
Estudo da Univates projeta envelhecimento acelerado no Brasil até 2070
Por Lucas George Wendt
|Postado em: 26/01/2026, 00:45:00
|Atualizado em: 27/01/2026, 13:33:13
Um estudo desenvolvido por Frederico Luiz Kittel, bacharel em Relações Internacionais pela Universidade do Vale do Taquari - Univates, lança um alerta sobre a rápida transformação da estrutura populacional brasileira. Intitulada "Demografia em Mudança: A Evolução Demográfica Brasileira Segundo as Teorias da Primeira e da Segunda Transição Demográfica e as Projeções para 2070", a pesquisa conclui que o país avança por um caminho híbrido, combinando elementos da clássica Primeira Transição Demográfica (PTD) com características da Segunda Transição Demográfica (STD). O diagnóstico aponta para a necessidade de formulação de políticas públicas capazes de enfrentar o acelerado envelhecimento populacional.

"A PTD engloba a transição de inidicadores populacionais, como taxa de natalidade e mortalidade, a partir de melhorias estruturais no padrão de vida, como saneamento básico, avanços na medicina, vacinação e acesso à educação sexual. Enquanto que a STD vai além dos fatores materiais e foca na "mudança ideacional", que seria a alteração de valores e comportamentos da sociedade. Ela está associada ao aumento da autonomia individual, à redefinição do conceito de família, ao adiamento da maternidade e à redução voluntária do número de filhos”, explica Kittel.
Apresentado como Trabalho de Conclusão de Curso, o estudo foi orientado pelo Prof. Dr. Edmilson Milan e aprovado em junho de 2025 pela banca composta pela Profa. Dra. Fernanda Cristina Wiebusch Sindelar e pela Profa. Dra. Luciane Franke. A pesquisa adota uma abordagem quali-quantitativa e explicativa, integrando análise estatística de dados secundários e reflexões teóricas. As fontes utilizadas incluem censos e projeções do IBGE, relatórios do Population Reference Bureau (PRB), documentos do Departamento de Assuntos Econômicos e Sociais da ONU (DESA/ONU) e uma ampla bibliografia clássica e contemporânea.
A metodologia combina pesquisa bibliográfica, responsável por fundamentar a discussão sobre demografia e transições demográficas, e pesquisa documental, voltada para a análise de estatísticas vitais, como natalidade, mortalidade, fecundidade e expectativa de vida. O estudo toma o Brasil como unidade de observação, considerando dados agregados nacionais de 1900 até projeções para 2070, e reconhece limitações inerentes à média estatística, como o mascaramento de desigualdades regionais.
Kittel descreve a evolução demográfica brasileira ao longo das quatro fases da PTD: o período pré-transicional, marcado por altas taxas de natalidade e mortalidade até meados do século XX; a fase de aceleração, quando o crescimento populacional chegou ao pico de 3% ao ano entre 1950 e 1980; a desaceleração, impulsionada pela queda da fecundidade de 5,8 para 1,7 filhos por mulher a partir da década de 1960; e o cenário de estagnação projetado para depois de 2040. A transformação etária é profunda: em 1970, 42% da população tinha até 14 anos; em 2070, o grupo de idosos (65+) será predominante entre os dependentes.
As projeções do IBGE reforçam essa tendência. A taxa de fecundidade total deverá cair para abaixo de 1,5 em 2070, enquanto a expectativa de vida pode alcançar 83,9 anos. A pirâmide etária se inverterá, e a razão de dependência de idosos ultrapassará a de jovens. O crescimento vegetativo deverá se aproximar de zero, sobretudo em função da fecundidade persistentemente baixa, associada à mudança de valores reprodutivos, que pode acarretar em uma “Avalanche de Envelhecimento” populacional.
O estudo também identifica sinais da Segunda Transição Demográfica, como o adiamento da maternidade, o aumento das uniões consensuais entre 1960 e 2010, a elevação das taxas de divórcio e o fortalecimento da autonomia feminina, com a escolaridade média entre homens e mulheres igualada já em 1999 e maior participação feminina na renda familiar. Tendências como secularização, pluralismo familiar e arranjos como casais sem filhos (DINC) aproximam o país de padrões observados na Europa, embora marcadas por desigualdades que moldam um percurso híbrido. Kittel aponta ainda críticas à STD, destacando que a teoria frequentemente subestima impactos econômicos globais, como a precarização do trabalho.
As implicações do envelhecimento são amplas. A ONU classifica o fenômeno como uma megatendência global, e seus efeitos já pressionam sistemas de previdência, nos quais os gastos com idosos são dez vezes maiores que com crianças, redes de saúde, marcadas pelo crescimento das doenças crônicas, e o mercado de trabalho, que enfrentará escassez de jovens. O pesquisador apresenta que estratégias de migração qualificada para suprir déficits laborais e reforça que mudanças demográficas influenciam diretamente a diplomacia e o comércio exterior.
Comparado aos países europeus, onde a STD se consolidou nos anos 1970, o Brasil apresenta uma combinação própria: viveu uma PTD acelerada por campanhas sanitárias e vacinas, com marcos históricos como a Revolta da Vacina, e uma STD parcial moldada pela globalização e pela valorização da autonomia individual. Entretanto, desigualdades socioeconômicas impedem a reprodução integral dos modelos europeus, exigindo abordagens críticas e contextualizadas para a compreensão local do fenômeno.

