Pesquisa

Estudo desenvolvido no Doutorado em Ensino da Univates propõe estratégias para enfrentar a aporofobia e a cegueira moral nas escolas

Por Lucas George

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Postado em: 01/07/2026, 10:00:00

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A discriminação contra pessoas em situação de pobreza, frequentemente invisibilizada no debate público, está no centro de um estudo desenvolvido por pesquisadores vinculados ao Doutorado em Ensino da Universidade do Vale do Taquari - Univates. Publicado na Revista Tópicos, o artigo Reflexões sobre aporofobia, cegueira moral na contemporaneidade e intervenção pedagógica analisa como diferentes formas de preconceito são produzidas e naturalizadas na sociedade contemporânea e propõe estratégias pedagógicas para que escolas e demais espaços educativos atuem na prevenção dessas violências.

O trabalho foi elaborado por uma equipe de pesquisadores liderada por Paulo Henrique Vieira de Macedo, doutorando em Ensino da Univates, em colaboração com docentes, doutorandos, mestrandos e profissionais da educação de diferentes instituições brasileiras. A pesquisa nasceu a partir da participação dos autores no curso de extensão "Direitos Humanos e Diversidades com Profissionais da Educação Básica: Educação Midiática nas Escolas", que motivou reflexões sobre os desafios enfrentados cotidianamente nas comunidades escolares.

As bases do estudo 

O principal objetivo do estudo foi compreender como a aporofobia, conceito criado pela filósofa espanhola Adela Cortina para definir a aversão às pessoas pobres, e a chamada cegueira moral, discutida por Zygmunt Bauman e Leonidas Donskis, manifestam-se na contemporaneidade e influenciam comportamentos, relações sociais e práticas educativas. A pesquisa parte da premissa de que esses fenômenos ultrapassam questões econômicas e estão relacionados à produção de estigmas, às desigualdades sociais e ao papel desempenhado pelos meios de comunicação na construção de imaginários coletivos.

Para desenvolver a investigação, os pesquisadores adotaram uma metodologia qualitativa, fundamentada em pesquisa bibliográfica. O percurso metodológico foi dividido em três etapas. Inicialmente, realizou-se um levantamento e fichamento de obras de autores considerados centrais para o tema, como Adela Cortina, Zygmunt Bauman, Leonidas Donskis e Erving Goffman. Em seguida, essas referências foram articuladas com artigos científicos publicados entre 2011 e 2025, localizados na base SciELO Brasil, utilizando descritores relacionados à aporofobia, estigma, moral, contemporaneidade, mediação pedagógica e direitos humanos. Na etapa final, os autores empregaram a Análise Textual Discursiva (ATD), método que possibilitou identificar relações entre os conceitos estudados e construir novas interpretações sobre o fenômeno investigado.

Os resultados 

Os resultados indicam que a aporofobia permanece pouco conhecida pela população, embora esteja presente em diferentes práticas sociais. Segundo os autores, a pobreza costuma ser associada a atributos negativos, como criminalidade, incapacidade ou inferioridade moral, produzindo formas de exclusão que se perpetuam por meio de discursos sociais, políticos e midiáticos.

Ao longo do artigo, os pesquisadores argumentam que essa dinâmica é potencializada pelo contexto descrito por Bauman como uma "sociedade líquida", caracterizada pela fragilidade das relações humanas, pela aceleração da circulação de informações e pela crescente dificuldade de construir vínculos duradouros. Nesse cenário, afirmam, amplia-se a perda da sensibilidade diante das desigualdades sociais e fortalece-se aquilo que denominam de cegueira moral.

Conforme sintetiza o estudo, os resultados "apontam para uma sociedade líquida, ou seja, esvanecida emocionalmente, com pré-julgamentos acerca da situação nas quais estão imergidas, sem contar com as mídias de um modo geral que instigam a tal ponto de dificultar o discernimento do que é bom ou ruim". Os autores defendem que esse ambiente favorece preconceitos muitas vezes naturalizados e pouco questionados.

A pesquisa também estabelece uma relação entre aporofobia, estigma e ideologia. Apoiada nas contribuições de Erving Goffman, Antonio Gramsci e Marilena Chauí, a discussão demonstra como determinados grupos sociais passam a ser previamente categorizados e julgados, fazendo com que diferenças econômicas sejam convertidas em justificativas para exclusão, discriminação e negação de direitos.

Alternativas para o combate à aporofobia na escola e na universidade 

Embora desenvolva uma análise de caráter teórico, o estudo dedica parte de suas discussões à proposição de alternativas práticas para o contexto educacional. Os pesquisadores sustentam que escolas e universidades são importantes na desconstrução desses preconceitos, desde que promovam processos educativos baseados no diálogo, na escuta qualificada e na formação crítica dos estudantes.

Entre as estratégias sugeridas estão a criação de espaços permanentes de acolhimento, rodas de conversa mediadas por educadores, utilização de recursos culturais como músicas, poemas e vídeos para sensibilização, construção coletiva de regras de convivência e fortalecimento da mediação de conflitos. A pesquisa também destaca a necessidade de formação continuada dos professores para utilização crítica das Tecnologias Digitais de Informação e Comunicação (TDIC), evitando que esses recursos apenas reproduzam padrões e discursos discriminatórios.

Segundo os autores, a intencionalidade pedagógica constitui elemento decisivo nesse processo. O estudo defende que a tecnologia, por si só, não transforma a aprendizagem; sua contribuição depende da capacidade do professor de promover reflexão, interpretação crítica e produção coletiva de conhecimento. Nessa perspectiva, os ambientes educacionais podem tornar-se espaços privilegiados para enfrentar diferentes formas de preconceito, incluindo bullying, homofobia, discriminação social e outras manifestações de violência.

As conclusões reforçam que a superação da aporofobia depende tanto de políticas públicas quanto de mudanças culturais e educacionais. Para os pesquisadores, ampliar oportunidades de participação, fortalecer práticas democráticas e estimular o pensamento crítico desde a educação básica representam caminhos para reduzir desigualdades e ampliar o reconhecimento da dignidade humana.

Referência 

MACEDO, P. H. V. et al. Reflexões Sobre Aporofobia, Cegueira Moral na Contemporaneidade e Intervenção Pedagógica. Revista Tópicos, Rio de Janeiro, v. 4, n. 34, p. 1-24, 2026. ISSN: 2965-6672. DOI: https://doi.org/10.70773/revistatopicos/781325115

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