de equipes; outras, com a pesquisa, a docência, o empreendedorismo, a gestão pública, o mercado financeiro, a análise de dados ou o desenvolvimento de projetos. As trajetórias podem assumir formas diferentes sem que uma seja necessariamente superior à outra.

Reconhecer essa diversidade de caminhos também exige cuidado com os critérios pelos quais avaliamos o próprio sucesso. O problema surge quando permitimos que as expectativas externas definam completamente o que significa ser bem-sucedido. A régua dos outros é construída a partir das experiências, das ambições, dos medos e também dos limites deles. Ela pode oferecer referências, mas dificilmente será suficiente para avaliar uma trajetória que não lhes pertence.

Escutar conselhos, analisar riscos e aprender com outras experiências fazem parte de qualquer decisão responsável. Isso, porém, é diferente de reproduzir caminhos como se existisse uma única forma correta de construir uma carreira ou conduzir uma organização. A trajetória de outra pessoa pode mostrar possibilidades, mas não substitui a necessidade de estabelecer os próprios critérios.

Talvez encontrar Ítaca não signifique descobrir um lugar perfeito, mas compreender por que determinadas escolhas fazem sentido e quais renúncias estamos dispostos a assumir para sustentá-las. Na vida profissional e na gestão, ter clareza sobre essa direção pode ser mais importante do que aceitar todas as oportunidades que surgem pelo caminho.

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