Vale do Taquari, Pesquisa

Estudo propõe estratégias emergenciais para garantir água potável durante enchentes em Cruzeiro do Sul

Por Lucas George Wendt

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Postado em: 12/02/2026, 10:45:00

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Atualizado em: 12/02/2026, 13:57:23

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Uma pesquisa desenvolvida no curso de Engenharia Civil da Universidade do Vale do Taquari - Univates propõe um conjunto de estratégias técnicas para garantir o abastecimento de água potável em situações de emergência causadas por eventos hidrológicos extremos, como as enchentes que devastaram o Vale do Taquari em 2023 e 2024. 

O estudo, intitulado “Avaliação de estratégias para o reabastecimento de água em situações de emergência por eventos hidrológicos”, foi conduzido pela estudante Ariane Kwiatkowski Scheffer, sob orientação da professora Sofia Royer Moraes, e aprovado pela banca examinadora composta pela Carolina Becker Porto Fransozi (Univates) e Renata Rossoni (mestra em Recursos Hídricos e Saneamento Ambiental).

A motivação para a pesquisa surgiu diante do cenário crítico vivido pelo Rio Grande do Sul, especialmente após as enchentes históricas de maio de 2024, que deixaram mais de 1 milhão de pessoas sem acesso à água potável. O município de Cruzeiro do Sul, localizado no Vale do Taquari, foi um dos mais afetados: aproximadamente 70% de sua população (cerca de 8.800 pessoas) ficou desabastecida por vários dias devido à dependência da Estação de Tratamento de Água (ETA) de Lajeado,  impactada pela catástrofe. 

Método da pesquisa: diagnóstico técnico e propostas escalonadas

A metodologia adotada no trabalho baseou-se em quatro etapas principais. A primeira, foi um diagnóstico dos impactos do desabastecimento durante as enchentes de abril e maio de 2024, com coleta de dados oficiais de órgãos como Corsan, INMET, ANA e Defesa Civil. A seguir foi realizada a caracterização dos recursos hídricos e infraestrutura local, incluindo mapeamento de poços, análise da rede de distribuição, identificação de áreas de risco e avaliação da vulnerabilidade do sistema. 

Na sequência, aconteceu o desenvolvimento de propostas alternativas de abastecimento, organizadas em prazos de curto, médio e longo prazo, com dimensionamento técnico detalhado. Por fim, foi realizada a análise técnico-econômica comparativa das alternativas, considerando critérios como custo, tempo de implementação, confiabilidade e capacidade de atendimento.

O estudo seguiu as diretrizes normativas da ABNT (NBR 12211, 12216, 15527).

Márcio Steiner

Resultados 

A análise do sistema de abastecimento de água de Cruzeiro do Sul evidenciou vulnerabilidades estruturais que comprometem a segurança hídrica do município. Entre os principais achados, destacam-se a dependência da ETA de Lajeado, configurando um ponto crítico, a localização de adutoras e estações elevatórias em áreas sujeitas a inundações extremas, assim como as perdas na rede de distribuição e a ausência de redundância e reservação emergencial. Diante desse cenário, a pesquisa propõe um conjunto escalonado de intervenções capazes de fortalecer o sistema tanto no curto quanto no longo prazo.

Para o horizonte de 6 a 12 meses, o estudo indica soluções de implementação rápida e baixo custo, como o uso estratégico dos 90 poços artesianos já cadastrados no município e fora da área sujeita às inundações. Com capacidade conjunta suficiente para atender 1,8 vez a demanda prevista para 2044, os poços localizados fora das áreas de risco podem ser utilizados como fonte emergencial segura. Recomenda-se também instalar reservatórios de emergência em pontos elevados, garantindo autonomia de abastecimento por até três dias.

No médio prazo, entre um e três anos, sugerem-se ações voltadas à redução da pressão sobre o sistema principal, como a ampliação do uso de cisternas para captação de água da chuva em residências e prédios públicos. Os cálculos indicam que uma residência padrão pode reduzir em 46,3% o consumo de água potável ao destinar água pluvial a usos não potáveis. Complementam esse conjunto de medidas a expansão da reservação municipal e a setorização da rede, fundamentais para diminuir perdas e melhorar a eficiência operacional.

As soluções de longo prazo, previstas para três a cinco anos, incluem investimentos estruturais mais completos. A construção de uma ETA própria permitiria ao município alcançar autonomia, com capacidade para atender uma população estimada em 18.790 habitantes até 2044 e contemplando todas as etapas necessárias do tratamento de água. Além disso, propõe-se a implantação de wetlands construídos para o tratamento e reuso de efluentes, integrados a programas de Pagamento por Serviços Ambientais (PSA), incentivando a proteção de nascentes e matas ciliares.

A análise técnico-econômica das alternativas demonstrou que os poços artesianos representam a melhor relação custo-benefício no curto prazo, enquanto as cisternas se mostram eficientes para reduzir a demanda sobre o sistema. A ETA própria, embora exija maior investimento inicial, pode garantir segurança hídrica duradoura, e os wetlands associados a PSA constituem soluções ambientalmente sustentáveis e de baixo custo operacional. Assim, a recomendação principal é a adoção de um plano faseado e integrado, iniciando pelas medidas de rápida execução e menor custo, e avançando gradualmente para soluções estruturais que assegurem resiliência e autonomia ao abastecimento de Cruzeiro do Sul.

Ariane Kwiatkowski Scheffer

Divulgação - Acervo pessoal

Contribuições para políticas públicas e gestão de desastres

O trabalho destaca a necessidade prevalente do planejamento hídrico a nível de município e a criação de um Plano de Contingência Hídrica com protocolos claros para situações de emergência em casos de ocorrência de desastres e escassez hídrica. Além disso, reforça a importância de políticas públicas que incentivem a captação de água da chuva, o reuso de efluentes e a preservação de mananciais.

“A segurança hídrica em cenários de emergência exige ações integradas que envolvam aspectos técnicos, ambientais, legais, sociais e financeiros”, afirma Ariane Scheffer. “Embora algumas soluções demandem investimentos significativos, seu planejamento gradual é essencial para aumentar a resiliência dos sistemas de abastecimento e garantir o acesso à água como direito fundamental.”

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